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O heavy metal é preconceituoso e intolerante. Cabe aos fãs mudar isso

igornatusch
há 2 anos1 visualizações

O vocalista Phil Anselmo, que cantou com o Pantera e vem tocando para a frente uma série de projetos dentro do heavy metal, conseguiu enfiar-se em (mais) uma situação constrangedora e repugnante. Ao final do Dimebag Dash, evento promovido no dia 22 de janeiro para lembrar a memória do falecido guitarrista Dimebag Darrell, o vocalista fez um sinal inconfundível (a saudação nazista) enquanto dizia algo que não foi captado, mas que na leitura labial claramente parece ser um "white power". Ao ser criticado por isso, Anselmo respondeu que estava fazendo uma piada com o fato de ter bebido vinho branco no backstage antes de subir ao palco. O que foi fortemente contestado por Robb Flynn, guitarrista e vocalista do Machine Head, que também estava lá e postou online um longo vídeo onde critica Anselmo - e também a comunidade metálica, que há tempos faz de conta que não vê os absurdos proferidos pelo músico.

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O heavy metal é preconceituoso e intolerante. Cabe aos fãs mudar isso

Essa última parte da polêmica me interessa em especial. Sou fã de heavy metal há quase 25 anos, consumo música pesada incansavelmente, ainda compro CDs e camisetas e faço tudo isso com enorme satisfação e nenhum tipo de constrangimento. Contudo, sinto-me cada vez mais apartado da cena metálica em geral - não concretamente, pois sigo indo a shows e interagindo com amigos e amigas, mas intelectualmente e espiritualmente, talvez se possa dizer. Porque o heavy metal (que nunca foi, é forçoso dizer, o mais inclusivo e politicamente engajado dos gêneros musicais) cada vez mais absorve, como uma esponja, o espírito pestilento e reacionário dos nossos dias. Há, em boa parte da cena, um orgulho arrogante em exercer uma espécie de elitismo de araque, como se os fãs de metal fossem a nata entre os apreciadores de música - e esse preconceito ganha forma em um purismo que supera as barreiras do aparelho de som e se alastra para outros aspectos da vida. Um terreno fértil para reacionarismos e intolerâncias de todos os tipos.

Exagero meu? Peço então ao fã de heavy metal que esteja lendo esse texto que rememore as muitas vezes em que viu outros de nós aplaudindo gestos de violência, agindo de forma misógina, fazendo comentários repugnantes sobre negros, homossexuais ou nordestinos. Pense sobre quantas vezes testemunhou essas coisas e ficou calado. Quantas vezes deu risada junto, quantas vezes cometeu esses gestos por iniciativa própria. Pense em todas as oportunidades em que olhou com desprezo para qualquer um fora do seu círculo imediato e então diga, com toda a sinceridade, que o cenário heavy metal não está contaminado por preconceito. Eu sinceramente duvido que você seja capaz de fazê-lo sem, de um modo ou outro, estar mentindo para si mesmo.

O imaginário metálico é obcecado com a ideia de resgatar (ou pelo menos preservar) um passado idealizado. Não só nas histórias folclóricas ou de fantasia de muitas bandas, dos mais diferentes estilos: também no nosso apego às indumentárias oitentistas, na aversão de muitos a qualquer novidade, nos movimentos retrô que periodicamente se manifestam no metal. Coletivamente falando, não somos do tipo que se entusiasma com mudanças. E isso tem nos aproximado ideologicamente do conservadorismo, do reacionarismo e da extrema direita - algo potencializado pela necessidade de chocar, ir contra o estabelecido, mesmo que quase nunca saindo das águas rasas da revolta adolescente. Graças a isso, hoje é possível dizer que o heavy metal é amigável a coisas horríveis - e pior ainda, que não se incomoda com isso. Na verdade, quase dá para dizer que se orgulha de ser o lixo pseudo-ideológico que, em sua maioria, tem sido.

Ridículo? Busque no YouTube o vídeo de Phil Anselmo fazendo a saudação nazista. Pesquise um pouco e veja que, ao contrário do que ele dá a entender, o gesto vem sendo feito por ele há bastante tempo. Pense na quantidade de headbangers aqui no Brasil que aplaudem qualquer bobagem dita por um Bolsonaro da vida. Pense na dificuldade que é para o heavy metal incorporar mudanças que estão acontecendo no mundo - talvez tendo mulheres na liderança de bandas ao invés de serem meros enfeites, por exemplo? Aceitando músicos que se assumem gays sem piadinhas ou comentários infames? Questionando o arremedo de estilo de vida que resume tudo a beber, fazer sexo, ouvir som alto e chocar a sociedade com diatribes sem nenhum senso crítico? Se o quadro incomoda, cabe a nós - os que se incomodam - provocar uma mudança de cenário. Criticar Phil Anselmo por comportar-se como um otário racista (o que, tomem nota, não implica necessariamente em detestar sua música) seria um bom começo. Mas não é o que se vê, ao contrário: as defesas são incansáveis, saltam aos olhos em qualquer caixa de comentários.

Absurdo, né? Quem sou eu para querer dar lição de moral no heavy metal como um todo? Nem todo mundo é assim, eu tenho vários amigos gays, se os negros podem ter orgulho da sua cor eu também posso, esse papo de petralha misturando metal com política não convence ninguém. E quem sou eu para dizer que Phil Anselmo comporta-se como um idiota, que o que ele faz é repulsivo e que são tolos todos aqueles que tentam relativizar o peso de suas atitudes? Ele é um ídolo, eu um coitado que fico escrevendo textão na internet e nunca fiz mais que meia dúzia de shows na vida.

Isso tem nome: negação. E no trecho mais interessante do vídeo de Robb Flynn há uma fala que toca sem piedade nessa ferida. "Não me sinto conectado à comunidade metal já faz algum tempo", diz ele. "Eu não entendo. Não entendo como esse tipo de merda é tolerada. (...) A liberdade de expressão não libera ninguém da crítica por suas atitudes. Não há espaço para isso no metal. E se existe espaço para isso no metal, eu estou fora".

Eu não vou tão longe - porque eu não estou fora. Não vou ceder terreno para a intolerância estúpida tão facilmente. Mas eu também não entendo como o heavy metal se permite ser tão cabeça fechada, tão orgulhoso dos próprios defeitos de caráter. E se você defende Phil Anselmo apenas porque ele é Phil Anselmo, ou porque acha que não é grande coisa ser racista e intolerante, você é parte do problema. No heavy metal e na vida.

Foto: tomek.pl / Flickr

A Primeira Liga está começando. Vida longa à Primeira Liga!

igornatusch
há 2 anos3 visualizações

Começa nesta quarta-feira (27) a Primeira Liga. Os jogos de hoje (Inter x Coritiba, Fluminense x Atlético-PR, Atlético-MG x Flamengo e Criciúma x Cruzeiro) marcam os primeiros passos, ainda um tanto inseguros, de uma competição que é a mais bem-vinda novidade no calendário do futebol brasileiro em mais de uma década. A CBF tenta impedir a competição, ameaça de forma velada com sanções, federações estaduais se agitam e em casos extremos (como no RJ) ameaçam até com a desfiliação de quem jogar o torneio. Reações que, além de potencialmente inócuas (a Lei Pelé prevê a criação de ligas independentes, sem nenhuma necessidade de bênção de federações e demais entidades reguladoras), acabam tendo efeito contrário: ao invés de colocar a Primeira Liga sob suspeição, reforça os motivos pelos quais ela precisa acontecer.

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A Primeira Liga está começando. Vida longa à Primeira Liga!

Que o calendário de nosso futebol é uma bagunça, qualquer um sabe. Embora tenhamos visto alguns progressos recentes (como estender a Copa do Brasil durante o ano todo, o que suavizou a concentração de jogos e abriu espaço para ampliar também a duração do Brasileirão), ainda convivemos com um cenário onde há jogos demais, com competições que não dialogam com certames continentais, onde datas colidem com compromissos FIFA o tempo todo. Além disso, os grandes clubes estão amarrados a um modelo atrasado de campeonatos estaduais, que consome datas demais e só serve realmente aos interesses vampirescos das federações. Ao lançar uma nota em cima da hora tentando impedir a Primeira Liga, a CBF dá a entender que é a iniciativa dos clubes que periga inchar o calendário, como se ele já não estivesse inchado de forma notória há décadas, por iniciativa da própria CBF e de suas federações estaduais. Ou seja, usa de forma canhestra seu erro histórico como argumento para impedir um acerto que coloca em risco o seu poder. Além de cometer, é claro, uma clara ilegalidade.

Ainda mais tragicômica é a postura das federações estaduais. Vivem desde tempos remotos às custas dos principais clubes de seus estados, forçando os clubes menores a passar o ano inteiro esperando por um ou dois jogos que equilibrem suas finanças, disputando competições deficitárias ou simplesmente fechando as portas no restante do tempo. Promovem competições desinteressantes, que devoram quase duas dezenas de datas que os grandes adorariam empregar de outro modo - e agora alegam, com a maior cara lavada deste mundo, que não há espaço no calendário para mais jogos? A quem poderão convencer com semelhante arremedo de argumento?

Não é de hoje que o futebol brasileiro vem sendo impedido de atingir seu potencial por forças que, ao invés de gerir, buscam lucrar com o esporte. Defendo há tempos que o potencial de talentos e a aceitação da torcida poderiam fazer do Campeonato Brasileiro um espetáculo à parte, algo com o potencial comercial de uma NFL ou NBA nos Estados Unidos. O que, por óbvio, será impossível enquanto não forem criadas condições para essa exploração, enquanto não abrirmos mão de fórmulas antiquadas que só atrasam todo o processo. Que sentido faz, em pleno 2016, disputar competições estaduais como se ainda estivéssemos nos anos 1940, como se o grande mérito do Cruzeiro se resumisse a vencer o Atlético Mineiro, como se viajar para a capital mais próxima fosse um desafio que exigisse meses de preparação? É muito mais lógico fazer como se faz em vários países: instituir certames estaduais ou provinciais como módulos em uma quarta ou quinta divisão nacional. É mais interessante para os clubes maiores (que podem, se quiserem mesmo jogar contra os vizinhos estaduais, inscrever um time B) e para os menores também, que jogarão o ano todo com objetivos claros em vista. Só não interessa a quem precisa do atual modelo para lucrar - algo que, ao propor a Primeira Liga, os clubes maiores deixam claro que não se refere a eles.

A competição que nasce nesse meio de semana está ainda distante do ideal. É um torneio curto, ainda desprestigiado pelos próprios participantes (vários times devem usar reservas ou juniores nos jogos), que foi sendo definido meio em cima da hora e acaba sendo tratado como pouco mais que uma sequência de amistosos. Além disso tudo, pouco se viu em termos de propostas para o próximo passo, para o que será feito depois que a Primeira Liga se encerrar. Mas é um primeiro passo importantíssimo. Justamente porque expõe a falência do atual modelo futebolístico brasileiro, ao mesmo tempo que desnuda o rosto daqueles que preferem que tudo fique indefinidamente como está. Ao lançar uma nota vetando a competição com menos de 72h para o primeiro jogo, a CBF faz uma piada consigo mesma, tentando abafar uma mudança sobre a qual tem muito menos controle do que gostaria. E ao ameaçar com desfiliação, a federação do RJ porta-se como o valentão do colégio que fica assustado quando alguém reage a seus abusos. Tentando enfraquecer a Primeira Liga, só fazem mais forte a proximidade entre os clubes que a propõem, só deixam mais urgente a necessidade de disputá-la e aprimorá-la.

Assistirei todos os jogos da Primeira Liga que puder. Irei à Arena, onde meu querido Grêmio disputará seus jogos, em todas as oportunidades. Que seja um enorme sucesso de público e mostre com ainda mais clareza o que todo mundo já sabe: que o futebol brasileiro pode e precisa ser mais, bem mais do que tem sido. 

Imagem: Divulgação / Primeira Liga

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igornatusch
Jornalista. Escritor. Testemunha ocular do fim do mundo.