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O mundo que visita a ruína dos mortos não é um mundo vencedor

igornatusch
há 2 anos1 visualizações

Resolvemos, eu e minha namorada, passar o carnaval em São Miguel das Missões, no noroeste do Rio Grande do Sul. Para quem não sabe (e ninguém, especialmente não-gaúchos, está obrigado a saber), estão localizadas na cidade as ruínas de São Miguel Arcanjo, uma das sete missões jesuíticas erguidas em proximidade com índios guarani e que foram alvo de sangrentas batalhas na segunda metade do Século XVIII. É um lugar belo, ainda que consideravelmente melancólico, em um ambiente propício ao pensamento reflexivo e aos devaneios filosóficos. Além disso, a cidade em torno é pequena e tranquila, e a pousada onde estamos tem uma excelente piscina. Para quem quer distância dos percalços da metrópole por uns dias, como é nosso caso, trata-se de boa e razoavelmente barata opção.

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O mundo que visita a ruína dos mortos não é um mundo vencedor

Na noite de domingo, depois de muitos e agradáveis passeios, fomos assistir o espetáculo de luz e som promovido nas ruínas. É uma forma de contar ao visitante a história por trás das missões, fugindo do professoral e dando a tudo um ar mais grandioso e artístico. Foi uma experiência divertida, emoldurada por um céu limpíssimo de infinitas estrelas, mas devo dizer que a profusão de flashes e celulares me causou espécie e um difuso desagrado. Mesmo em momentos de quase total escuridão, onde a quase impossibilidade de enxergar o que quer que fosse era importante para a dramaticidade do evento, saltavam as máquinas fotográficas a jogar fachos de luz sobre nós, prejudicando todo o efeito previsto. E de forma inútil, pois duvido que a sensibilidade limitada de um aparelho de mão consiga captar mais do que um borrão indistinto de luz, como o jovem inexperiente que acredita ser capaz de fotografar em seu celular a pujante imagem de uma bela lua cheia.

Não é por mau humor que faço os comentários acima. Compreendo bem que vivemos tempos onde o registro é parte inseparável das experiências, onde mostrar que esteve é tão importante quanto estar, onde a memória e as sensações estão grudadas à imagem feita no momento da vivência. É parte importante do modo como as pessoas de hoje vivem as coisas, não é feito por maldade ou frivolidade consciente e não me sinto em posição de fazer condenações enfáticas a respeito. Apenas sinto que, no caso, está sendo reduzida a pixels mais do que a vivência do instante, mas a própria história. E não apenas pelas famílias que fotografam luzes distantes durante um feriado de passeio, mas pelo próprio formato de espetáculo, pela estrutura que nos permite visitar despreocupadamente lugares onde tantos construíram suas existências, lar onde tantos morreram pela recusa em aceitar a ordem de partir.

Como se deve pisar no chão da casa que visitamos, mesmo que agora seja apenas fragmentos e ruínas? Com que sentimento devemos andar pelo solo onde corpos morreram e apodreceram, em meio a prédios que foram engolidos pelas ervas e folhagens durante séculos de abandono antes de virarem lugar não só de peregrinação, mas de lazer? Que capturamos nós da história e da humanidade ao fotografar edificações esvaziadas do original sentido, iluminadas por spots em um show de estímulos sonoros e visuais? Que capturo eu da essência dramática desse solo e dessa história, andando em meio às pedras em um feriado de carnaval, podendo em seguida voltar para um quarto refrigerado ou um agradável mergulho na piscina?

Pudessem nos ver hoje em dia, talvez os homens do passado se ofendessem com a falta de consideração de nossas máquinas fotográficas e selfies ao celular. Ou talvez apenas rissem, como riem os adultos e sábios diante das brincadeiras de uma criança inconsequente. A maioria de nós não vivenciou grandes lutas, não ergueu comunidades com madeira e barro, não sangrou em resistência contra a traição de impérios e exércitos mercenários. Esvaziados de vivência, talvez só possamos mesmo buscá-la na imagem pobre do celular pago em prestações, talvez só possamos conhecer a história por meio da nossa intromissão irrefletida, já que renunciamos desde sempre a um papel ativo em sua construção. Ou talvez nossas lutas sejam bem outras, nossos desafios bem diferentes, diante dos quais um corajoso guerreiro guarani tremeria como nós tremeríamos diante da lança do bandeirante ou do soldado espanhol.

Seja como for, há a ponte, hoje rompida. E algo me diz que não é nas fotos de baixa ou alta definição - ou mesmo nas reflexões descuidadas de um empilhador de palavras como eu - que será possível reconstruí-la. O mundo que visita a ruína dos mortos é o mundo que surgiu depois da vitória de seus algozes, mas não é exatamente um mundo vencedor. Talvez, se deixar um pouco de lado o ar-condicionado e os smartphones, possa aprender com os mortos algo que ajude a enfrentar seus novos e engenhosos grilhões. 

Foto: Igor Natusch

O heavy metal é preconceituoso e intolerante. Cabe aos fãs mudar isso

igornatusch
há 2 anos1 visualizações

O vocalista Phil Anselmo, que cantou com o Pantera e vem tocando para a frente uma série de projetos dentro do heavy metal, conseguiu enfiar-se em (mais) uma situação constrangedora e repugnante. Ao final do Dimebag Dash, evento promovido no dia 22 de janeiro para lembrar a memória do falecido guitarrista Dimebag Darrell, o vocalista fez um sinal inconfundível (a saudação nazista) enquanto dizia algo que não foi captado, mas que na leitura labial claramente parece ser um "white power". Ao ser criticado por isso, Anselmo respondeu que estava fazendo uma piada com o fato de ter bebido vinho branco no backstage antes de subir ao palco. O que foi fortemente contestado por Robb Flynn, guitarrista e vocalista do Machine Head, que também estava lá e postou online um longo vídeo onde critica Anselmo - e também a comunidade metálica, que há tempos faz de conta que não vê os absurdos proferidos pelo músico.

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O heavy metal é preconceituoso e intolerante. Cabe aos fãs mudar isso

Essa última parte da polêmica me interessa em especial. Sou fã de heavy metal há quase 25 anos, consumo música pesada incansavelmente, ainda compro CDs e camisetas e faço tudo isso com enorme satisfação e nenhum tipo de constrangimento. Contudo, sinto-me cada vez mais apartado da cena metálica em geral - não concretamente, pois sigo indo a shows e interagindo com amigos e amigas, mas intelectualmente e espiritualmente, talvez se possa dizer. Porque o heavy metal (que nunca foi, é forçoso dizer, o mais inclusivo e politicamente engajado dos gêneros musicais) cada vez mais absorve, como uma esponja, o espírito pestilento e reacionário dos nossos dias. Há, em boa parte da cena, um orgulho arrogante em exercer uma espécie de elitismo de araque, como se os fãs de metal fossem a nata entre os apreciadores de música - e esse preconceito ganha forma em um purismo que supera as barreiras do aparelho de som e se alastra para outros aspectos da vida. Um terreno fértil para reacionarismos e intolerâncias de todos os tipos.

Exagero meu? Peço então ao fã de heavy metal que esteja lendo esse texto que rememore as muitas vezes em que viu outros de nós aplaudindo gestos de violência, agindo de forma misógina, fazendo comentários repugnantes sobre negros, homossexuais ou nordestinos. Pense sobre quantas vezes testemunhou essas coisas e ficou calado. Quantas vezes deu risada junto, quantas vezes cometeu esses gestos por iniciativa própria. Pense em todas as oportunidades em que olhou com desprezo para qualquer um fora do seu círculo imediato e então diga, com toda a sinceridade, que o cenário heavy metal não está contaminado por preconceito. Eu sinceramente duvido que você seja capaz de fazê-lo sem, de um modo ou outro, estar mentindo para si mesmo.

O imaginário metálico é obcecado com a ideia de resgatar (ou pelo menos preservar) um passado idealizado. Não só nas histórias folclóricas ou de fantasia de muitas bandas, dos mais diferentes estilos: também no nosso apego às indumentárias oitentistas, na aversão de muitos a qualquer novidade, nos movimentos retrô que periodicamente se manifestam no metal. Coletivamente falando, não somos do tipo que se entusiasma com mudanças. E isso tem nos aproximado ideologicamente do conservadorismo, do reacionarismo e da extrema direita - algo potencializado pela necessidade de chocar, ir contra o estabelecido, mesmo que quase nunca saindo das águas rasas da revolta adolescente. Graças a isso, hoje é possível dizer que o heavy metal é amigável a coisas horríveis - e pior ainda, que não se incomoda com isso. Na verdade, quase dá para dizer que se orgulha de ser o lixo pseudo-ideológico que, em sua maioria, tem sido.

Ridículo? Busque no YouTube o vídeo de Phil Anselmo fazendo a saudação nazista. Pesquise um pouco e veja que, ao contrário do que ele dá a entender, o gesto vem sendo feito por ele há bastante tempo. Pense na quantidade de headbangers aqui no Brasil que aplaudem qualquer bobagem dita por um Bolsonaro da vida. Pense na dificuldade que é para o heavy metal incorporar mudanças que estão acontecendo no mundo - talvez tendo mulheres na liderança de bandas ao invés de serem meros enfeites, por exemplo? Aceitando músicos que se assumem gays sem piadinhas ou comentários infames? Questionando o arremedo de estilo de vida que resume tudo a beber, fazer sexo, ouvir som alto e chocar a sociedade com diatribes sem nenhum senso crítico? Se o quadro incomoda, cabe a nós - os que se incomodam - provocar uma mudança de cenário. Criticar Phil Anselmo por comportar-se como um otário racista (o que, tomem nota, não implica necessariamente em detestar sua música) seria um bom começo. Mas não é o que se vê, ao contrário: as defesas são incansáveis, saltam aos olhos em qualquer caixa de comentários.

Absurdo, né? Quem sou eu para querer dar lição de moral no heavy metal como um todo? Nem todo mundo é assim, eu tenho vários amigos gays, se os negros podem ter orgulho da sua cor eu também posso, esse papo de petralha misturando metal com política não convence ninguém. E quem sou eu para dizer que Phil Anselmo comporta-se como um idiota, que o que ele faz é repulsivo e que são tolos todos aqueles que tentam relativizar o peso de suas atitudes? Ele é um ídolo, eu um coitado que fico escrevendo textão na internet e nunca fiz mais que meia dúzia de shows na vida.

Isso tem nome: negação. E no trecho mais interessante do vídeo de Robb Flynn há uma fala que toca sem piedade nessa ferida. "Não me sinto conectado à comunidade metal já faz algum tempo", diz ele. "Eu não entendo. Não entendo como esse tipo de merda é tolerada. (...) A liberdade de expressão não libera ninguém da crítica por suas atitudes. Não há espaço para isso no metal. E se existe espaço para isso no metal, eu estou fora".

Eu não vou tão longe - porque eu não estou fora. Não vou ceder terreno para a intolerância estúpida tão facilmente. Mas eu também não entendo como o heavy metal se permite ser tão cabeça fechada, tão orgulhoso dos próprios defeitos de caráter. E se você defende Phil Anselmo apenas porque ele é Phil Anselmo, ou porque acha que não é grande coisa ser racista e intolerante, você é parte do problema. No heavy metal e na vida.

Foto: tomek.pl / Flickr

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igornatusch
Jornalista. Escritor. Testemunha ocular do fim do mundo.