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Para as polícias, é fácil matar. E por isso as mortes vão continuar

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Os exemplos são inúmeros, mas vamos citar apenas dois mais recentes. Em Santo André (SP),  José Erlanio Freires Alves, ou Tony, jogador de futebol de várzea e pai de quatro crianças, foi morto a tiros numa parada de ônibus, esperando carona para o trabalho no almoxarifado que o empregava. Foi confundido com um suspeito de roubar uma moto e morto a tiros por um policial militar. Segundo o responsável pelos disparos, ele se enganou ao ver Tony com uma caixa de óculos na mão, que julgou ser uma arma de fogo. E em Porto Alegre (RS), o engenheiro Vilmar Mattiello, 58 anos, foi morto a tiros ao ter se recusado a parar ao ser abordado pela Brigada Militar. Segundo relatos, o motorista havia bebido e teve medo de parar o veículo para os policiais. Após curta perseguição, um policial efetuou os disparos, atingindo Vilmar no peito e causando a morte do motorista que fugia.

Unindo os dois casos, há mais do que o resultado final da ação policial - o que, convenhamos, já seria ligação mais que suficiente e muito além do desejável. As mortes, ainda mais do que a tragédia que representam em si mesmas, demonstram a banalização de uma solução que deveria ser extrema, reservada a casos extraordinários e incontornáveis - e também trazem em si uma espécie de endosso coletivo a tal procedimento, que é exposto de forma pouco crítica e raramente resulta em investigações sérias e punições adequadas. Um cenário que não é novo, como sabemos, mas que se perpetua como algo natural, cada vez mais frequente, cada vez mais insensível e aterrador.

Polícia mata. Muito. Quem duvida pode dar uma passada de olhos por esse artigo, que traz dados meio que inquestionáveis nesse sentido: 

E muito mata a polícia porque naturalizou a letalidade enquanto solução de impasses, porque não pode ou não deseja seguir as etapas de abordagem e neutralização que, por pura imposição do bom senso, deveriam surgir antes do disparo da arma. Não é lógico supor, por exemplo, que a simples desconfiança em estar diante de um ladrão de moto motive um PM a encher de tiros alguém que aguarda para ir ao trabalho. Não é impossível que um policial confunda uma caixa de óculos com uma arma, mas não é razoável que dispare para matar antes de ter certeza. E não é de se esperar que a polícia mande acenos e desejos de boa viagem diante de um carro que ignora abordagem, mas matar o fujão a balaços certamente não é a única forma de lidar com a questão, sem ao menos tentar aplicar outras e menos definitivas formas de bloqueio ou dissuasão. Estamos diante de dois casos (apenas dois de inúmeros, vale dizer) onde a morte queimou etapas, onde a munição letal foi um atalho para profissionais talvez assustados, provavelmente estressados e mal equipados para ação, mas sem dúvida nada preparados para lidar com situações extremas com o mínimo de razoabilidade e competência.

O que fazemos diante dessas mortes diz muito sobre o que esperamos de nós mesmos enquanto coletividade, o quanto estamos dispostos a preservar salvaguardas fundamentais para a vida em sociedade. Afinal, a qualidade absurda dessas mortes não parece capaz de nos abalar coletivamente. Ao contrário: muitos se erguem imediatamente para relativizar o intolerável, dizer que só bandido fura bloqueio policial, supor que o homem baleado rumo ao trabalho tenha agido de maneira a induzir ao erro o policial que o matou. Temos um medo do crime que nos devora por dentro, e contra esse horror admitimos tudo, inclusive que o agente da lei vire criminoso. As circunstâncias que ajudam a explicar as mortes (treinamento insuficiente, falta de acompanhamento psicológico e reciclagem, desvalorização profissional) são usados como atenuantes, ao invés de serem vistos como problemas inaceitáveis que devem ser atacados com urgência. E assim vamos empilhando cadáveres, sem que o número absurdo nos cause espécie, sem que a trilha de sangue que já passa pela porta de nossas casas de classe média nos faça repensar.

Para as polícias, é fácil matar. Com um tiro anula-se todo o despreparo, simplificam-se os procedimentos em momentos de tensão, elimina-se o caráter muitas vezes frustrante das devidas instâncias legais. Tudo isso muitas vezes sem prestar mais do que breves esclarecimentos, sem cobrança forte dos órgãos de controle, sem pressão por parte da imprensa e com uma tolerância benevolente (quando não entusiástica) de boa parte da sociedade. E é por isso tudo que as mortes não diminuirão, ao contrário: serão cada vez mais frequentes, cada vez menos justificadas, cada vez mais atrozes e repulsivas. E cada vez menos chamativas. Afinal, uma sociedade embrutecida não chora mais os seus mortos, apenas quer que o tiroteio se resolva o mais rápido possível, seja lá de que modo for.

Foto: Xava Du / Flickr

A última curva de David Bowie (ou, um gênio nos acena adeus)

igornatusch
há 2 anos2 visualizações
A última curva de David Bowie (ou, um gênio nos acena adeus)
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Despedidas nunca foram o forte do ser humano. E isso é especialmente (ou mais visivelmente) verdade quando estamos falando de artistas, pessoas comprometidas com uma obra que não raro alcança toda a extensão de uma vida. Nenhum artista desejará encerrar seu legado com um trabalho menor, mesmo que muitas vezes seja exatamente isso que acaba acontecendo. Não é uma vergonha nem motivo para jogar a obra de alguém no lixo, é claro - mas numerosas são as carreiras que encerram com um livro fraco, um álbum sem entusiasmo, um poema que soa bobo em comparação com a força eloquente do passado. Nada é mais complexo e de triunfo tão difícil de determinar quanto a luta constante do criador para superar suas melhores obras - algo que certamente perde tanta importância com o tempo e a maturidade, mas segue importante para nós, os que não temos legado artístico, os que só podemos comentar a genialidade dos gigantes cujos ombros nos permitem enxergar além.

David Bowie, músico cuja genialidade poucos ousarão questionar, fez de sua despedida o final arrebatador de uma obra inesquecível. Apenas hoje, no dia em que é anunciada sua morte, sabemos sem margem para dúvida que ele passou os últimos 18 meses em uma luta contra o câncer. Dois dias antes, na data de seu aniversário de 69 anos, havia lançado "Blackstar", o 25º álbum completo de uma extensa discografia. Para divulgá-lo, escolheu a música "Lazarus" - e como se o tema (óbvia referência ao homem ressuscitado por Jesus na Bíblia) e a letra não fossem claros o suficiente, ainda fez um videoclip inequívoco sobre o significado profundo da canção: uma despedida candente e apaixonada de quem, diante da morte, exalta a experiência de viver. Lázaro, no caso, não voltará como homem: será incorporado pelo universo, vida que retorna à fonte de onde todas as vidas surgiram e surgirão.

Agora, surgem alguns relatos que reforçam o caráter de adeus de "Blackstar" - entre eles, o do produtor Tony Visconti, que revela ter ciência da gravidade do caso de Bowie há cerca de um ano e que descreve o CD como um "último presente" para os fãs.

Ouço o álbum enquanto escrevo esse texto. É, de fato, um trabalho com uma forte carga de encerramento, de última palavra, de quem coloca ponto final em certas coisas. Mas é, ao mesmo tempo, um álbum muito vivo. Vibrante e intenso. Estranho, em vários momentos. Não é talvez o melhor jeito de começar a ouvir David Bowie. Mas é sem dúvida um álbum criado por alguém que não cansou de criar. Uma enfática declaração de princípios vinda de alguém que nunca gravou música apenas para vendê-la, nunca escreveu versos apenas para dizer o agradável ou o simples de compreender. Ele está se despedindo dos fãs, de todos que apreciaram sua obra - mas está, acima de tudo, despedindo-se de si mesmo. E não o faz com afagos no ouvinte ou com pedidos de aplauso: prefere perturbar, confundir, ir além do confortável. Não que ser genial seja necessariamente ser ousado e intrigante o tempo todo, mas assim sempre foi em se tratando de David Bowie, e assim foi ele mesmo (ou quem sabe até especialmente) diante do fim de sua jornada.

Difícil falar de uma morte como algo artístico, mas talvez seja a melhor forma de descrever a última curva de David Bowie. E quão genial precisa ser um artista que toma seus últimos meses de vida para criar um capítulo final que se revela ainda mais profundo na morte do que já parecia ser em vida? O último contexto de "Blackstar" surge com a morte de seu criador - e, embora seja talvez enfático demais dizer que isso foi plenamente planejado, trata-se de uma obra final vinda de alguém que via a morte próxima e tinha todas as condições e a ousadia criativa para buscar justamente esse efeito, para pensar uma obra que seria, quase imediatamente depois de lançada, póstuma. Não está em "Blackstar", é claro, o mais luminoso legado de David Bowie - algo que, de certo modo, ele próprio reconhece no título do CD. Mas é um trabalho que, mesmo diante da escuridão, brilha como uma estrela - uma morte que, no momento de sua concretização, ilumina tudo como pura vida. Um gênio que, mesmo entre nós, já olhava para nós à distância, acenando adeus. Nós, o que ainda vivemos, bem faremos em saudar adequadamente essa generosa e corajosa genialidade final.

Imagem: Divulgação

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igornatusch
Jornalista. Escritor. Testemunha ocular do fim do mundo.