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"Parabéns, PM": o que há para comemorar quando tudo é violência?

igornatusch
há 2 anos1 visualizações

Se alguém, diante de uma notícia sobre ações violentas das polícias, acha válido dizer "parabéns, PM" ou qualquer coisa desse nível, está para mim imediatamente descartado enquanto debatedor. Porque essa frase denuncia uma mente que abdicou de pensar, e mais: revela um ser humano contaminado pela sede insensata por sangue alheio, que não vê na vida senão um antagonismo onde tudo é ódio e inexistem concessões. Ainda assim, acho que é possível questionar o argumento em si - não apenas porque semelhante disparate é vazio de significado, mas porque ele é venenoso, combustível para a mesma violência que, de forma cínica, pretende criticar.

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"Parabéns, PM": o que há para comemorar quando tudo é violência?

O que há para comemorar em uma ação policial extrema? Ignoremos, em nome da linha de raciocínio, a enorme quantidade de intervenções desastradas das PMs, causando lesões e mortes onde a necessidade disso era mínima ou totalmente inexistente - casos que (podem consultar as estatísticas, caso duvidem) estão alcançando níveis nunca antes imaginados em nosso país. Em si mesmo, esses dados já deveriam transformar os parabéns em um disparate inaceitável; mas OK, vamos fingir que nada disso existe e estamos diante de um caso ideal, uma situação onde a polícia nada podia mesmo fazer senão descer o sarrafo ou meter chumbo. Qual aspecto dessa situação é digno de comemoração? É de se ficar feliz que um policial acabe por agredir ou matar pessoas? É um sinal de melhora nas nossas relações, um sintoma de que nossa sociedade está recuperando a saúde? Aponta, mesmo que de forma tênue, um aumento em nossa segurança coletiva - mesmo que, observem bem, os indicativos nos apontem mais e mais justamente o contrário?

Enquanto argumento, festejar a PM que agride manifestantes ou mata suspeitos no morro é, na melhor das hipóteses, tão adequado quanto aplaudir o veterinário que aplica eutanásia em um animal que não pode mais curar. Como se fosse dever policial assassinar um eventual criminoso, como se a agressão fosse a fórmula derradeira para gerar uma coletividade mais segura. Neutralizar violência com mais violência, apenas com o sinal supostamente trocado, é um pensamento frágil e pobre, que não resiste a cinco minutos de confronto com a lógica. Não surpreende, portanto, que seja adotado com entusiasmo por multidões que abdicaram de pensar. Ao contrário do que acreditam os entusiastas da eventual brutalidade policial, polícia não existe para arrebentar bandido - e, diferente do que gostam de pensar, a eventual bandidagem de farda é tão (às vezes até mais) nociva e inaceitável quanto a civil.

O que pensará um adolescente morador de vila ou favela que, após ver a PM agredir ou matar um vizinho seu, testemunha gente repetindo o mantra tosco do "parabéns, PM"? Não há sequer uma gota de preocupação com justiça nesse tipo de comentário: há apenas a satisfação sádica diante da desgraça de um suposto antagonista que não se conhece nem se deseja conhecer, encarnação primária de todas as maldades do mundo. Deleite insensato que só reforça uma polícia condicionada à agressão, encorajando uma sociedade onde não existem mais pontes entre as ideias e enchendo nossos necrotérios de mortos que não precisavam morrer. Não é porque não se enxerga imediatamente essa relação que ela deixa de existir.

Quem aplaude qualquer ação policial violenta está se juntando a uma claque mórbida, que comemora a consolidação da própria insegurança e a certeza de uma sociedade cada vez mais impraticável. Porque é tolice acreditar que, aplaudindo gestos violentos, está se fazendo uma crítica ou um combate à violência. Estão, isso sim, fazendo festa diante de uma coletividade mais bruta, mais insensível e mais violenta, tanto em termos simbólicos quanto na prática. São os mesmos, aliás, que adoram repetir que Direitos Humanos só protegem bandidos - outra balela venenosa que, a médio prazo, prejudica todos nós. Quer aplaudir? Saiba que está sujando as mãos de sangue. E encare as consequências, ao invés de fingir que não tem nada a ver com o cadáver na esquina.

Foto: Raphael Tsavkko Garcia

A família vestida de Aladdin sofreu linchamento virtual. Lidem com isso

igornatusch
há 2 anos4 visualizações

Em tempos duros como os que vivemos, onde a ação antecede a reflexão e todo mundo parece contaminado pela vontade de ser o justiceiro da vez, um caso como o da família que se fantasiou de personagens do desenho Aladdin é tristemente simbólico. Não acho correto dar grandes detalhes do acontecido, muito menos reproduzir uma vez mais a foto que gerou toda a celeuma, mas tentemos explicar o que houve para quem (afortunadamente) nada sabia do caso até então. Um casal (nada caucasiano, mas também não imediatamente relacionável com a etnia negra), com seu filho adotivo (negro), participou de uma festa carnavalesca vestindo roupas aludindo ao desenho da Disney. O menino usava trajes do personagem Abu, que é o melhor amigo de Aladdin e, como sabemos, um macaquinho. Foi suficiente para que uma foto da família viralizasse, com multidões que acreditavam estar denunciando o que consideraram racismo na imagem. O pai veio a público rebater a acusação, dizendo que queria retratar a amizade entre Aladdin e Abu e que o racismo estava nos olhos de quem via - insuficiente, é claro, para aplacar a sanha de justiça de quem promove linchamento pelas redes sociais.

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A família vestida de Aladdin sofreu linchamento virtual. Lidem com isso

Sim, usei a palavra e a repetirei: linchamento. O que todas as pessoas que divulgaram a foto (a maioria sem sequer tomar o cuidado de disfarçar digitalmente o rosto da criança) promoveram foi um linchamento virtual, onde a família foi condenada por racismo sem nenhum direito a defesa, sem qualquer chance ou tentativa de compreensão, de forma impiedosa e cruel. Assim agiram a partir de um arremedo de argumento, dizendo que era necessário proteger a criança de uma situação vexatória - e para salvá-la do horror a expuseram a um horror maior ainda, espalhando para todos os lados a sua imagem, potencializando a possível vergonha e colocando em risco a estrutura familiar que essa criança (vinda, lembremos, de um orfanato) começa a construir. Que benefício trouxeram ao menino vestido de Abu as multidões que ousam dizer que tentaram protegê-lo, mas só o atingiram ainda mais - e que acusam simploriamente de racismo também aqueles que ousam discordar do modo como tudo foi conduzido?

Dirão alguns que racismo é algo odioso e deve ser condenado sem trégua, sem rodeios ou ponderações. Não percebem, esses que se julgaram portadores de uma verdade indiscutível, que usam o exato argumento dos que defendem a anulação dos direitos humanos, a condenação pelo tribunal do senso comum, a morte inclemente do suposto bandido em flagrante delito. Deve o racista ser marcado a ferro e fogo, de forma que nunca mais possa andar à rua sem que seja cuspido e humilhado por seu pecado? Se racismo cometeu essa família, devemos assumir de imediato que o fizeram com a mais pútrida das intenções, ignorando que possam ter assim agido por ignorância ou de forma desastrada? Não existe diferença entre o assassino de negros e alguém que erra reproduzindo coisas que não conseguiu (ainda) enxergar como preconceituosas? Não devemos, por acaso, agir de acordo com os tons de cinza de um assunto tão grave e tão disseminado mesmo nos mais diminutos gestos de nossa sociedade? É isso que desejamos - pular todas as etapas de discussão e passar direto para a fogueira, tochas em punho, transformando o Facebook em nossa Salem coletiva? Não será esse desespero justiceiro uma forma de calar, com ânsia e severidade, o traço do criminoso que enxergamos em nós mesmos?

Quem compartilha imagem de um suposto criminoso nas redes é um irresponsável, que pode estar cometendo uma brutal injustiça e até ajudando um ato criminoso e trágico contra o denunciado. Aconteceu agora mesmo no RS, com multidões compartilhando a foto do suposto estuprador de uma criança de 5 anos - foto, obviamente, de alguém que nada tinha a ver com o caso. E a mesma lógica, agradável ou não, vale para quem faz "denúncias" via Twitter ou Facebook, expondo o comportamento aparentemente inadequado ou repulsivo dos outros - nunca o seu próprio, é claro. Tomados da nossa presunção de pureza, apontamos sem medo o dedo para a suposta imundície dos outros, como se uma foto resumisse todos os argumentos, como se o momento fosse a totalidade da existência, como se a nós coubesse o papel de guardião e carrasco de quem quer que seja.

A intenção era boa, a luta contra o racismo é nobre e urgente? Pois lembro que é possível cometer a infâmia desejando a bondade, que qualquer um pode jogar a desgraça sobre aqueles que deseja amar e proteger - basta agir de forma irrefletida, acompanhando a manada, sem enxergar o humano que existe em nosso momentâneo antagonista. Assim agiram os que lincharam (sim, lincharam) a família que vestiu seu filho com as roupas de Abu: movidos talvez por boas intenções, mas apenas pavimentando com elas o caminho do inferno de algumas pessoas que não conhecem, que jamais viram e que a quem não deram sequer a consideração de uma defesa. Que alguma lição saia desse episódio lamentável.  

Imagem: Divulgação / Disney

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igornatusch
Jornalista. Escritor. Testemunha ocular do fim do mundo.