O Esforço Diário
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
O Esforço Diário
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
O Esforço Diário
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Um elogio ao textão: antes falar demais do que ficar na piadinha

igornatusch
há 2 anos11 visualizações

Poucas coisas me deixam mais desanimado na atual existência digital brasileira do que o descaso generalizado pelo "textão". Óbvio que ninguém é obrigado a ler o que não deseja, mas é especialmente ruim a ideia geral de que texto longo é um erro, um comportamento equivocado que depõe contra aquele que o pratica. Chegamos a um ponto em que o autor do comentário mais volumoso muitas vezes se desculpa diante dos eventuais leitores - "já aviso que é textão" - como se fugir dos padrões não-escritos da comunicação via internet fosse um desrespeito ou falha de caráter. E essa tendência fala mal de todos nós, que opinamos e consumimos opiniões: estamos sem paciência para ouvir o outro, as mentes tão ocupadas de nós mesmos que quase não sobra espaço para mais nada.

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸
Um elogio ao textão: antes falar demais do que ficar na piadinha

Vamos ser justos: a origem dessa repulsa ao texto longo na internet é bastante complexa e tem a ver com a própria natureza da rede, onde a atenção costuma ser difusa e há uma quantidade interminável de conteúdos para escolher. Além disso, muitos dos alvos da crítica são pessoas que usam o textão para trivialidades ou para menosprezar a inteligência alheia, o que por óbvio pode ser bem desagradável. Em resumo, reclamar do textão não é mera chatice. Mas a reprovação prévia a quem escreve mais do que duas ou três linhas sobre algum tema prejudica o confronto de ideias e a busca de consensos possíveis, tão importantes para tornar ligeiramente mais suportável o mundo que construímos para nós.

Muitos temas, como se sabe, são complexos. Nem tudo cabe em um meme simplificador ou em uma frase de efeito, nem tudo se explica citando um ou dois dados aleatórios sem contexto ou contestação. Muitas explicações - sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre nós mesmos - precisam de tempo e quem escreve sabe que as palavras escritas são, muitas vezes, o melhor modo de organizar o próprio pensamento. Negar ao textão sua eventual legitimidade, no caso, é reforçar uma imposição coletiva pelo argumento raso, é fazer o elogio ao não posicionamento - ou ainda pior, exigir que a posição se resuma a um sim ou não, negando os infinitos tons de cinza no meio do caminho. E se o textão é uma bobagem fútil ou uma mesquinharia, antes o textão sobre besteiras do que o resumo simplório em um meme muitas vezes mentiroso, discussão política e social transformada em troca de ironias dignas de quinta série.

Descartar o textão pelo simples fato de ser textão, como se o texto longo fosse um erro de origem, é inverter a ordem da formação de opiniões: conhecer primeiro, interpretar depois. No caso, interpreta-se que o argumento não vale a pena a partir das primeiras linhas (ou nem isso), negando ao argumento a oportunidade de se desenvolver. E tratando isso como um erro de quem argumenta, não uma circunstância (de tempo disponível ou de má vontade) de quem não quis conhecer o que estava sendo argumentado.

Que todos escrevam muitos, muitos textões. Sobre temas importantes, percepções que fogem ao senso comum, e sobre bobagens e tolices também. Que tenha textão sobre o direito feminino ao aborto e que tenha textão sobre o vizinho que não gosta de cachorro ou deixa o lixo no lugar errado. Que a gente incentive a variedade de depoimentos, ao invés de ficar reclamando porque são muito longos ou porque não temos interesse em alguns deles. E que quem não quer ler esteja permanentemente livre para isso, mas sem que seja preciso sempre ironizar ou ridicularizar quem se deu ao trabalho de escrever. Em um tempo onde o panfleto e a frase feita adoeceram nossa sociedade de vez, parte do antídoto está em dedicar tempo às ideias, suas e dos outros. Quem descarta o argumento longo com o rótulo pobre do textão não está fazendo nem uma coisa nem outra. O risco é afogar a mente em uma poça d'água, pela simples preguiça de levantar a cabeça e respirar.

Imagem: Reprodução / Paramount Pictures

"Parabéns, PM": o que há para comemorar quando tudo é violência?

igornatusch
há 2 anos1 visualizações

Se alguém, diante de uma notícia sobre ações violentas das polícias, acha válido dizer "parabéns, PM" ou qualquer coisa desse nível, está para mim imediatamente descartado enquanto debatedor. Porque essa frase denuncia uma mente que abdicou de pensar, e mais: revela um ser humano contaminado pela sede insensata por sangue alheio, que não vê na vida senão um antagonismo onde tudo é ódio e inexistem concessões. Ainda assim, acho que é possível questionar o argumento em si - não apenas porque semelhante disparate é vazio de significado, mas porque ele é venenoso, combustível para a mesma violência que, de forma cínica, pretende criticar.

Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸
"Parabéns, PM": o que há para comemorar quando tudo é violência?

O que há para comemorar em uma ação policial extrema? Ignoremos, em nome da linha de raciocínio, a enorme quantidade de intervenções desastradas das PMs, causando lesões e mortes onde a necessidade disso era mínima ou totalmente inexistente - casos que (podem consultar as estatísticas, caso duvidem) estão alcançando níveis nunca antes imaginados em nosso país. Em si mesmo, esses dados já deveriam transformar os parabéns em um disparate inaceitável; mas OK, vamos fingir que nada disso existe e estamos diante de um caso ideal, uma situação onde a polícia nada podia mesmo fazer senão descer o sarrafo ou meter chumbo. Qual aspecto dessa situação é digno de comemoração? É de se ficar feliz que um policial acabe por agredir ou matar pessoas? É um sinal de melhora nas nossas relações, um sintoma de que nossa sociedade está recuperando a saúde? Aponta, mesmo que de forma tênue, um aumento em nossa segurança coletiva - mesmo que, observem bem, os indicativos nos apontem mais e mais justamente o contrário?

Enquanto argumento, festejar a PM que agride manifestantes ou mata suspeitos no morro é, na melhor das hipóteses, tão adequado quanto aplaudir o veterinário que aplica eutanásia em um animal que não pode mais curar. Como se fosse dever policial assassinar um eventual criminoso, como se a agressão fosse a fórmula derradeira para gerar uma coletividade mais segura. Neutralizar violência com mais violência, apenas com o sinal supostamente trocado, é um pensamento frágil e pobre, que não resiste a cinco minutos de confronto com a lógica. Não surpreende, portanto, que seja adotado com entusiasmo por multidões que abdicaram de pensar. Ao contrário do que acreditam os entusiastas da eventual brutalidade policial, polícia não existe para arrebentar bandido - e, diferente do que gostam de pensar, a eventual bandidagem de farda é tão (às vezes até mais) nociva e inaceitável quanto a civil.

O que pensará um adolescente morador de vila ou favela que, após ver a PM agredir ou matar um vizinho seu, testemunha gente repetindo o mantra tosco do "parabéns, PM"? Não há sequer uma gota de preocupação com justiça nesse tipo de comentário: há apenas a satisfação sádica diante da desgraça de um suposto antagonista que não se conhece nem se deseja conhecer, encarnação primária de todas as maldades do mundo. Deleite insensato que só reforça uma polícia condicionada à agressão, encorajando uma sociedade onde não existem mais pontes entre as ideias e enchendo nossos necrotérios de mortos que não precisavam morrer. Não é porque não se enxerga imediatamente essa relação que ela deixa de existir.

Quem aplaude qualquer ação policial violenta está se juntando a uma claque mórbida, que comemora a consolidação da própria insegurança e a certeza de uma sociedade cada vez mais impraticável. Porque é tolice acreditar que, aplaudindo gestos violentos, está se fazendo uma crítica ou um combate à violência. Estão, isso sim, fazendo festa diante de uma coletividade mais bruta, mais insensível e mais violenta, tanto em termos simbólicos quanto na prática. São os mesmos, aliás, que adoram repetir que Direitos Humanos só protegem bandidos - outra balela venenosa que, a médio prazo, prejudica todos nós. Quer aplaudir? Saiba que está sujando as mãos de sangue. E encare as consequências, ao invés de fingir que não tem nada a ver com o cadáver na esquina.

Foto: Raphael Tsavkko Garcia

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
igornatusch
Jornalista. Escritor. Testemunha ocular do fim do mundo.