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Pensamentos (quase) pós-impeachment - e um pouco do que virá depois

igornatusch
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igornatusch
Pensamentos (quase) pós-impeachment - e um pouco do que virá depois

A essa altura, não faz mais muito sentido discutir a aprovação ou não do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Escrevo entre a noite de quinta (14) e a manhã de sexta-feira (15), quando todas as circunstâncias se movem contra o governo e a favor da saída da presidente. É uma onda, e as ondas são implacáveis. Além disso, o STF se encarregou de, basicamente, dizer que a Câmara pode aprovar o impeachment que bem quiser, ainda que ele possa ser contestado em seu mérito ou tipificação não só no Senado como no próprio Supremo, caso o último seja provocado. Ou seja, teremos nesse domingo um show de pseudo-democracia, que vai ajudar a selar o destino de Dilma às custas de muitas salvaguardas democráticas, mas que não encerrará capítulo algum, não trará em si nada que se possa usar como apoio, nenhum chão firme onde se possa pisar. E é sobre esse espetáculo colorido e vazio, e sobre essa ausência de perspectivas tranquilizadoras, que desejo falar.

Um momento de convulsão como esse sempre traz alguns recados profundos, que estão além da análise superficial dos eventos e dos dias. Quem acompanhou a tramitação do impeachment na comissão que o avaliou, e mesmo antes, teve a chance de receber um desses indícios — e quem assistir a votação de domingo na Câmara terá, suponho eu, uma chance de ouro para confirmá-lo. Todas as ações, todas as falas e posicionamentos escancaravam o caráter de farsa, de esvaziamento de discursos, um teatro do improviso sem roteiro e sem moral da história. Os cartazes, os bonecos de plástico, as interrupções de discurso com gritos bobos e caretas: tudo infantilizado, espalhafatoso e ridículo, elevando os impulsos ao status não só de arma, mas de totalidade do discurso político. Não deixa de ser política, mas é uma variante oca e farsesca, onde resta a casca e todo o resto é vazio.

Esse esvaziamento não é brasileiro, embora obviamente também o seja: é o sintoma evidente da ausência de significado da democracia qual está estabelecida, com votos que nada valem elegendo políticos que governam como construtores de aquedutos e reservatórios a favor do grande fluxo de capitais. Não é no Congresso ou no Planalto que se exerce o poder; natural que os atores se tornem cada vez menos convincentes, a farsa mais e mais escancarada. Ainda que haja nela um toque desconfortável de entrega, uma sinceridade quase comovente — não só por parte das figuras no picadeiro, mas também por aqueles que consomem o espetáculo. Sabemos que a peça é ruim, mas seguimos aplaudindo por automatismo, como se não houvesse alternativa.

Dentro desse cenário, é útil explicitar a quem serve o teatro — não apenas como ferramenta, mas também (e especialmente) como disfarce. É significativo que as forças que encorajaram 1964 (o alto empresariado, os editoriais da grande mídia, os poderes oligárquicos estabelecidos) sejam as mesmas que prestam apoio, inclusive financeiro, ao fim do governo Dilma. O poder, no Brasil, sempre teve dono — e esses proprietários do poder só consentiram com o projeto de Lula e Dilma na medida em que ele mostrou-se amigável e favorável a seus interesses. Não é à toa que o trajeto petista no Planalto, desde o primeiro mandato de Lula, tenha buscado de forma crescente a conciliação com esses poderes e a neutralização da base transformadora que era a alma do PT, que animou o nascer da sigla como braço político-partidário de movimentos sociais. Com Dilma, desinteressada de costuras e incapaz de manter a economia girando na intensidade desejada, esse pacto frouxo deixou de ser interessante. O poder nunca mudou de mãos: esteve, no máximo, cedido parcialmente ao PT durante algum tempo, em uma situação onde a margem de manobra nunca foi mais ampla do que o desejável. Num momento que encerra tantas ilusões, essa é uma das ideias agradáveis que precisa cair. Jamais houve rompimento: o impeachment pouco mais é do que o fim de um empréstimo.

Essa é uma das funções da narrativa farsesca do impeachment. Outra é oferecer à opinião pública uma cabeça decapitada, um símbolo de que a crise não é em vão e que alguém sai punido de forma drástica dessa história. A Lava-Jato, embora não seja tema direto do impeachment, é obviamente um dos grandes fatos que o tangenciam e um dos problemas que ele busca, de forma política, solucionar. Não só no aspecto concreto, como investigação e acusação, mas de forma simbólica, como narrativa que consolida a ideia de que todos são bandidos e ninguém está a salvo. As narrativas são importantíssimas nesse cenário, e o impeachment oferece uma: a de que a corrupção nunca foi tão grande e vergonhosa quanto sob governo do PT, ao ponto da mandatária da nação ter que ser afastada para dar cabo de tanta roubalheira. A cabeça de Dilma é uma imagem não apenas de recomeço, mas mais ainda de encerramento: acabou o governo petista, a corrupção foi punida, agora podemos seguir em frente.

Pensamentos (quase) pós-impeachment - e um pouco do que virá depois

Para ser possível a costura no tecido político esgarçado pela crise, a corrupção precisa deixar de ser tema. Não é por outro motivo que a comissão de impeachment para Michel Temer, engavetada por Eduardo Cunha e determinada pelo Supremo, não encontra líderes que nela queiram ingressar. Não é por outro motivo que Eduardo Cunha pode encarar apenas um afastamento temporário, meros 30 dias de férias ao invés de perder o mandato pela mentira que ele inegavelmente contou aos colegas parlamentares. O jogo é também de preservação de uma estrutura , onde a corrupção sempre foi o sistema operacional — logo, assim que a sorte de Dilma for selada, a ordem será dar tudo por encerrado, em nome de um oportuno pacto de ocasião.

O sacrifício de Dilma é vendido como um ponto final e um recomeço, mas a verdade é que o impeachment não vai encerrar quase nada. Baseado em um processo canalha e ilegítimo, que nasceu como tese e virou objetivo sem jamais consumar-se como fato e então conclusão, o impeachment liquida com a boa-fé necessária para a política democrática e causa sério abalo no Estado de Direito. A crise seguirá, com novos elementos e em constante degradação. A opinião pública internacional não oferece respaldo a Michel Temer, tratando-o como um usurpador oportunista em um tramoia institucional. Dificuldades para a permanência do Brasil no Mercosul e ações condenatórias na OEA são eventos bem possíveis nesse cenário. Tampouco haverá paz interna: o Brasil está cindido, o processo legal abalado, o PT de volta à oposição e os movimentos sociais, próximos ou não da sigla petista, dispostos a uma pressão renovada sobre o Congresso. Isso sem contar as forças fascistas e obscurantistas que conjuraram, que seguirão atuando de formas hoje imprevisíveis. Tolos ou irresponsáveis os que pensam que, uma vez rasgado o tecido social, basta costurá-lo entre amigos e ele estará novo em folha.

A proposta que se desenha para a crise econômica nada tem de alvissareira: perdão da dívida dos Estados sem mudar a concentração de receitas na União, nenhum aumento de impostos sobre os mais ricos (um pato que o alto empresariado, é claro, jamais aceitaria pagar) e nenhuma ação concreta sobre o déficit primário, além do comprometimento de receitas e “sacrifícios” que só incidem sobre a massa trabalhadora e consumidora. Tudo com base em um otimismo pateta, herdado da desastrada política econômica de Dilma, um esforço para polir a maçaneta da porta enquanto o edifício arde em chamas. Tudo indica que a coisa vai piorar antes de melhorar — e melhor sorte não se pode esperar de uma coalizão sem ideias, surgida a partir do mais puro oportunismo, em meio a um cenário que em nada se presta a aventuras políticas e econômicas. Muda a chefia para que nada mude, e claro está que nenhum solução nascerá daí.

Morto o segundo governo Dilma antes mesmo de existir de fato, resta ao PT um esforço de reconstrução e reposicionamento. Engana-se quem acha que a grande briga petista nas últimas semanas foi por salvação. Essa batalha foi subjacente: a grande luta esteve e está na construção de narrativas. Conseguiu sucesso em pintar Lula como um herói dos pobres perseguido pelos poderosos, de tal forma que sua eventual prisão pouco efeito teria (ou terá) sobre a convicção dos que o odeiam, mas certamente insuflaria ainda mais os que nele enxergam um mito a preservar. E avançou nesse sentido também quanto a Dilma, posicionando-a como uma mulher traída por bandidos, uma pessoa que nunca roubou e, por isso mesmo, é afastada do poder pelos maiores ladrões da nação.

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Dilma mostrou-se incompetente como líder do Executivo, uma pessoa que pecou por omissão e por muitas decisões trágicas, mas não houve sucesso em retratá-la como uma ladra. Esse elemento será permanentemente usado na narrativa do PT sobre esse episódio, agora e no futuro, e por isso é improvável que ela renuncie: preservar seus direitos políticos pouca diferença faz, e é fundamental para o PT que ela não fraqueje, que ela mantenha-se desafiadora até o fim. O discurso onde qualificou Temer e Cunha como chefes do golpe não foi para salvar-se: foi uma construção narrativa, a governante honesta sendo detonada por dois bandidos. E, atenção para o spoiler: isso vai colar no inconsciente de muita gente, não apenas petistas e simpatizantes. É um processo que já está em andamento, fundamental numa batalha de longo prazo que se tornou incontornável.

Uma eventual reaproximação do PT com o ativismo de esquerda é uma incógnita. Os mais recentes protestos em favor de Dilma deixaram claro que há terreno para essa aproximação. Mas o PT, praticamente desde que assumiu o Planalto, tratou os movimentos com trataria um ex-namorado do passado: mantendo distância a maior parte do tempo, mas às vezes reavivando a velha paixão em encontros de uma noite ou duas. Reatar esse relacionamento é difícil, mesmo que a atração física ainda exista: essas idas e vindas provocaram desconfiança e muitas mágoas, quase todas bastante justificadas. Por outro lado, do ponto de vista tático, o PT ainda terá bancada e uma estrutura forte em escala nacional, instrumentos institucionais que ninguém à esquerda está perto de ter. Curiosamente, a tão falada e jamais concretizada guinada à esquerda do PT pode ser (e possivelmente será) inevitável agora, depois de expulso do governo, em um misto de vingança e necessidade de sobrevivência. Não haverá conciliação: em um ambiente radicalizado, a resposta radical é a que haverá de prevalecer.

Difícil dizer até que ponto os movimentos sociais à esquerda, ressaltados em 2013 e que mantiveram-se à parte quando aquela onda foi engolida pelo Fora PT, estarão ao lado petista na nova estrutura de oposição — ou qual o papel que siglas como PSOL e outras ainda mais à esquerda terão nessa costura. A frente de esquerda ainda é difícil, mas nunca esteve tão clara como alternativa dentro da esfera institucional. Espaço que é, ou deveria ser, uma consequência da construção coletiva dos que estão abaixo — algo que, importante dizer, mesmo os demais partidos de esquerda parecem ter esquecido, refratários que são ao contato no chão da fábrica, no centro comunitário da vila ou no oratório da igreja evangélica. Nada deixou mais claro os limites da política representativa, tal como está posta, do que o colapso que estamos assistindo já há algum tempo. A esquerda institucional, tão acostumada a querer guiar as disputas, precisa reaprender a ouvir os que de fato fazem a luta, no dia-a-dia — as feministas, a comunidade LGBT, os sem-teto, o movimento negro, as organizações em rede. Só assim pode recuperar sua alma, só assim pode sair da linha de escanteio, só assim pode oferecer uma alternativa ao simplismo reacionário e fascista que não para de crescer.

Fotos: Lula Marques/Agência PT; Antonio Cruz/ABr; e Wilson Dias/ABr.