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Um elogio ao textão: antes falar demais do que ficar na piadinha

igornatusch
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igornatusch

Poucas coisas me deixam mais desanimado na atual existência digital brasileira do que o descaso generalizado pelo "textão". Óbvio que ninguém é obrigado a ler o que não deseja, mas é especialmente ruim a ideia geral de que texto longo é um erro, um comportamento equivocado que depõe contra aquele que o pratica. Chegamos a um ponto em que o autor do comentário mais volumoso muitas vezes se desculpa diante dos eventuais leitores - "já aviso que é textão" - como se fugir dos padrões não-escritos da comunicação via internet fosse um desrespeito ou falha de caráter. E essa tendência fala mal de todos nós, que opinamos e consumimos opiniões: estamos sem paciência para ouvir o outro, as mentes tão ocupadas de nós mesmos que quase não sobra espaço para mais nada.

Um elogio ao textão: antes falar demais do que ficar na piadinha

Vamos ser justos: a origem dessa repulsa ao texto longo na internet é bastante complexa e tem a ver com a própria natureza da rede, onde a atenção costuma ser difusa e há uma quantidade interminável de conteúdos para escolher. Além disso, muitos dos alvos da crítica são pessoas que usam o textão para trivialidades ou para menosprezar a inteligência alheia, o que por óbvio pode ser bem desagradável. Em resumo, reclamar do textão não é mera chatice. Mas a reprovação prévia a quem escreve mais do que duas ou três linhas sobre algum tema prejudica o confronto de ideias e a busca de consensos possíveis, tão importantes para tornar ligeiramente mais suportável o mundo que construímos para nós.

Muitos temas, como se sabe, são complexos. Nem tudo cabe em um meme simplificador ou em uma frase de efeito, nem tudo se explica citando um ou dois dados aleatórios sem contexto ou contestação. Muitas explicações - sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre nós mesmos - precisam de tempo e quem escreve sabe que as palavras escritas são, muitas vezes, o melhor modo de organizar o próprio pensamento. Negar ao textão sua eventual legitimidade, no caso, é reforçar uma imposição coletiva pelo argumento raso, é fazer o elogio ao não posicionamento - ou ainda pior, exigir que a posição se resuma a um sim ou não, negando os infinitos tons de cinza no meio do caminho. E se o textão é uma bobagem fútil ou uma mesquinharia, antes o textão sobre besteiras do que o resumo simplório em um meme muitas vezes mentiroso, discussão política e social transformada em troca de ironias dignas de quinta série.

Descartar o textão pelo simples fato de ser textão, como se o texto longo fosse um erro de origem, é inverter a ordem da formação de opiniões: conhecer primeiro, interpretar depois. No caso, interpreta-se que o argumento não vale a pena a partir das primeiras linhas (ou nem isso), negando ao argumento a oportunidade de se desenvolver. E tratando isso como um erro de quem argumenta, não uma circunstância (de tempo disponível ou de má vontade) de quem não quis conhecer o que estava sendo argumentado.

Que todos escrevam muitos, muitos textões. Sobre temas importantes, percepções que fogem ao senso comum, e sobre bobagens e tolices também. Que tenha textão sobre o direito feminino ao aborto e que tenha textão sobre o vizinho que não gosta de cachorro ou deixa o lixo no lugar errado. Que a gente incentive a variedade de depoimentos, ao invés de ficar reclamando porque são muito longos ou porque não temos interesse em alguns deles. E que quem não quer ler esteja permanentemente livre para isso, mas sem que seja preciso sempre ironizar ou ridicularizar quem se deu ao trabalho de escrever. Em um tempo onde o panfleto e a frase feita adoeceram nossa sociedade de vez, parte do antídoto está em dedicar tempo às ideias, suas e dos outros. Quem descarta o argumento longo com o rótulo pobre do textão não está fazendo nem uma coisa nem outra. O risco é afogar a mente em uma poça d'água, pela simples preguiça de levantar a cabeça e respirar.

Imagem: Reprodução / Paramount Pictures