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Mulher não precisa se vestir mal para ser competente

Isadora Sinay
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Isadora Sinay

Dentre todos os filmes que concorrem ao Oscar esse ano, Spotlight é provavelmente um dos mais bem feitos. O roteiro é simples, mas bem amarrado e a direção e montagem fazem um daqueles filmes que não podem deixar de causar impacto. 

É um belo filme e um belo trabalho de produção para contar uma história que precisa ser contada. No entanto, dentro de tudo isso, algo me incomoda: por que é preciso enfeiar tanto a única personagem feminina da história?

Rachel McAdams interpreta Sacha Pfeiffer, repórter da equipe Spotlight. Sacha trabalha algo em torno de 12 horas por dia, é casada, faz companhia para a avó idosa. Ninguém espera que ela apareça em roupas da moda, saltos de 15 cm e cabelo escovado todos os dias, não faz sentido. Mas tampouco há necessidades de calças três tamanhos maior. 

Mulher não precisa se vestir mal para ser competente

 O trabalho de um bom figurinista é escolher roupas que façam sentido para o universo de seu personagem, construí-lo através de uma imagem e pensando nisso é significativo que a escolha de figurino para Sacha sejam roupas que a deixam feia. Desproporcionalmente feia e mal vestida em relação aos personagens masculinos do filme. 

Mark Ruffalo interpreta Mark Rezendes, colega de redação de Pfeiffer. Seu figurino consiste em jeans, do tamanho certo, e camisetas básicas. As roupas de Rezendes passam desapercebidas. Elas não importam, o personagem é alguém que compra qualquer coisa simples em uma loja qualquer e depois se veste com o que encontrar pela manhã. Sacha, por outro lado, usa calças sociais largas demais para ela, com camisas de cores que não combinam e que também caem particularmente mal. Seu cabelo está sempre despenteado, mas jamais preso. 

O problema aqui pode ser resumido na pergunta: por que o figurino de Sacha não pode ser tão invisível quanto o de Mike? Por que suas roupas precisam chamar atenção pelo quão feias são enquanto as dele não? Se a personagem não liga para suas roupas, e parece ser essa a mensagem que a figurinista quer passar, por que comprar calças sociais e camisas em vez de jeans e camiseta? Mais fáceis de achar, mais baratos e que teriam um efeito mais neutro em tela. Se cuidar do cabelo não é uma prioridade, um rabo de cavalo não faria mais sentido do que uma escova mal feita? 

Sacha Pfeiffer é vítima de um fenômeno comum em nosso cinema: a necessidade de enfeiar mulheres bem sucedidas como forma de mostrar que ela é realmente competente. É um clichê tão antigo quanto Cinderela em Paris, de 1957. Para ser uma amante de filosofia e livros, Audrey Hepburn, ícone da moda da época, precisa se vestir com roupas estranhas e ser totalmente avessa a tudo que tenha a ver com aparência. 

Nicole Kidman ganhou seu único Oscar quando colocou uma prótese de nariz para interpretar Virginia Woolf. Não ficou necessariamente mais parecida com a escritora, apenas mais feia. Mesma coisa quando Selma Hayek interpretou Frida Kahlo. Artistas talentosas só podem ser interpretadas por atrizes atraentes se estas se tornarem menos atraente. 

Podemos ainda pensar em personagens como Hermione Granger, de Harry Potter, ou Skeeter Phelan de Histórias Cruzadas. Uma das primeiras informações que temos sobre Hermione, antes mesmo de ser revelado o quanto ela é inteligente e aplicada, é que sua aparência é esquisita: seus dentes são grandes demais e seu cabelo parece uma lã de cor desagradável. Skeeter, única de suas amigas a ir para a faculdade e desejar uma carreira, é sem graça e feinha, interpretada por uma Emma Stone "enfeiada". 

É claro que há exemplos melhores: em Para Sempre Alice, Julianne Moore aparece como uma linguista famosa enquanto ainda bonita e bem vestida (ao menos na primeira parte do filme). Alien não precisa que Sigourney Weaver seja feia para ser uma heroína e uma das comédias mais populares dos anos 2000, Legalmente Loira, funciona justamente em cima desse estereótipo. Ainda assim, ao ver um filme tão bem feito quanto Spotlight cair nesse problema, eu não posso deixar de levantar a questão: por que parece tão necessário que para ser competente uma mulher não possa saber usar um batom?