ESPORTES

Bergkamp, entre a mecânica e a mágica

Ivan Kano
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Ivan Kano
Bergkamp, entre a mecânica e a mágica

Antes de vir a saber o que quer que fosse sobre "Holanda" – afinal, que diabo é um "país baixo"? –, "Ruud Gullit", "van Basten", "Frank Rijkaard" já faziam parte do meu vocabulário, embora, quando criança, eu soubesse o que essas palavras significavam tanto quanto sabia o que era "expressão numérica", "estudos sociais" e "o lábaro que ostentas estrelado". Como toda palavra estranha aciona um imaginário habitado por seus centauros e sílfides, a escalação daquele time faz parte de uma espécie de mitologia da infância, daquele não-tempo em que meus irmãos jogavam futebol de botão com seus amigos e eu era uma espécie de café-com-leite-saco-de-pancadas. O importante é competir, etc. O que eu sabia sobre aquele time é que ele era espetacular o bastante para que eu nunca pudesse jogar com a Holanda, direito reservado a alguém que fizesse jus às possibilidades mágicas, ou mecânicas, daqueles jogadores. Entre paletadas, três toques, ajeita o goleiro e a perícia de acertar o chute improvável no último lance da partida, aqueles botões vestindo cores incomuns, cheios de nomes engraçados e um apelido instigante, tinham, com tanto exotismo reunido, o claro dom de permanecer na memória.

Então, a primeira vez que vi aqueles botões convertidos em jogadores foi, na verdade, meio decepcionante. Eu tinha nove anos, eles estavam de branco (decepção), Rijkaard era um veterano, van Basten e Gullit já nem jogavam mais de laranja (decepção) – o primeiro por causa do joelho, o segundo por conta da personalidade –,  e do jogo em si o que ficou foi mesmo o gol do Branco, aquele em que, mandando calar a boca, ele nos fez gritar pelos corredores da casa porque estávamos na semifinal da Copa Mundo e a puta que pariu é tetra.

Bergkamp, entre a mecânica e a mágica

Passaram quatro anos para que eu visse os homens de laranja novamente em campo. O futebol internacional era, na época, o pouco que se via aos domingos no saudoso Show do Esporte, e me lembro de ter pensado – eu tinha, então, treze anos – que aquele Holanda e  Argentina, quartas de final da Copa de 98, foi o melhor jogo de futebol a que eu já havia assistido na vida. Meu time já me tinha feito sorrir e chorar (mais isto do que aquilo, para ser franco); tinha visto, a contragosto, o São Paulo do Telê vencer Milan e Barcelona em anos seguidos; testemunhado, a contragosto, o Palmeiras dos cem gols em um Campeonato Paulista, mas nunca tinha ficado tão impressionado com um jogo de futebol que não envolvesse, direta ou indiretamente, o meu time. Boa parte dessa impressão – tudo bem, deve ter acontecido muita coisa ainda mais incrível no futebol dos 90, mas este texto é uma memória, não uma lista – se deve ao último gol daquele jogo. 

Dennis Bergkamp jogou em 94, fazendo gol no Brasil inclusive, e, como os botões sempre ensinaram, ninguém se veste de laranja à toa. Claudio López e Patrick Kluivert (que depois viríamos a descobrir que se chamava "Cláiver" e não "Clúiver", e a Globo tratava a descoberta como um achado científico, quando não como sintoma do analfabetismo crônico do país) dão os números do placar, o jogo caminha para aquela fase em que não tomar gol é mais importante do que fazer. De Boer (nunca soube se o Frank ou o Ronald) sai com a bola dominada no campo de defesa e faz um lançamento com selo Gerson Canhotinha de Ouro de Qualidade: trinta, quarenta, sessenta metros, mas sei lá,  eu sou de humanas, então digamos que parecia uma vida de distância. Foi na ponta da chuteira do atacante holandês que a bola encontrou sentido para a sua longa trajetória. Já dentro da área, Bergkamp dá um corte que faz o Ayala (era uma vez no tempo que a Argentina tinha zagueiros) passar lotado e, com o lado de fora do pé, faz o gol da classificação holandesa à semifinal. Segue abaixo um resumo de mais de mil palavras: 

Muita coisa, imagino, contribuiu para que esse gol ficasse na minha memória, para além do que é óbvio no lance. A importância do tento, é claro, quartas-de-final, últimos minutos de jogo, etc. Mas a verdade é que tudo naquela Copa seria marcante para mim. A combinação entre ser um adolescente louco por futebol e não ter nenhuma aptidão para jogar bola faz de uma Copa do Mundo o evento mais importante da sua vida. Completei o álbum da Copa antes de ela começar e, graças à assinatura da Placar, sabia mais ou menos a escalação e as expectativas de cada país no campeonato – o que, aliás, me fez apostar na vitória da Nigéria contra a Espanha na primeira rodada e ganhar um dinheiro do meu avô por conta disso: um 3-2 sensacional e lucrativo. Então, quando Bergkamp fez aquilo, eu não lembrava de ter visto ninguém fazer nada parecido: chamei meu avô para ver o gol passando no JN porque eu queria que ele visse aquilo, porque eu não sabia explicar o que tinha acontecido. O encanto às vezes é isso, essa falta de vocabulário.

No fim, o Brasil venceu a própria Holanda na semifinal, mas perdeu a Copa em circunstâncias menos obscuras do que gostaríamos de aceitar, e no meio daquele clima de decepção e a monótona caça aos culpados – o sete-a-um era ainda uma ficção científica – eu levei uma memória improvável, de um branquelo de camisa laranja enterrando o sonho argentino com a classe e a tranquilidade  de quem vai a um café em Buenos Aires.

Bergkamp, entre a mecânica e a mágica

Como Bergkamp não jogava na Itália nem na Espanha naquela época, não ficávamos sabendo o que aquele cara fazia nas longas férias entre um Mundial e outro. Muito tempo depois, numa daquelas maratonas de vídeos no Youtube em que a gente não consegue explicar como um bebê experimentando limão se transforma em um remix em autotune da Luisa Marilac tomando bons drink na Europa Espanha, eu encontrei um vídeo com três gols do holandês num mesmo jogo contra o Leicester. Todos bem bonitos. O terceiro, no entanto, foi um déjà-vu:

A beleza do gol contra a Argentina – naturalmente mais famoso do que a sua versão original, de 1997 – nos faz esquecer quanta repetição e treinamento são necessários para alcançar um tal nível de perfeição que a gente facilmente confunde com simplicidade, mágica. Fosse um texto, o gol que levou a Holanda para a semifinal da Copa de 1998 seria uma citação no sentido quase literal do termo: lança mão das características de um texto clássico para construir um texto novo. O gol contra o Leicester ajuda a entender o gol contra a Argentina – "ah, então ele já tinha ensaiado o lance antes!". Mas pode ser também o contrário: o gol contra a Argentina ressignifica o gol contra o Leicester. Quer dizer, quantas vezes já dissemos, com razão ou com despeito, que "fulano nunca mais vai acertar um gol desse!"? Do gol de Bergkamp pode-se dizer todo tipo de exageros, inclusive dizer que ele não é tudo isso. Só não se pode dizer que foi aleatório, um golpe de sorte. E é essa mistura delicada entre talento e treino, mecânica e imaginação, que torna Bergkamp uma figura lendária na minha mente.

Há alguns meses, um gol do Bergkamp, mais impressionante que estes dois, foi considerado o mais bonito da história da Premier League. Mas aí, infelizmente, em 2002 eu já não era um garoto. Não se pode brigar contra os efeitos da adolescência sobre a memória.