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Bergkamp, entre a mecânica e a mágica

Ivan Kano
há um mês162 visualizações
Bergkamp, entre a mecânica e a mágica
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Antes de vir a saber o que quer que fosse sobre "Holanda" – afinal, que diabo é um "país baixo"? –, "Ruud Gullit", "van Basten", "Frank Rijkaard" já faziam parte do meu vocabulário, embora, quando criança, eu soubesse o que essas palavras significavam tanto quanto sabia o que era "expressão numérica", "estudos sociais" e "o lábaro que ostentas estrelado". Como toda palavra estranha aciona um imaginário habitado por seus centauros e sílfides, a escalação daquele time faz parte de uma espécie de mitologia da infância, daquele não-tempo em que meus irmãos jogavam futebol de botão com seus amigos e eu era uma espécie de café-com-leite-saco-de-pancadas. O importante é competir, etc. O que eu sabia sobre aquele time é que ele era espetacular o bastante para que eu nunca pudesse jogar com a Holanda, direito reservado a alguém que fizesse jus às possibilidades mágicas, ou mecânicas, daqueles jogadores. Entre paletadas, três toques, ajeita o goleiro e a perícia de acertar o chute improvável no último lance da partida, aqueles botões vestindo cores incomuns, cheios de nomes engraçados e um apelido instigante, tinham, com tanto exotismo reunido, o claro dom de permanecer na memória.

Então, a primeira vez que vi aqueles botões convertidos em jogadores foi, na verdade, meio decepcionante. Eu tinha nove anos, eles estavam de branco (decepção), Rijkaard era um veterano, van Basten e Gullit já nem jogavam mais de laranja (decepção) – o primeiro por causa do joelho, o segundo por conta da personalidade –,  e do jogo em si o que ficou foi mesmo o gol do Branco, aquele em que, mandando calar a boca, ele nos fez gritar pelos corredores da casa porque estávamos na semifinal da Copa Mundo e a puta que pariu é tetra.

Bergkamp, entre a mecânica e a mágica

Passaram quatro anos para que eu visse os homens de laranja novamente em campo. O futebol internacional era, na época, o pouco que se via aos domingos no saudoso Show do Esporte, e me lembro de ter pensado – eu tinha, então, treze anos – que aquele Holanda e  Argentina, quartas de final da Copa de 98, foi o melhor jogo de futebol a que eu já havia assistido na vida. Meu time já me tinha feito sorrir e chorar (mais isto do que aquilo, para ser franco); tinha visto, a contragosto, o São Paulo do Telê vencer Milan e Barcelona em anos seguidos; testemunhado, a contragosto, o Palmeiras dos cem gols em um Campeonato Paulista, mas nunca tinha ficado tão impressionado com um jogo de futebol que não envolvesse, direta ou indiretamente, o meu time. Boa parte dessa impressão – tudo bem, deve ter acontecido muita coisa ainda mais incrível no futebol dos 90, mas este texto é uma memória, não uma lista – se deve ao último gol daquele jogo. 

Dennis Bergkamp jogou em 94, fazendo gol no Brasil inclusive, e, como os botões sempre ensinaram, ninguém se veste de laranja à toa. Claudio López e Patrick Kluivert (que depois viríamos a descobrir que se chamava "Cláiver" e não "Clúiver", e a Globo tratava a descoberta como um achado científico, quando não como sintoma do analfabetismo crônico do país) dão os números do placar, o jogo caminha para aquela fase em que não tomar gol é mais importante do que fazer. De Boer (nunca soube se o Frank ou o Ronald) sai com a bola dominada no campo de defesa e faz um lançamento com selo Gerson Canhotinha de Ouro de Qualidade: trinta, quarenta, sessenta metros, mas sei lá,  eu sou de humanas, então digamos que parecia uma vida de distância. Foi na ponta da chuteira do atacante holandês que a bola encontrou sentido para a sua longa trajetória. Já dentro da área, Bergkamp dá um corte que faz o Ayala (era uma vez no tempo que a Argentina tinha zagueiros) passar lotado e, com o lado de fora do pé, faz o gol da classificação holandesa à semifinal. Segue abaixo um resumo de mais de mil palavras: 

Muita coisa, imagino, contribuiu para que esse gol ficasse na minha memória, para além do que é óbvio no lance. A importância do tento, é claro, quartas-de-final, últimos minutos de jogo, etc. Mas a verdade é que tudo naquela Copa seria marcante para mim. A combinação entre ser um adolescente louco por futebol e não ter nenhuma aptidão para jogar bola faz de uma Copa do Mundo o evento mais importante da sua vida. Completei o álbum da Copa antes de ela começar e, graças à assinatura da Placar, sabia mais ou menos a escalação e as expectativas de cada país no campeonato – o que, aliás, me fez apostar na vitória da Nigéria contra a Espanha na primeira rodada e ganhar um dinheiro do meu avô por conta disso: um 3-2 sensacional e lucrativo. Então, quando Bergkamp fez aquilo, eu não lembrava de ter visto ninguém fazer nada parecido: chamei meu avô para ver o gol passando no JN porque eu queria que ele visse aquilo, porque eu não sabia explicar o que tinha acontecido. O encanto às vezes é isso, essa falta de vocabulário.

No fim, o Brasil venceu a própria Holanda na semifinal, mas perdeu a Copa em circunstâncias menos obscuras do que gostaríamos de aceitar, e no meio daquele clima de decepção e a monótona caça aos culpados – o sete-a-um era ainda uma ficção científica – eu levei uma memória improvável, de um branquelo de camisa laranja enterrando o sonho argentino com a classe e a tranquilidade  de quem vai a um café em Buenos Aires.

Bergkamp, entre a mecânica e a mágica

Como Bergkamp não jogava na Itália nem na Espanha naquela época, não ficávamos sabendo o que aquele cara fazia nas longas férias entre um Mundial e outro. Muito tempo depois, numa daquelas maratonas de vídeos no Youtube em que a gente não consegue explicar como um bebê experimentando limão se transforma em um remix em autotune da Luisa Marilac tomando bons drink na Europa Espanha, eu encontrei um vídeo com três gols do holandês num mesmo jogo contra o Leicester. Todos bem bonitos. O terceiro, no entanto, foi um déjà-vu:

A beleza do gol contra a Argentina – naturalmente mais famoso do que a sua versão original, de 1997 – nos faz esquecer quanta repetição e treinamento são necessários para alcançar um tal nível de perfeição que a gente facilmente confunde com simplicidade, mágica. Fosse um texto, o gol que levou a Holanda para a semifinal da Copa de 1998 seria uma citação no sentido quase literal do termo: lança mão das características de um texto clássico para construir um texto novo. O gol contra o Leicester ajuda a entender o gol contra a Argentina – "ah, então ele já tinha ensaiado o lance antes!". Mas pode ser também o contrário: o gol contra a Argentina ressignifica o gol contra o Leicester. Quer dizer, quantas vezes já dissemos, com razão ou com despeito, que "fulano nunca mais vai acertar um gol desse!"? Do gol de Bergkamp pode-se dizer todo tipo de exageros, inclusive dizer que ele não é tudo isso. Só não se pode dizer que foi aleatório, um golpe de sorte. E é essa mistura delicada entre talento e treino, mecânica e imaginação, que torna Bergkamp uma figura lendária na minha mente.

Há alguns meses, um gol do Bergkamp, mais impressionante que estes dois, foi considerado o mais bonito da história da Premier League. Mas aí, infelizmente, em 2002 eu já não era um garoto. Não se pode brigar contra os efeitos da adolescência sobre a memória.

O dia em que cansei de Andy Murray

Ivan Kano
há um ano73 visualizações

É difícil rever a trajetória de Andy Murray, sobretudo do ponto em que ela se encontra nesta semana, sem resvalar em alguma espécie de discurso motivacional, sem recorrer à metáfora da escada ou fazer um elogio à persistência, à determinação e a todos esses valores que fazem da sua história isso a que chamamos, para fins de consumo, uma história de sucesso. O sucesso, afinal, reúne e dá sentido positivo aos fragmentos sempre tão dispersos da vida, justifica as dificuldades, absolve as escolhas. Do início no tênis até o último domingo, quando chegou ao aparente ápice da carreira, passando pelo famoso massacre de Dunblane, Murray é uma biografia pronta, dessas que se vendem sozinhas, com direito a close na face entre obstinada e serena do protagonista a estampar a capa. Ou talvez inspirasse futuros clássicos do Augusto Cury como Jesus, o maior tenista que já existiu.

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O dia em que cansei de Andy Murray

De fato, pertencer à mesma geração de três dos maiores tenistas que este mundo já viu, suportar a pressão gerada por um país sedento de campeões e lidar com a imprensa mais esquizofrênica do planeta não são tarefas simples. Se fossem, talvez Tim Henman, que inclusive dá nome a particularidades geológicas do All England Club, já tivesse alcançado, há mais de uma década, parte do que Andy representa para o Reino Unido: o tenista que encerrou os tabus, que venceu a Davis no papel shakespeareano de único simplista confiável, o  (duas vezes) herói olímpico, o primeiro número 1 britânico da Era Aberta. Contra todas as adversidades – clichê entre os clichês biográficos –, Andy se tornou aquilo que é, e ao menos neste fim de ano os números não nos permitem discordar. Mas não é disso que eu queria escrever: o que eu queria mesmo era voltar àquele 27 de Janeiro de 2012, dia da semifinal do Australian Open contra Novak Djokovic.

Porque naquele dia eu fiquei particularmente cansado de Andy Murray. Talvez todo torcedor dele tenha ficado (supondo que eles existissem naquela época em número não desprezível). Djokovic encerrara aquela temporada supra-humana de 2011, cuja primeira derrota viria somente em Roland Garros; Murray havia feito as quatro semifinais de Slam, com um prato a mais no jogo de jantar australiano, e se o problema não era mais consistência, faltava confirmar seu tênis acima da média com resultados condizentes. No esporte não há perdão se você não estiver de bem com a matemática.

Para escrever este texto, meu plano era assistir à partida completa, procurando por algo que valesse recordar de tudo aquilo, mas aí me dei conta de que não teria quatro horas disponíveis para dedicar a um jogo de tênis (a isto dão o nome de vida adulta se você não vive em função do esporte). Além do mais, descobri não ter condição emocional para passar pelos pontos delicados da partida de novo. Escolhi, então, um aperitivo de vinte minutos no Youtube, e foi o que bastou para começar a vibrar e me frustrar em pleno videotape. Patético, mas o que se pode fazer?

O dia em que cansei de Andy Murray

Sempre vou lamentar Andy se ter deixado cair no buraco no quarto set e, mais ainda, feito a pior escolha estratégica possível: desistir do jogo a ponto de não começar sacando na parcial seguinte, já que servir primeiro lhe daria a vantagem (pequena, mas psicologicamente fundamental para um jogador com o seu histórico de autodestruição em quadra) de comandar o placar no set final. Mas também não vou esquecer daquele breve hoje, não! em que me enchi de esperança: Novak serve para o jogo, 5/3 é o placar, eu já tinha desistido, você já tinha desistido, sua mãe já teria desistido, Joseph Climber já teria desistido, e sobretudo o Andy-Murray-tal-como-o-conhecíamos já estaria indagando o sentido da existência ou discutindo a dialética do dropshot na fita em voz alta com um qualquer Woody Allen imaginário. Mas, naquele 5/3, Andy resolveu continuar em quadra a qualquer custo, usando a tática do vai que. Foi. Aproveitou alguma hesitação do adversário, acertou dois winners de direita (não é que ele não saiba como se faz, entende?), ganhou o game de zero, cerrou o punho e, para delírio dos defensores do carisma como sinônimo de autenticidade, vibrou um bocado com aquela quebra. Aí a pressão de ser obrigado a confirmar seu serviço (não falei pra começar sacando, ô desgraça?) lhe apertou até mais cedo do que eu imaginava (hoje sim...) e eu fui dormir, com a manhã já no fim, triste com tudo aquilo, triste por alguém que eu nem conheço, cansado. Patético, mas o que se pode fazer?

O dia em que cansei de Andy Murray

É difícil voltar agora àquela semifinal sem o olhar complacente: aquela (nova) derrota para Djokovic no Australian Open (de novo), na letra fria daquele dia, foi dolorosa como as demais, mas talvez tenha sido a primeira em que o vi batalhar ponto a ponto, contra seu adversário, contra a fadiga acumulada, sobretudo contra o Mefistófeles que lhe vai na cabeça, e ser derrotado sem desistir, dando sinais mais concretos de que estava pronto para caçar o primeiro de seus demônios. Seria preciso esperar mais oito meses, um getting closer em Wimbledon e uma tarde-noite de ventania em Flushing Meadows para que o destino se cumprisse. Mas falar em predestinação naquele 27 de Janeiro só podia ser entendido como ironia, quando não como ofensa; dizer, como tantas vezes se disse quando o britânico participava das cerimônias de premiação dos outros, que a hora e a vez de Andy Murray em torneios Grand Slam estavam próximas já soava como discurso de consolação, tanto para os fãs como para um tenista que simplesmente não conseguia jogar dignamente as finais que disputara até então. Lembremos, nas primeiras três finais a que chegou, Andy Murray não conseguiu vencer um set sequer.

O dia em que cansei de Andy Murray

Quase cinco anos depois, é fácil lembrar daquela derrota como um turning point sutil em sua trajetória. Estamos viciados em histórias de superação. Mas, pra ser justo, aquele foi apenas mais um dia em que me defendi da frustração armado só com uma vaga esperança, tentando ler naquela quebra do quinto set um destino menos trágico para um personagem de que eu gostava tanto, ironicamente, porque era trágico ver tanto talento ser tragado da mesma maneira tantas vezes.

O problema é que, como se sabe, na vida, muitas vezes a hora e a vez nunca chegam e o Augusto Matraga é pura literatura. Aquele 27 de Janeiro plantava, mais do que esperança, a dúvida de não se saber se de fato algo iria mudar. Talvez fosse necessário aceitar que o melhor Andy Murray não era suficiente e que isso acontece e fim. Nunca se sabe, já dizia o filósofo. Agora, vai ter gente dizendo que torcia pelo Murray antes de virar modinha (eu mesmo diria, como se Andy fosse um patrimônio a ser preservado de turistas aproveitadores), vai ter gente dizendo que o forehand do cara não tem potência (nem é tanto assim, mas se você prefere ressaltar o que falta, me agrada mais pensar no quanto é preciso ser bom no restante do jogo para compensar), vai ter gente dizendo que ele é muito defensivo e empurrador de bolinha (eu também diria que chega a ser irritante às vezes, embora entenda que são duas coisas diferentes a maior parte do tempo), vai ter gente feliz só porque os recordes de Federer se mantêm (uma admirável viuvez), vai ter gente dizendo que é tudo culpa da queda técnica do Djokovic (cada um com a sua cruz). Não esqueçamos, vai ter gente dizendo que lhe falta carisma (embora eu ache monótono e paupérrimo que, num esporte feito de pessoas tão diferentes, os campeões tenham que seguir a mesma receita de personalidade). Vai ter gente pra tudo, enfim.

E também vai ter aquela gente do irresistível eu já sabia. Numa semana como essa, em que se celebra a jornada do herói que superou seus demônios para triunfar, esse texto serve só para lembrar que uma quebra no último set pode significar tudo, mas pode muito bem significar coisa nenhuma – e, não raro, significa as duas coisas ao mesmo tempo. E, também, serve para celebrar e fazer justiça à decepção daquele 27 de Janeiro, em respeito àquele cansaço, quando duvidei genuinamente de que Andy Murray seria o tenista que todos pensávamos que ele poderia ser.

Celebrar a decepção, sim. É preciso ser de vez em quando infeliz para se poder ser natural. Pois é, Pessoa, pois é.

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