ESPORTES

O dia em que cansei de Andy Murray

Ivan Kano
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Ivan Kano

É difícil rever a trajetória de Andy Murray, sobretudo do ponto em que ela se encontra nesta semana, sem resvalar em alguma espécie de discurso motivacional, sem recorrer à metáfora da escada ou fazer um elogio à persistência, à determinação e a todos esses valores que fazem da sua história isso a que chamamos, para fins de consumo, uma história de sucesso. O sucesso, afinal, reúne e dá sentido positivo aos fragmentos sempre tão dispersos da vida, justifica as dificuldades, absolve as escolhas. Do início no tênis até o último domingo, quando chegou ao aparente ápice da carreira, passando pelo famoso massacre de Dunblane, Murray é uma biografia pronta, dessas que se vendem sozinhas, com direito a close na face entre obstinada e serena do protagonista a estampar a capa. Ou talvez inspirasse futuros clássicos do Augusto Cury como Jesus, o maior tenista que já existiu.

O dia em que cansei de Andy Murray

De fato, pertencer à mesma geração de três dos maiores tenistas que este mundo já viu, suportar a pressão gerada por um país sedento de campeões e lidar com a imprensa mais esquizofrênica do planeta não são tarefas simples. Se fossem, talvez Tim Henman, que inclusive dá nome a particularidades geológicas do All England Club, já tivesse alcançado, há mais de uma década, parte do que Andy representa para o Reino Unido: o tenista que encerrou os tabus, que venceu a Davis no papel shakespeareano de único simplista confiável, o  (duas vezes) herói olímpico, o primeiro número 1 britânico da Era Aberta. Contra todas as adversidades – clichê entre os clichês biográficos –, Andy se tornou aquilo que é, e ao menos neste fim de ano os números não nos permitem discordar. Mas não é disso que eu queria escrever: o que eu queria mesmo era voltar àquele 27 de Janeiro de 2012, dia da semifinal do Australian Open contra Novak Djokovic.

Porque naquele dia eu fiquei particularmente cansado de Andy Murray. Talvez todo torcedor dele tenha ficado (supondo que eles existissem naquela época em número não desprezível). Djokovic encerrara aquela temporada supra-humana de 2011, cuja primeira derrota viria somente em Roland Garros; Murray havia feito as quatro semifinais de Slam, com um prato a mais no jogo de jantar australiano, e se o problema não era mais consistência, faltava confirmar seu tênis acima da média com resultados condizentes. No esporte não há perdão se você não estiver de bem com a matemática.

Para escrever este texto, meu plano era assistir à partida completa, procurando por algo que valesse recordar de tudo aquilo, mas aí me dei conta de que não teria quatro horas disponíveis para dedicar a um jogo de tênis (a isto dão o nome de vida adulta se você não vive em função do esporte). Além do mais, descobri não ter condição emocional para passar pelos pontos delicados da partida de novo. Escolhi, então, um aperitivo de vinte minutos no Youtube, e foi o que bastou para começar a vibrar e me frustrar em pleno videotape. Patético, mas o que se pode fazer?

O dia em que cansei de Andy Murray

Sempre vou lamentar Andy se ter deixado cair no buraco no quarto set e, mais ainda, feito a pior escolha estratégica possível: desistir do jogo a ponto de não começar sacando na parcial seguinte, já que servir primeiro lhe daria a vantagem (pequena, mas psicologicamente fundamental para um jogador com o seu histórico de autodestruição em quadra) de comandar o placar no set final. Mas também não vou esquecer daquele breve hoje, não! em que me enchi de esperança: Novak serve para o jogo, 5/3 é o placar, eu já tinha desistido, você já tinha desistido, sua mãe já teria desistido, Joseph Climber já teria desistido, e sobretudo o Andy-Murray-tal-como-o-conhecíamos já estaria indagando o sentido da existência ou discutindo a dialética do dropshot na fita em voz alta com um qualquer Woody Allen imaginário. Mas, naquele 5/3, Andy resolveu continuar em quadra a qualquer custo, usando a tática do vai que. Foi. Aproveitou alguma hesitação do adversário, acertou dois winners de direita (não é que ele não saiba como se faz, entende?), ganhou o game de zero, cerrou o punho e, para delírio dos defensores do carisma como sinônimo de autenticidade, vibrou um bocado com aquela quebra. Aí a pressão de ser obrigado a confirmar seu serviço (não falei pra começar sacando, ô desgraça?) lhe apertou até mais cedo do que eu imaginava (hoje sim...) e eu fui dormir, com a manhã já no fim, triste com tudo aquilo, triste por alguém que eu nem conheço, cansado. Patético, mas o que se pode fazer?

O dia em que cansei de Andy Murray

É difícil voltar agora àquela semifinal sem o olhar complacente: aquela (nova) derrota para Djokovic no Australian Open (de novo), na letra fria daquele dia, foi dolorosa como as demais, mas talvez tenha sido a primeira em que o vi batalhar ponto a ponto, contra seu adversário, contra a fadiga acumulada, sobretudo contra o Mefistófeles que lhe vai na cabeça, e ser derrotado sem desistir, dando sinais mais concretos de que estava pronto para caçar o primeiro de seus demônios. Seria preciso esperar mais oito meses, um getting closer em Wimbledon e uma tarde-noite de ventania em Flushing Meadows para que o destino se cumprisse. Mas falar em predestinação naquele 27 de Janeiro só podia ser entendido como ironia, quando não como ofensa; dizer, como tantas vezes se disse quando o britânico participava das cerimônias de premiação dos outros, que a hora e a vez de Andy Murray em torneios Grand Slam estavam próximas já soava como discurso de consolação, tanto para os fãs como para um tenista que simplesmente não conseguia jogar dignamente as finais que disputara até então. Lembremos, nas primeiras três finais a que chegou, Andy Murray não conseguiu vencer um set sequer.

O dia em que cansei de Andy Murray

Quase cinco anos depois, é fácil lembrar daquela derrota como um turning point sutil em sua trajetória. Estamos viciados em histórias de superação. Mas, pra ser justo, aquele foi apenas mais um dia em que me defendi da frustração armado só com uma vaga esperança, tentando ler naquela quebra do quinto set um destino menos trágico para um personagem de que eu gostava tanto, ironicamente, porque era trágico ver tanto talento ser tragado da mesma maneira tantas vezes.

O problema é que, como se sabe, na vida, muitas vezes a hora e a vez nunca chegam e o Augusto Matraga é pura literatura. Aquele 27 de Janeiro plantava, mais do que esperança, a dúvida de não se saber se de fato algo iria mudar. Talvez fosse necessário aceitar que o melhor Andy Murray não era suficiente e que isso acontece e fim. Nunca se sabe, já dizia o filósofo. Agora, vai ter gente dizendo que torcia pelo Murray antes de virar modinha (eu mesmo diria, como se Andy fosse um patrimônio a ser preservado de turistas aproveitadores), vai ter gente dizendo que o forehand do cara não tem potência (nem é tanto assim, mas se você prefere ressaltar o que falta, me agrada mais pensar no quanto é preciso ser bom no restante do jogo para compensar), vai ter gente dizendo que ele é muito defensivo e empurrador de bolinha (eu também diria que chega a ser irritante às vezes, embora entenda que são duas coisas diferentes a maior parte do tempo), vai ter gente feliz só porque os recordes de Federer se mantêm (uma admirável viuvez), vai ter gente dizendo que é tudo culpa da queda técnica do Djokovic (cada um com a sua cruz). Não esqueçamos, vai ter gente dizendo que lhe falta carisma (embora eu ache monótono e paupérrimo que, num esporte feito de pessoas tão diferentes, os campeões tenham que seguir a mesma receita de personalidade). Vai ter gente pra tudo, enfim.

E também vai ter aquela gente do irresistível eu já sabia. Numa semana como essa, em que se celebra a jornada do herói que superou seus demônios para triunfar, esse texto serve só para lembrar que uma quebra no último set pode significar tudo, mas pode muito bem significar coisa nenhuma – e, não raro, significa as duas coisas ao mesmo tempo. E, também, serve para celebrar e fazer justiça à decepção daquele 27 de Janeiro, em respeito àquele cansaço, quando duvidei genuinamente de que Andy Murray seria o tenista que todos pensávamos que ele poderia ser.

Celebrar a decepção, sim. É preciso ser de vez em quando infeliz para se poder ser natural. Pois é, Pessoa, pois é.