CRIANÇAS

Uma chuva de outrem...

João Nasai
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João Nasai
Uma chuva de outrem...



Hoje era um nítido dia de chuva e saí pela rua mesmo assim...

A cidade grande questiona seus padrões a cada esquina (talvez seja esse seu charme?), ela costuma brincar de pregar essa "peça". Te desilude aqui, te convence ali; escancara uma tristeza, pra te brindar um afeto; derrama uma melancolia, reaparece num abraçar de nostalgia. É, talvez seja esse mesmo o seu charme! Aquilo que nos deixa quase impossível de abandoná-la, sem jamais, sequer, pensar em esquecê-la! Há, inegavelmente, suas saborosas lições de vida pelo intermeio de seus semáforos...

Em pleno metrô de domingo, um garotinho fazia viagem no colo de quem eu viria a descobrir ser a sua avó. Estranhamente, todos os assentos já estavam ocupados e por isso a dupla carga naquele à minha frente (não que exigisse uma causa...). Porém, o rapaz de um dos dois bancos laterais ao preferencial duplicado levantou numa das primeiras estações após minha entrada. Logo explodiu o pensamento costumeiro "Assento livre! Senta!" e fiz o gesto inicial, quando vi que o garoto já começava a escorregar por entre as pernas... "Perdi! Justo." Cedi a dianteira ao jovenzinho de gorro. Estava frio assim! Foi, então, que comecei a reparar neles realmente. Observei seus gestos, seus olhares, tirei o fone e comecei a notar em suas risadas, seus comentários, seus sorrisos. Exercitando aquela fabulosa e, individualista, lírica da contemplação humana passageira. E me encantei em segundos...

Por livre e espontânea curiosidade do destino, o outro assento ao lado ficou livre! E ele gentilmente me cedeu sua companhia, deslizando para o recém desocupado mais próximo da janela. Sentei-me com leve e estranha euforia. Ele trazia dois daqueles brinquedos de relaxamento de tensão (Hand Spinners), que em suas mãos tornavam-se verdadeiros passa-tempos de diversão. Brilhavam e giravam, então conversamos sobre eles. Quando algo me chamou a atenção, no meio do bate papo sobre sua argumentação do porquê eram de plástico, não de metal, e da barganha negada pelo vendedor, que não quis fazer um desconto mesmo sabendo que só tinha R$25,00 para gastar, seu nome! Era igual ao meu! Escutei dentre as palavras de sua avó. Olhei para ele, ele encarava o pisca-pisca apagado, perguntei se seu nome era João! Prestes a lhe contar o meu! Contei! Ele riu, olhou em volta e seguiu mudando de assunto! A essa altura eu já sabia que desceríamos na mesma estação, mas eu não queria, e nem consegui, dar atenção ao fato, o caminho já era lúdico e o destino não importava. 

Redescobri uma vida completa de 8 anos que não lembrava com tamanha intensidade havia muitos sentimentos...