COMPORTAMENTO

O pedido de desculpas minimamente aceitável de um assediador em Hollywood

Yazar

Em podcast, criador de “Rick and Morty” assumiu o caso de abuso sexual contra uma roteirista

O pedido de desculpas minimamente aceitável de um assediador em Hollywood

Foto: À esquerda, Megan Ganz, que acusou Dan Harmon (dir.), criador da série Rick and Morty de assédio sexual na época em que trabalhavam juntos em Community 

Antes de tudo, vamos contextualizar: Hollywood e a indústria do entretenimento como um todo nunca antes discutiram tanto sobre assédio sexual. O mundo, de maneira geral - finalmente! -, parece estar com as atenções voltadas à igualdade e ao feminismo, clamando pelo fim da violência contra a mulher e contra opressão de gênero.

Assim, tivemos centenas de casos de estupro e abusos vindo à tona na imprensa nos últimos meses (como Harvey Weinstein), e vimos atrizes e outras personalidades darem cada vez mais voz ao movimento; tal qual o discurso poderoso de Oprah Winfrey (já quase candidata às eleições americanas de 2020) durante o Golden Globe, os protestos com vestidos pretos na cerimônia de premiação, as hastags #TimesUp e #MeToo nas redes sociais e muito, muito mais.

Como “consequência” dessa revelações de assédio sexual de todos os tipos, que acontecem desde o início dos tempos, vimos antigos sex symbols a exemplo de Johnny Depp entrarem para a categoria de “mereciam estar na cadeia”, queridinhos como Kevin Spacey ou Ed Westwick terem, com razão, as carreiras interrompidas - punição mínima, mas isso fica pra outra vez -, e, para o nosso azar, uma enxurrada de pedidos de desculpas dos assediadores e outros comentários masculinos, um tanto quanto vazios, rasos e machistas. “Agora que eu tenho uma filha blá blá”, “Eu era jovem e blá blá”, “minha intenção não era essa e blá blá”, daí pra pior.

Ou seja, no único momento em que deveriam pelo menos reconhecer o erro e assumir sua culpa de maneira sincera, erraram (e feio!) novamente.

Voltando. Enquanto isso, na cultura pop, estourava um fenômeno chamado Rick and Morty, uma animação inteligente que virou uma febre global nos últimos anos, conquistando jovens e adultos. Naquele estilão “A Hora da Aventura”, é uma obra incrível cheia de camadas, interpretações e referências. Você pode saber mais aqui.

O pedido de desculpas minimamente aceitável de um assediador em Hollywood

Bem, caiu no gosto do público e o seu co-criador, Dan Harmon, virou um queridinho entre jovens e fanáticos da série por aí. Até que, na última semana, a roteirista Megan Ganz, que trabalhou com ele na série Community (na qual Harmon era criador e showrunner), o acusou de assédio sexual. Além do óbvio sofrimento dela que havia passado pela experiência terrível e guardado por anos,vale dizer que foi uma surpresa para quem curtia a série. Sem contar que era mais uma vítima vindo a público... E ficava de novo aquela coisa: tem algum que salva?

A surpresa, porém, veio agora. Em seu podcast, Harmon fez o famigerado pedido de desculpas.

Poderia ter sido só mais um entre tantos. Mas não foi, vale destaque, e gente explica por quê.

Para isso, vale ler alguns trechos:

“Eu estava atraído por uma roteirista que era a minha subordinada e sobre a qual eu tinha poder porque eu era o showrunner.”

“Eu tinha plena consciência de que esses sentimentos não eram bons porque eu estava arriscando perder a capacidade de tomar decisões justas, fazê-la questionar sua própria capacidade profissional e [perder] o respeito que os outros roteiristas tinham por mim. Eu sabia disso.”

“Mesmo assim, eu continuei avançando em cima dela e comecei a odiá-la por não me retribuir. Eu disse coisas horríveis para ela, a tratei muito mal e sempre sabendo que eu era quem pagava seu salário e controlava seu futuro dentro da série. Coisas que eu certamente nunca faria com um colega de trabalho homem.”

“Eu destruí a minha série e traí a audiência. Eu destruí tudo e ainda por cima danifiquei o compasso moral interno dela. Nunca tinha feito isso antes e nunca vou fazer isso novamente, mas nunca teria feito se eu tivesse o mínimo de respeito pelas mulheres. Fundamentalmente eu as via como criaturas diferentes.”

“Só consegui cometer todos esses abusos porque eu não pensei no que eu estava fazendo. Se ela não tivesse falado sobre o assunto no Twitter eu continuaria não pensando naquilo.”

“Estamos vivendo um momento histórico porque as mulheres estão finalmente fazendo os homens pensarem naquilo que eles fazem, o que nunca aconteceu antes. Se você não pensa nos seus atos, você empurra para o fundo da sua cabeça e, fazendo isso, você está causando um dano irreparável nas pessoas que foram abusadas”. 

A própria vítima, Megan, declarou em seu Twitter ter aceitado e perdoado. 

Confira:

“Isso vai parecer estranho: semana passada eu denunciei meu ex-chefe Dan Harmon por assédio sexual e hoje eu vou pedir para que vocês escutem o podcast dele”.

Em trecho, diz: “Eu me vejo na situação inédita de ter exigido um pedido de desculpas público e então tê-lo recebido”. 

“Por favor, ouçam, tem só sete minutos, mas é uma aula de como pedir desculpas. Ele não está tentando racionalizar, criando desculpas pelo o que aconteceu ou só vagamente descrevendo o que aconteceu. Ele descreve tudo o que aconteceu e assume a culpa pelo ocorrido”. 

"Sim, eu só escutei porque queria desculpas. O que não esperava era o alívio que me daria em ouvi-lo dizer que essas coisas realmente aconteceram. Eu não sonhei. Eu não sou louca. Ironicamente, a única pessoa que poderia me dar conforto era a pessoa que eu nunca pediria".

No fim, ela o perdoou.  

Isso foi incrível porque é uma lição. Em primeiro lugar, que é sim possível fazer um pedido de desculpas, seja ele público ou não. O que não quer dizer que ele seja sempre suficiente por si só, e muito menos que a vítima precise aceitá-lo. E por outro lado, nem que os espectadores precisem ser permissivos com essa situação por isso, ignorarem o fato dali em diante ou voltarem a idolatrar o assediador em questão.

Segundo, contestar a violência (de qualquer tipo) é sempre preciso. É verdade que, por um lado, as pessoas sempre são passíveis a cometerem erros. Mas não é por isso que certas coisas serão toleradas. E se um dia elas foram, não é por isso que hoje elas sejam justificáveis ou uma “carta branca” para livrar alguém de punição.

Ninguém merece passar pela experiência do assédio nunca, em nenhum contexto, nem no trabalho. É difícil colocar essa emoção em palavras e também seguir em frente ou não se calar. E a admissão do erro do outro pode (não é que vai, pode) ajudar no processo de cura.

Por fim, desconstruir o próprio discurso (seja machismo, racismo, gordofobia, homofobia ou o que for) é um processo - isso vale para qualquer um. Diga-se, muitas vezes difícil; porque você foi ensinado assim, porque você sempre escutou isso na escola, porque a sociedade sempre tolerou algo, ou até por ignorância.

Então não, isso não é para ser “confete para machinho babaca”. Só uma demonstração de tolerância; um pequeno exemplo de passo para a construção de um mundo melhor. Fica a esperança que Dan e tantos outros não cometam de novo assédio. Talvez também que Megan siga em frente.