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Por que Hollywood continua a blindar Woody Allen?

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Mesmo com a repercussão dos casos de assédio sexual e acusações feitas pela própria filha adotiva, o nome do cineasta segue intacto 

Por que Hollywood continua a blindar Woody Allen?

“Espero que alguém acreditem em mim”. Com todo nosso progresso em relação à discussão da violência contra a mulher, essa frase ainda teve que ser dita por uma vítima de abuso sexual  nos dias de hoje. Isso é problemático e emblemático, e vamos explicar o motivo.

O relato em questão veio de Dylan Farrow, filha de Woody Allen, em entrevista ao programa “CBS This Morning”, que vai ao ar na quinta-feira, 18, mas já teve um trecho divulgado.

Confira:

Como a própria própria apresentadora aponta, Dylan sentiu-se ignorada após ter declarado que o pai a abusou sexualmente quando tinha apenas 7 anos, e acredita que agora, talvez com o tema na pauta, seja um bom momento para se abrir para o mundo e relembrar o ocorrido - não que ela devesse, nem precisasse. É uma escolha dela.

Apesar das movimentações na indústria do entretenimento depois de “MeToo” e outros casos que levaram alguns atores e personalidades da indústria a enfrentarem consequências, muitos chegaram a “acusar” a jovem de apenas querer apenas afundar a carreira do pai, algo levantando pela própria repórter. Dylan responde: “Por que eu não iria querer acabar com ele? Por que eu não deveria ficar brava e magoada? Por que eu não deveria sentir um tipo de revolta depois de todos esses anos sendo ignorada, desacreditada e deixada de lado?”.

Não só isso, a própria questão do timing foi questionada pela repórter, para então Dylan afirmar: “Acredito que isso dependa de cada pessoa, mas tudo o que eu posso fazer é a falar a minha verdade e esperar que alguém acredite em mim em vez de só escutar”.

Se você se perguntou, essa é a primeira vez que ela concedeu uma entrevista sobre o assunto, mas não que ela o aborda. Em um artigo publicado em dezembro nos Los Angeles Times, ela já havia corajosamente escrito: “Por que Harvey Weinstein e outras celebridades acusadas estão sendo expulsas de Hollywood, enquanto Allen recentemente garantiu um contrato milionário com a Amazon? (…) O sistema funcionou para Harvey Weinstein durante décadas. E continua funcionando para Woody Allen”.  

Ela tem razão. Por isso, ainda expressa: “É importante que as pessoas percebam que uma vítima, uma acusadora, importa. E que são suficientes para mudar as coisas”. De novo: ela tem razão.

Primeiro, porque como já foi dito tantas vezes, a violência sexual é o único crime em que a vítima precisa parecer ter que provar o ocorrido. (Esse ponto, aliás, é bem longo, mas usando exemplo prático, ninguém fica falando a uma vítima de roubo: “você só quer atenção, mentirosa, vadia”).

Segundo, porque levanta uma discussão ainda maior do privilégio em Hollywood. Afinal, não é nenhuma novidade (ou surpresa!) de que Allen esteja envolvido num caso desses.  O fato é que, diferente do que vimos com Kevin Spacey, Harvey Weinstein, Ed Westick e tantos outros, nada, simplesmente nada aconteceu ou manchou sua reputação - muito menos o seu bolso.

O legado artístico de Allen é importante para a indústria do cinema, ele teve seu papel em Hollywood, isso não está em pauta. Mas o fato de que um diretor como ele tenha feito dezenas de filmes com as maiores estrelas desde que a primeira acusação contra ele foi à tona, é preocupante. Ele, um pai acusado de molestar a filha, foi honrado com prêmios, está para lançar séries de televisão, foi nomeado a dois Oscars e levou uma estatueta pra casa. Mesmo quando seu filho, Ronan Farrow (filho dele com Mia Farrow), apoiou a irmã e cutucou essa ferida diversas vezes - ele é um repórter investigativo que também trabalhou nos casos recentes de assédio. 

Como isso não incomoda mais os espectadores, artistas e críticos?

Recentemente, embora esteja com o filme “A Rainy Day in New York” que tem elenco com nomes Selena Gomez para lançar, alguns atores finalmente começaram a encarar o assunto. Timothée Chalamet e Rebecca Hall que também estão nessa obra, por exemplo, doaram o cachê para uma instituição que combate o assédio sexual, a Time's Up. 

Por que Hollywood continua a blindar Woody Allen?

Foto: Gravações de "A Rainy Day in New York" (Daily Mail/ Reprodução) 

Em janeiro, a aclamada Greta Gerwig, diretora do filme Lady Bird, que já contracenou no filme “Para Roma Com Amor” dele, em 2012, lamentou o feito e ainda afirmou: “Se eu soubesse o que sei hoje, eu não teria atuado. Eu não trabalhei com ele desde então e nem vou (...) Eu sei que cresci como artista por conta dos filmes dele, mas não posso mudar esse fato agora, mas posso tomar decisões diferentes daqui pra frente”.

Isso é verdade, ela, como tantos outros, não podem mudar os acordos já traçados - e até em outros momentos da sociedade. Mas sendo bem honestos, esse tipo de controversa com o nome de Allen já o persegue desde (pasmem!) 1992 quando Dylan (a filha do início dessa história), já havia o acusado de ser molestada pelo pai. Vinte anos não foram suficientes para finalmente admitirmos que Allen não merece o pódio? Do que mais precisamos?

Tanto que naquele ano, em uma grande reportagem da Vanity Fair, testemunhas relataram que havia ordens para Allen nunca ficar sozinho com a filha, que ele chegou a sumir com ela, que eles já foram encontrados juntos com a menina despida da cintura pra baixo, e outros descritos terríveis.

Ainda assim, em todos anos seguintes, alguns dos atores mais bem pagos e que mais trataram de temas relacionados, continuaram e continuam a o defender, ou permanecer neutros, incluindo Kate Winslet ou Diane Keaton, por exemplo. Por aí vai.

“E o próprio Allen?”, você me pergunta. Sempre negou as acusações. Da família, a única pessoa que parece se relacionar com ele é Soon-Yi, de quem o diretor era padrasto e é hoje casado (foto abaixo). A jovem foi adotada no Vietnã com 9 anos durante o casamento com Mia, e foi só quando Soon-Yi tinha 19 anos que a atriz descobriu o caso dos dois. Mia e Allen se divorciaram, e desde então ele sempre alega que era tudo consensual.

Por que Hollywood continua a blindar Woody Allen?

Esse mesmo diretor afirmou sobre o caso de Weinstein: “Você não vai querer entrar numa atmosfera de caça às bruxas, onde qualquer cara que pisca para um garota em seu escritório de repente tem que ligar para seu advogado para se defender”.

Então por que ele continua impune? Seria porque ele tem só uma acusação contra ele? A natureza das acusações não nos incomoda tanto? São muitas perguntas.

Mas com a cultura mudando em relação à forma de lidar com assédio sexual e abusos, assim como aqueles que dão voz ao movimento são mais celebrados, do que encurralados com suspeitas, o que vai acontecer com legado de Allen é uma incógnita. A esperança, contudo, é só uma, a de que que o “caça às bruxas” chegue, sim, até ele.