ENTRETENIMENTO

Bombas Metafísicas

Julia Soicher
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Julia Soicher

Bombas metafísicas no meio de conversas e uma noite entorpecida, na Avenida Paulista, em busca de um sanduíche perfeito... (frisson)

Quando você passa mais de 7 horas pulando; descendo cerveja atrás de cerveja, você não pensa. Você entra no estado catatônico, o famoso automático. Parece que só volta pra si mesmo depois de finalmente se sentar.

Sinto minhas pernas, (latejando). Nunca fiquei tão feliz de estar no meio fio de uma movimentada avenida. A fome começa a bater.

Olho em volta. Estou perto da Paulista. Burguer King.

“Ei, alguém ta afim de bater um bk rapidão?”.

“Eu vou com você”.

Imediatamente me encontro de pé, pronta para atravessar a rua.

Em momento algum passou pela minha cabeça que seria perigoso caminhar no meio de tumultuadas vias, na madrugada de São Paulo, com um estranho desconhecido. Ele era amigo da Juliana. A Juliana sabe fazer bons amigos. Em momento algum passou pela minha cabeça que eu era amiga da Juliana. A Juliana não sabe fazer amigos.

Lá fui eu. Com um moço. Nulo. Tela branca. A materialização de infinitas possibilidades.

Seguindo minhas passadas, começamos a criar um ritmo próprio. Sincronia. Algo impossível de se ter. Nunca havia presenciado um momento desses. Já era bem sabido por mim que meus amigos nunca seriam capazes de me proporcionar essa experiência. Nunca esperei isso deles. Essa era uma ilusão que eu definitivamente nunca alimentei. Sabia que o que acontecia nos filmes do Linklater, ficava nos filmes do Linklater.

Mas não.

Naquele dado instante. Eu havia me tornado aquilo que sempre sonhei (e reprimi, por medo de nunca alcançar).

Não faço ideia de como começou. Lembro apenas da sincronia. A sensação de ter meus pensamentos completados por outro. Um corpo estranho captando com quase perfeição o que eu tentava transpassar. Sim. Sincronia. A sincronia foi a responsável por desencadear os assuntos mais bizarros. Dois pontos fora da curva, se encontrando numa espiral. Era uma espécie única de frisson. (O frisson elevado a máxima potência). Mas eu nunca serei capaz de captar esse evento. É aquela coisa, o clichê de palavras se tornando pequenas demais para definir um momento.

Infelizmente, é verdade. Quando você define, com palavras, um momento, você está limitando ele. Encaixotando um sentimento que não cabe em nenhum compartimento humano (já inventado). Porque esse sentimento não possui dimensões. É Atemporal. Transcende essa lógica organizacional que nos torna prisioneiros de conceitos.

E assim, após caminhar uns bons 3 quilômetros para comer fast food (vale ressaltar nesse ponto da história que o sanduíche vegetariano tão desejado pela mocinha estava em falta), só restava um farol. Um semáforo, e estaríam de volta a realidade. Uma realidade, onde entrar num sex shop com um desconhecido era inaceitável. Uma realidade onde discutir incesto era condenável. Uma realidade pautada pelos limites.

Espaço.

Tempo.

“Ei, eu nem perguntei seu nome”.

“Mas eu não vou te falar meu nome”.

E não falei. Já que tinha certeza, de que ia perder esse pequeno fragmento de memória para as palavra; de que este circulo mágico teria necessariamente um fim; tentei deixá-lo intacto, conserva-lo o máximo possível.

A saída que encontrei, foi o anonimato. Minha inútil tentativa de proteger o intangível. E seguindo a lógica do Stephen King, de que palavras muitas vezes enterram o sentimento, preservei meu momento no formol.

Minha troca perfeita. Minha experiência inigualável. Nunca teria nome. Seria para sempre, este ponto de interrogação. Sem definição. Sem limite. Infinita.

Bombas Metafísicas