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CAL(D)OR

Julia Soicher
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Julia Soicher

Viver se tornou impossível.
Fecho os olhos.
Sinto o calor asfixiante tomando conta.
A avalanche de memorias invade.

Abro os olhos.
Tento escapar da enxurrada de dor.
Não da.
A luz entra pelas minhas retinas.
Encarar a realidade é um sofrimento maior ainda.

É o sol.
O sol se tornou um grande vilão.
Por ser o gerador do que é brilhante.
Por ser o responsável pelo que é quente.
O quente e o brilhante.
O fogo.

Me arrepio só de pensar.
Uma palavra.
Duas silabas.
Quatro letras.
O fogo.

E assim não tenho mais como escapar.
Voltar no tempo é um desejo intangível.
Estarei sempre presa dentro deste corpo.
Dentro desta caixa de ossos que não mais me representa.
O fogo.

O fogo aniquilou.
Dizimou.
Queimou.
Sem pedir permissão.
Acabou com tudo que habitava a Gabriela.
O fogo.

Mas esqueceu algo.
Deixou em pé, intocado, um único sobrevivente.
Da catástrofe renasceu o medo.

Medo.
Medo de passar por espelhos.
Olhar para frente e não me reconhecer.
E ao não me reconhecer, não lembrar.
E ao não lembrar, questionar.
E ao questionar, não parar mais.

Segundo Kant é assim que se evolui.
Questionando.
Utilizando o poder do pensamento.
Não sei se posso evoluir.

Sei apenas do que conheço.
Conheço apenas esse novo eu.
Esse novo eu queimado e desfigurado.

Assustando espelhos.
Assombrando pensamentos.
E habitando a imensidão do anonimato infinitamente.
Eternamente, a nova Gabriela.