SORRISO NONSENSE
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CAL(D)OR

Viver se tornou impossível.
Fecho os olhos.
Sinto o calor asfixiante tomando conta.
A avalanche de memorias invade.

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Abro os olhos.
Tento escapar da enxurrada de dor.
Não da.
A luz entra pelas minhas retinas.
Encarar a realidade é um sofrimento maior ainda.

É o sol.
O sol se tornou um grande vilão.
Por ser o gerador do que é brilhante.
Por ser o responsável pelo que é quente.
O quente e o brilhante.
O fogo.

Me arrepio só de pensar.
Uma palavra.
Duas silabas.
Quatro letras.
O fogo.

E assim não tenho mais como escapar.
Voltar no tempo é um desejo intangível.
Estarei sempre presa dentro deste corpo.
Dentro desta caixa de ossos que não mais me representa.
O fogo.

O fogo aniquilou.
Dizimou.
Queimou.
Sem pedir permissão.
Acabou com tudo que habitava a Gabriela.
O fogo.

Mas esqueceu algo.
Deixou em pé, intocado, um único sobrevivente.
Da catástrofe renasceu o medo.

Medo.
Medo de passar por espelhos.
Olhar para frente e não me reconhecer.
E ao não me reconhecer, não lembrar.
E ao não lembrar, questionar.
E ao questionar, não parar mais.

Segundo Kant é assim que se evolui.
Questionando.
Utilizando o poder do pensamento.
Não sei se posso evoluir.

Sei apenas do que conheço.
Conheço apenas esse novo eu.
Esse novo eu queimado e desfigurado.

Assustando espelhos.
Assombrando pensamentos.
E habitando a imensidão do anonimato infinitamente.
Eternamente, a nova Gabriela.

POSITIVO

É involuntário.
Não consigo parar.
Mas sei.
Sei que irrita.
Se meus próprios pés, que ao serem batidos contra o solo me irritam, imagino o quão insuportável eles devem ser para o resto do mundo.

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O problema é essa sala.
O amarelo das paredes descasca, e ninguém liga.
O desespero transborda.
E sufoca.
E ninguém liga.
A espera é desconfortável.
Pinica.
Incomoda.
E o julgamento é intoxicante.
Os olhares alheios.
Me assediam.
Me queimam.
E ninguém liga.

Já é a 3ª vez que me encontro aqui.
Sentada.
Com o ar preso.
O nó na garganta.
E o coração na mão.
Na mão não.
No chão.

Não há surpresas.
Aqui, nesse laboratório, há uma Luiza plantada.
Sem perspectiva nenhuma.
Sem esperança.
Apenas um buraco, onde está deveria estar.

A luz me cega.
É forte demais.
Mas dizem que é esse o papel da verdade.
Te dar uma rasteira.
Te pegar de surpresa.
E no pulo do gato, acabar com tudo.

Por isso estou aqui.
Já sabendo o que esta para acontecer.
Mas sei que a negação faz parte.
Apertando o envelope com todas as forças que em mim possuo:
HIV positivo.

Solto o ar.
E me permito, pela primeira vez, deixar que as lagrimas corram soltas.
Uma atrás da outra, elas traçam um caminho próprio.
Único.
Individual.
Não sabem para onde vão.
Mas apenas que vão.
Sem um final traçado.
Sem nenhuma barreira ou obstáculo.
Elas são livres.
Independentes.

Fecho os olhos novamente.

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Story cover
escrita por
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juliasoicher
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