ECONOMIA

A JBS acha que o presidente do BNDES falou demais. Entenda a disputa

Lilis Sobral
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Lilis Sobral

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) não esconde a insatisfação com todo o imbróglio envolvendo a JBS e os irmãos-executivos-delatores Joesley e Wesley Batista.

A JBS acha que o presidente do BNDES falou demais. Entenda a disputa

Presidente do BNDES fala na sede da Firjan - Tânia Rêgo/Agência Brasil

Desde que as delações começaram a vir à tona, o banco tem defendido publicamente uma mudança na gestão da empresa (que acabou acontecendo nesta semana, mas não como a instituição queria).

Mas a questão chegou a um ponto em que a JBS começou a achar que o presidente do banco, Paulo Rabello de Castro, anda falando demais e ameaçou processar o economista.

Até culminar na ameaça, teve chão. Primeiro é importante entender que o BNDES só dá pitaco na JBS por que pode. O banco é um dos maiores acionistas da empresa, com 21,32% das ações do frigorífico.

Ainda em junho, Paulo Rabello de Castro já começou a defender que Wesley Batista fosse afastado do dia a dia da JBS, assim como seu irmão Joesley foi do conselho após o estouro das delações.

Delações estas, que vale lembrar, implicaram até o presidente Michel Temer e deixaram as da Odebrecht parecendo coisa de amador.

O BNDES começou a tentar votar uma mudança na gestão da JBS antes mesmo do calo começar a apertar com as prisões dos irmãos. Mas as tensões aumentaram de verdade quando Wesley Batista, até então CEO da JBS, foi preso no último dia 13.

Horas depois da prisão, Rabello de Castro fez um comentário público, reclamou no Twitter e ameaçou:

Prometer tirar os investimentos feitos na JBS causa um frisson no mercado, um bastante negativo. O banco tem muito aportado na empresa, sendo o maior acionista fora do bloco controlador. A possibilidade de ver uma retirada das aplicações deixou os investidores ainda mais apreensivos.

O tuíte foi curto, incisivo e um pouco misterioso. Mas para além do comentário, o economista do BNDES continuou reclamando publicamente da gestão da JBS, dizendo que uma mudança era ainda mais urgente agora com prisão de Wesley.

E a troca de CEOs veio, pero no mucho. A JBS não esperou nem o mercado abrir e já no domingo disse que seu fundador, José Batista Sobrinho (reconhece as iniciais?), seria seu novo (mas nem tão novo assim) presidente.

A escolha do pai de Wesley e Joesley foi o estopim para o BNDES. A segunda-feira foi dia de repercussão nos principais jornais do país. Rabello, é claro, deu uma série de entrevistas reclamando da escolha, dizendo que não adiantava nada manter o comando da JBS na família. Sabemos que a gestão de empresas familiares costuma ser cheia deste tipo de conflitos. Mas nesse caso, a gravidade do problema torna tudo maior.

O presidente do BNDES reclama com razão. Não desvencilhar a empresa da família Batista, ainda que só aparentemente, impede que a empresa se quer comece a recuperar a tão abalada credibilidade.

Mas o frigorífico não gostou nada das declarações do economista sincero. E aí voltamos para mais esse capítulo da disputa entre acionista e empresa. A JBS enviou para Rabello de Castro e para o BNDES uma carta raivosa. Disse que os comentários do economista vão contra os interesses da companhia e que a queda das ações na bolsa de valores evidencia isso (como se o mercado tivesse gostado muito das decisões do frigorífico até agora). A JBS acusa o economista de calúnia, injúria e difamação e diz que está estudando que medidas legais pode tomar para se proteger.

Enquanto espera o desenrolar da disputa, o mercado, insatisfeito, continua derrubando os papéis da JBS. Paulo Rabello de Castro, na outra ponta, continua com o Twitter afiado.