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Por que a decisão que abre espaço para a cura gay é um retrocesso

Lilis Sobral
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Lilis Sobral

Uma decisão judicial abriu um perigoso precedente e fez o Brasil dar vários passos para trás na questão dos direitos LGBT.

Por que a decisão que abre espaço para a cura gay é um retrocesso

Imagem: Unsplash

A Justiça Federal da Seção Judiciária do Distrito Federal concedeu uma liminar que abre espaço para tratamentos psicológicos que caminham para a reversão da orientação sexual. A famosa “cura gay”.

A liminar foi concedida numa ação popular que questionava a Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que orientava profissionais sobre o tema e proibia exercer qualquer terapia que tratasse a homossexualidade como patologia.

Trocando em miúdos: o CFP reafirma uma conclusão antiga da Organização Mundial da Saúde (OMS), de que ser gay não é doença nem distúrbio mental (logo não tem cura cabível).

O próprio CFP disse isso numa carta aberta, explicando que querer aplicar “tratamentos” para mudar orientação sexual é uma grave violação aos direitos humanos.

Muita gente na internet se revoltou, e com razão:

Mas também se espalharam pela rede alguns comentários defendendo o suposto método.

Como às vezes tudo o que precisamos é de um pouco de informação, vale a pena desmistificar alguns discursos em defesa da cura gay que estão começando a surgir.

1- Sou eu que sei o é melhor para o meu filho

Até uma certa idade, provavelmente essa frase é verdadeira. Porém, a orientação sexual, ao contrário do que muita gente diz, não é opção. O filho de ninguém escolhe ser gay, lésbica ou bissexual. Assim, por mais que um pai e uma mãe acreditem que ser hétero é o melhor para seu filho, não cabe nem a eles, nem a ninguém, escolher isso.

E atenção para uma informação chocante: o melhor para seu filho ou sua filha é ser quem ele ou ela é, hétero ou não. Os pais que acham o melhor para um filho é ser hétero é que precisam de terapia para entender que não é a orientação que define caráter e felicidade.

2- Isso vai permitir que gays busquem terapia

Gays já podem buscar terapia. Eles deitam no mesmo divã que os héteros, encaram os mesmos terapeutas, e falam sobre os mesmo problemas da vida: família, trabalho, amores...

O que não existe é terapia para mudar orientação sexual. Isso gay nenhum pode buscar mesmo, simplesmente porque não existe. O que os LGBTs podem e devem procurar é um lugar seguro em que possam falar sobre sua sexualidade e que os ajude a assumi-la para o mundo.

3- Isso vai permitir que gays usem o plano de saúde, pois homossexualismo é doença

Primeiro que é homossexualidade. DADE, ok? Segundo que não, não é doença (a não ser que você queira discutir com a OMS).

As regras para fazer terapia com cobertura do plano continuam as mesmas para héteros, gays e simpatizantes. Geralmente são atreladas à facada que custa um plano privado (e não há quem x beneficiárix gosta de ter na cama).

4- Permitir a cura gay vai quebrar o SUS

Sim, tem gente reclamando na web que agora o dinheiro de seu suado imposto vai para pagar tratamento de gay pelo SUS. Não estou brincando. Os comentários chegaram mesmo nesse nível.

A cura gay não vai quebrar o SUS porque a cura gay não é algo possível, então não tem como entrar na lista de tratamentos financiados pelo serviço público. E todos os outros tratamentos do SUS são abertos para qualquer pessoa, independente da orientação sexual, e nossos impostos vão para todos sim.