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Premiê da Nova Zelândia anuncia gravidez e diz: marido é quem ficará em casa

Lilis Sobral
Autor
Lilis Sobral

Anúncio de Jacinda Ardern reacende as discussões sobre liberdade das famílias e conflitos entre carreira e maternidade

Premiê da Nova Zelândia anuncia gravidez e diz: marido é quem ficará em casa

(Imagem: Reprodução / Facebook Jacinda Ardern)

Se é para falar de um lugar que quase nunca aparece no cenário da política, esta é a Nova Zelândia. Num mundo dominado por notícias sobre o americano Donald Trump, a alemã Angela Merkel e o chinês Xi Jinping, não sobra espaço para o país de menos de 5 milhões habitantes.

E foi uma novidade atípica no meio que colocou a Nova Zelândia no noticiário político internacional. Jacinda Ardern, que assumiu o cargo de primeira-ministra do país no final de outubro, anunciou que está grávida.

A notícia foi muito comemorada por quem defende que mulheres podem sim ser muito bem-sucedidas em suas carreiras, até nos setores mais dominados por homens, como é política

E foi mais celebrada ainda por um outro detalhe. A premiê avisou que o casal decidiu que o marido de Jacinda, Clarke Gayford, vai deixar o trabalho para cuidar do bebê após a licença da mãe.

“E nós achamos que 2017 seria um grande ano! Clarke e eu estamos muito felizes que em junho nosso time vai crescer de dois para três e nós vamos entrar para o clube de muitos pais por aí que usam dois chapéus [têm duas jornadas]. Eu serei primeira-ministra E mãe e Clarke será o "primeiro-cavalheiro da pescaria" e um pai que fica em casa (...) Eu sei que terão muitas perguntas, e nós vamos responder todas elas (eu garanto que temos um plano e estamos prontos para ele). Por enquanto, pode vir, 2018".

Jacinda não escapou de alguns comentários bastante críticos à decisão. Mas a notícia teve uma repercussão positiva muito maior e diversas mensagens de apoio.

"Ótima notícia... e outra grande oportunidade para a Nova Zelândia mostrar ao mundo como o futuro pode ser", escreveu um internauta no Twitter.

"Eu sei que isso vai deixar muitas pessoas nervosas. Mas eu mal posso esperar para que você mostre que elas estão erradas e que uma mulher que luta por mais empregos na Nova Zelândia pode ser uma mãe e ter uma carreira ao mesmo tempo", comentou outra no Facebook.

É importante lembrar que Jacinda não é a primeira mulher a passar por uma gravidez enquanto estava num cargo tão alto de comando de um país. Benazir Bhutto teve sua filha em 1990, enquanto era primeira-ministra do Paquistão (aliás, um país de maioria muçulmana). Ainda assim, a notícia deve ser comemorada como mais um passo na quebra de preconceitos.

Além de mostrar que mulheres podem sim conciliar trabalho e maternidade, trouxe outra discussão de volta para o centro do debate ao voltar o olhar para a liberdade que casais deveriam ter para dividir as tarefas da casa, da vida e da família.

As pesquisas nessa área vão um pouco lenta, mas mostram que ainda são poucos os pais que optam por deixar seus trabalhos formais para se dedicaram às tarefas domésticas. Uma de 2012, feita pelo importante instituto de pesquisa Pew Research, mostra que eram 2 milhões os homens que faziam essa opção nos Estados Unidos.

No Brasil, existe um dado geral sobre tarefas domésticas, não só sobre o cuidado com as crianças. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), considerando apenas o tempo dedicado aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, as mulheres trabalham cerca de 20,9 horas semanais, enquanto os homens ficam com contra 11,1 horas.

Agora é torcer para que o exemplo da primeira-ministra neozelandesa plante uma sementinha numa mudança cultural bastante grande – e tão fundamental.