COMPORTAMENTO

Quase metade dos brasileiros conhece uma mulher que abortou

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E ainda assim, insistimos em não tocar no assunto...

Falar de aborto no Brasil está longe de deixar de ser um tabu. Criminalizar a mulher que o faz também parece via de regra das vozes que gritam mais alto sobre o tema. Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira faz com esse comportamento perca ainda mais o sentido.

Quase metade dos brasileiros conhece uma mulher que abortou

Protesto no Rio de Janeiro contra PEC que criminaliza todas formas de aborto - Tomaz Silva/Agência Brasil

Segundo dados dos institutos Locomotiva e Patrícia Galvão, 45% dos brasileiros com mais de 16 anos conhecem ao menos uma mulher que já interrompeu uma gravidez. Isso mesmo, quase metade da população.

Quando consideradas apenas as mulheres entrevistadas, o dado deixa essa questão ainda mais evidente: 52% conhecem alguém que abortou.

Os institutos falaram com 1.600 pessoas de 12 regiões metropolitanas do país e publicaram as conclusões no estudo “Percepções Sobre o Aborto no Brasil”.

O que o dado prova é algo que já deveríamos saber, mas fingimos não prestar atenção: o aborto é um tema que faz parte de nosso dia a dia e permeia a vida de mulheres próximas a nós

Por que então é tão difícil falar sobre ele?

Não dá para colocar a culpa em um só fator. Às vezes é a religião, às vezes é a opinião “científica” de leigos que estão certos sobre quando um feto é uma vida ou não... enfim, a lista não é curta.

Fingir que o aborto não é comum no Brasil traz também percepções confusas em quem não discute o assunto com clareza em um debate aberto. A mesma pesquisa dá algumas indicações disso.

Por exemplo: 62% dos entrevistados se disseram contra o direito de escolha da mulher de maneira geral. Mas quando alguns critérios muito específicos são colocados na mesa, o resultado muda completamente.

Os institutos perguntaram: mas e se acontecesse pelo menos uma destas situações?

- Gravidez não planejada

- Se a família não tiver condições de criar

- No caso de meninas com até 14 anos

- Se o feto for diagnosticado com alguma doença grave ou incurável como quando a mulher tem zika

- Se a mulher correr risco de vida na gestação ou parto

- Caso a mulher tenha ficado grávida vítima de um estupro

E ai, a história mudou totalmente, com 81% dos entrevistados dizendo ser favorável ao direito de escolha se ao menos um dos casos tivesse acontecido. 

As situações hipotéticas abrangem mais do que as que permitem o aborto legal hoje no Brasil. As percepções mostram que, se pelo menos falássemos sobre isso sem julgar e sem criminalizar quem passa por este momento, poderíamos, quem sabe, dar pequenos avanços na legislação e proteção de nossas mulheres.

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