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Queermuseu deixa o alerta: precisamos falar de sexualidade com nossas crianças

Lilis Sobral
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Lilis Sobral

Você provavelmente já percebeu que, nos últimos dias, uma polêmica em torno de uma exposição de arte tomou as redes sociais. A mostra “Queermuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira” se propunha a falar sobre representações da sexualidade pelos olhos de diversos artistas.

Queermuseu deixa o alerta: precisamos falar de sexualidade com nossas crianças

Parte da exposição Queermuseu, obra de Bia Leite foi alvo de críticas - reprodução

Realizada em Porto Alegre, foi cancelada pelo Santander Cultural antes da data prevista para o fim, depois que grupos religiosos e o Movimento Brasil Livre (MBL) criticaram as obras, acusando algumas imagens de terem inclusive conteúdo caracterizado como pedofilia e ofensa a símbolos religiosos.

Algumas peças, entre as mais polêmicas, traziam por exemplo os dizeres “criança viada”. A artista Bia Leite, autora dessas ilustrações, e o curador da obra, Gaudêncio Fidelis, fizeram algo muito melhor que dar uma justificativa para os trabalhos ao comentar o assunto: levantaram em entrevistas uma questão sobre a qual deveríamos pensar mais. Para eles, as obras alertam para o bullying que crianças LGBT sofrem desde cedo.

Precisamos falar sobre gênero

Sim, crianças LGBT. Boa parte dos homens e mulheres que não são heterossexuais começam a questionar sua sexualidade na infância e adolescência. “Criança viada” não chega nem perto das expressões pejorativas que estes jovens escutam por não se encaixarem num padrão definido pela sociedade.

Mas os pais têm o poder de, pouco a pouco, descontruir esses padrões. É importante que essas crianças encontrem um ambiente seguro para exercer sua liberdade e seu pensamento com o apoio da família. E a conversa tem que vir para preparar os jovens que vão encontrar diversas classificações de gênero e sexualidade, exercidas com cada vez mais liberdade.

Como falar?

A questão da sexualidade não é uma parte dura do mundo. É uma parte natural. Se até o Facebook já adicionou 56 classificações de gênero e sexualidade para seus usuários, por que deveríamos continuar encarando “meninos” e “meninas” heterossexuais como “normais”, colocando na gaveta do desconforto todo mundo que não nasceu assim?

Claro, num momento no qual estamos aprendendo a nos abrir, falar sobre sexualidade com crianças não é fácil. Mas se começar o assunto é a primeira dificuldade, que tal simplesmente responder? Crianças são seres “perguntadores” por natureza. Se um dia vier uma pergunta do tipo: “mamãe, por que aqueles dois homens estão se beijando”, não existem motivos para responder algo além de “porque eles se amam, como a mamãe ama o papai”.

O psiquiatra americano Aron C. Janssen, especialista em gênero e sexualidade na infância e adolescência, tem outras dicas práticas. Uma das sugestões é normalizar o tema e aproveitar que a mídia está cada vez mais abrindo espaço para a questão. E aqui, voltamos à polêmica exposição. Se você tem um adolescente em casa, ativo nas redes sociais, já experimentou perguntar, por exemplo, se ele ou ela está seguindo a repercussão e o que acha disso?

Nova casa para a criança viada

O cancelamento da exposição gerou protestos também fora das redes sociais. Além de ver um movimento de pessoas trocando foto de capa no Facebook para divulgar as obras censuradas, muita gente também foi para as ruas em Porto Alegre.

Aliás, o procurador Julio Almeida, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, também visitou a exposição. Sabe o que ele disse? Não houve crime sexual contra crianças, como afirmaram movimentos contrários.

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Censura nunca mais! Censorship never again! #queermuseu #leaveartalone #nocensorship #estadolaico #lgbt #lgbtq

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Talvez seja essa mobilização que tenha dado força para os organizadores procurarem uma nova casa para as obras que tratam de assuntos que a sociedade tem tanto medo de falar. Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo estão entre as cidades que manifestaram interesse em receber a exposição, segundo o próprio curador.

A oportunidade de ver as telas enquanto pensamos na bola levantada do bullying contra crianças LGBT tem tudo para alimentar o debate livre sobre gênero e sexualidade. Agora é esperar que isso realmente aconteça e, assim, os protestos e as vozes pela arte não terão sido em vão.