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As controvérsias do Nacionalismo que foi às ruas em Varsóvia

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Milhares marcharam pelo Dia da Independência em meio a onda de movimentos ultra radicais 

As controvérsias do Nacionalismo que foi às ruas em Varsóvia

Tensão entre grupos políticos tomou centro histórico da cidade (Foto: Redes Sociais)

Nesse sábado (11), cerca de 60 mil poloneses se reuniram na região central da capital Varsóvia, para celebração do Dia da Independência, comemorado anualmente em todo o país. Aglutinados em meio à fumaça vermelha dos sinalizadores, como fazem os Ultras - grupos radicais fanáticos de torcidas organizadas - os participantes da multidão marcharam pelo centro da cidade, nos arredores da estação central do metrô (Centrum) em uma mistura polêmica de celebração e protestos.

Com o fervor insurgente dos movimentos de extrema direita na Europa, recentemente impulsionados pelo fortalecimento de partidos políticos, como o Movimento 5 Estrelas na Itália, a sombra da Marine Le Pen nas disputadas eleições francesas e a vitória do conservadorismo na decisão do Brexit, muitas bandeiras assumidamente extremistas sequer esconderam o rosto – e deixaram muitos outros à mercê da pergunta: quem é que foi às ruas em Varsóvia?

Os fatores se somam para responder à questão. Outra face do extremismo ideológico, que levou a uma onda de ataques terroristas, em sua maioria reivindicados pelos radicais do Estado Islâmico, aparece como motivador para o episódio polonês. Resultado da crise humanitária no Oriente Médio, a onda de imigrantes espalhados pelas capitais do continente fez surgir novos adeptos à islamofobia generalizada, deixando refugiados sob o julgamento de uma parcela da população que se declara favorável a existência de uma "Europa branca".

O número expressivo de participantes desse último sábado gera a dúvida se, de fato, pensamentos dessa natureza se restringem a uma parte dos cidadãos. Ainda que o encontro tenha servido para marcar o nacionalismo do país, a incompreensão sobre a natureza do ato se mantém sólida em um momento crítico e de acentuada divisão de pensamentos. 

O mapa do ódio

Mariusz Blaszczak, ministro do Interior e membro do partido conservador Lei e Justiça (Prawo i Sprawiedliwość ou PiS, em polonês) foi a público e se disse orgulhoso pelo o que acontecia nas ruas. De forma simultânea, relatos em redes sociais apontam para uma reação truculenta da Polícia e para o confronto entre grupos progressistas e movimentos que flertam com a apologia ao nazismo.

Em sua conta no Twitter, a jornalista Anne Applebaum escreveu sobre o caso:

Em meio a uma possível institucionalização do ódio, o cientista político e doutor em Sociologia Rogério Baptistini Mendes comentou o caso. Segundo o especialista, o problema da ascensão do extremismo de direita está relacionado com uma globalização que favorece o fluxo de mercadorias e capital e mantém os trabalhadores fixos em seus territórios nacionais.

“Enquanto explora a desigualdade espacial e concentra riqueza em poucas mãos, a dinâmica capitalista global ressuscita fantasmas adormecidos, da época do surgimento dos Estados e do imperialismo”, afirma. Baptistini, que também é professor no Mackenzie, afirma que a pregação neoliberal contra o humanismo de esquerda gerou cenário perfeito. “É óbvio que os ódios explodem”.

O que se sente 

Moez Ben Blaze, 30, mora na Polônia e sabe da tensão. O tunisiano, que conhece o país desde 2013, fala em uma “plataforma odiosa” criada para que se propague o preconceito, principalmente a população muçulmana – da qual faz parte com orgulho.

“Nem só poloneses contribuem para esse pensamento, mas vários países. Em resumo, não é muito seguro para quem tem a pele mais escura”, conta.

A desigualdade é um agravante. Para ele, o fato de morar em regiões centrais e não ser considerado “100% árabe” segundo os habitantes alivia seu caso. Outros não têm tanta sorte.

“É um problema vindo em uma escala maior. É algo sistemático, quando você vê o governo encorajando medo e ódio. Enquanto ucranianos vêm aos milhões, só falam dos ‘invasores’ que são refugiados ou imigrantes muçulmanos”. 

As controvérsias do Nacionalismo que foi às ruas em Varsóvia

Bandeira exposta no sábado (11). (Foto: Redes Sociais)

Natalia Wyrzkowska é polonesa e mora na Alemanha. Segundo a estudante, o assunto sobre o evento de sábado se abre em uma grande discussão. A jovem chama atenção para uma propaganda "anti polônia", que tem, ironicamente, levado todo o país a uma imensa generalização de fatos. Há coisas com as quais não concorda: "A briga entre os partidos acontece há muito tempo e muita mudança ocorre, mas passa muito longe de ser algo nazista", relata. 

Percepções e ideologias ficam opostas em meio ao que foi chamado de "nacionalismo" no último sábado, nas artérias da capital da Polônia.  Não há como se discutir sobre o direito de um povo comemorar um dia marcante do calendário. Mas as controvérsias, sem dúvida, parecem ficar evidentes quando, festeja-se  intolerância dá as mãos rumo à normalidade.