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Catalães sob nova incerteza

Lucas Berti
Autor
Lucas Berti

Divisão entre os dois governos põe convocação por eleições e novas decisões do congresso contra escalada pela independência

Catalães sob nova incerteza

Unanimidade nas opiniões, dos dois lados (Foto: Riderfoot)

O "sim" pela separação entre catalães e espanhóis talvez seja tão abraçado pela população quanto Messi, Piqué e as estrelas do Barcelona. Em meio a três grandes votações envolvendo a Independência da Catalunha entre os meses de setembro e outubro, é certo que a Espanha vive, hoje, o momento geopolítico mais delicado de sua história democrática, desde a transição que marcou a saída do militarismo em 1978.


Em uma primeira movimentação, o povo da região Nordeste da Espanha foi às ruas e viveu um verdadeiro cenário de guerra. Entre faixas e cartazes favoráveis ao referendo de Independência, mais de 2,2 milhões optaram por um destino catalão à margem das decisões de Madri. Mais de 800 pessoas ficaram feridas em confrontos com a polícia, mas a vitória esmagadora aqueceu os motores. 

Mais recente, as cúpulas dos dois protagonistas se rivalizaram. Nessa sexta-feira (27), o Parlamento Catalão votou pela elaboração de uma constituinte que finalizasse o processo de separação entre as regiões. Mais uma vez, o "sim" venceu com 70 votos contra apenas dez contrários e duas abstenções, com apoio dos grupos independentistas Juntos Pelo Sim e CUP (Candidatura de União Popular), idealizadores da medida. Madri respondeu. 

Um novo "sim" - mas pela destituição 

No mesmo dia, por 214 a 47, o Congresso espanhol decidiu recorrer ao Artigo 155 da Constituição do país que prevê a imposição do Estado sobre uma administração regional que não cumpra a lei. Encabeçada pelo Presidente Mariano Rajoy, a decisão do Governo de frear a movimentação separatista da Catalunha vai além de manter o controle regional e zelar por uma Espanha única. Segundo a imprensa espanhola, em último caso, o Ministério Público pode indiciar o presidente catalão Carles Puigdemont, figura política mais forte da votação parlamentar, pelo crime de rebelião. 

Quem vota e o que pode mudar

Um dos elementos que chama atenção em meio ao polêmico processo de separação entre catalães e espanhóis é a o abismo numérico visto nas votações. Se nos votos populares se viu 90% de adesão e, adiante, o congresso, com Rajoy, conseguiu nova vitória esmagadora pela destituição do movimento, por que se foge tanto ao consenso?

Por uma soma de motivações, que vão de questões econômicas a ideológicas, a intenção catalã de caminhar com as próprias pernas é antiga. Em resposta, membros do PSOE (Partido Socialista de Operários Espanhol) e cidadãos de centro-direita se unem diante da "ameaça separatista", que mais parece dividir Madri e Barcelona do que necessariamente linhas ideológicas. Em resumo, espanhóis gritam alto para que tudo fique como está. Catalães, o contrário. 

A perspetiva segue imprevisível. As eleições espanholas, previstas inicialmente para o final de 2019, podem ser antecipadas diante das decisões recentes em Madri. Enquanto se espreitam na esfera pública, Rajoy e Puigdemont parecem afirmar apenas o que há de verdade e legalidade nas decisões de interesse de seus próprios grupos. Enquanto a Espanha reúne forças e recorre à Constituição em articulações inéditas, a região mais rica do país segue disposta a manter a postura pela independência, dando ares institucionais à incerteza que cerca o país ibérico.