ECONOMIA

E se o dinheiro deixar de existir?

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Como o advento digital pode levar à ruína da moeda - como conhecemos

E se o dinheiro deixar de existir?

Na maioria dos cursos de economia, a missão do aluno é aprender, logo nas primeiras aulas, a destrinchar a fórmula que calcula a produção de um país. Ao colocar no papel, é possível ver que consumo, investimento, gastos governamentais e o saldo econômico - entre o que se importa e exporta - totalizam no conhecido Produto Interno Bruto (PIB) - termo um pouco mais conhecido. Com isso, já dá para medir o país por seu valor financeiro e ter uma ideia de alguns números que definem a economia no mundo.

Somados todos os PIBs da terra, estima-se que o valor de 50 trilhões de dólares responda grosseiramente à pergunta que todos nós já nos fizemos um dia: "Quanto dinheiro existe no mundo? ”. Ainda que as variáveis econômicas não permitam um cálculo preciso, chama-se de valor real tudo o que é produzido pelos países do globo em uma soma simples. Nesse caso, não entram os valores de ações do mercado financeiro, títulos e valores de depósitos. Resumindo, é chamado de real todo o valor monetário que "existe" de fato.

Todo os outros fatores da equação, que aumentam o valor do mundo em quase três vezes, são ativos financeiros que basicamente definem o dinheiro em circulação - e que fazem a economia girar a partir de uma engrenagem maior e abstrata. Mas se, em termos financeiros, já é complicado definir o que é e o que não é real, o que aconteceria com o mundo se o dinheiro deixasse de existir?

Na mão é vendaval?

Do metalismo medieval (Séc. XVI), que impulsionou o uso unificado de metais e tirou de cena o mercantilismo e seu funcionamento desigual de trocas, até a reunião de Bretton Woods (1944), que reuniu as economias mundiais no pós-guerra para estabelecer o dólar como a principal moeda de mercado, jamais se imaginou um mundo sem o dinheiro físico.

Fundamental para o sistema de lastros, que condiciona reservas de capital a uma respectiva quantidade de ouro, como estabelecido em Woods, a existência física da fortuna manteve a estabilidade mundial sob proteção, impedindo que um colapso financeiro sistêmico levasse o mundo a saltar em um abismo de inflação, que envolveria uma dezena de países.

Para Marcos de Andrade, economista e professor do Mackenzie, a previsão de um mundo sem o papel verde ainda é incerta. Segundo o especialista, os vários momentos de transição do dinheiro, passando pelo talão de cheque, cartões de crédito e débito e, adiante, com as transações digitais, foram consequência de novos tempos, não de uma intenção de se livrar dos trocados físicos.

“Chamo atenção para o timing que tem o dinheiro físico. Se olharmos para o varejo, por exemplo, não é esperado que acabe, já que uma parte do comércio usa valores menos expressivos”, comenta.

A falta de acesso é outro agravante. Ao se pensar em vantagens oferecidos por cartões financeiros, é fácil encontrar que, até 2014, cerca de 55 milhões de brasileiros ainda eram classificados como desbancarizados, segundo o IBGE. O dado abraça valores bilionários de renda utilizada de forma direta na compra de bens e serviços. É fato que a mudança pode acontecer. Mas, talvez, aconteça primeiro na velocidade de um saque – e não de um clique. 

(Quase) tudo computado

Do anos 90 para cá, tudo mudou. A revolução tecnocientifica corria a plenos pulmões com o final da Guerra Fria e o boom tecnológico das corridas armamentista do último terço de século marcava o fim da era do físico. Começava a impreterível era dos dados, que hiperconectaria o mundo, o homem e, obviamente, a grana.

Sem a obrigatoriedade de uma moeda palpável, o funcionamento da economia se abriu em um leque de possibilidades. Seguindo o fluxo, a distribuição do montante mundial foi além da divisão entre que é "real" e o que alimenta a roda gigante capitalista.

Em linhas gerais, o que se vê de forma mais comum são as ilhas de areia em que o dinheiro se ancora, divididas em reservas do Governo, notas e moedas bancárias e ações das maiores empresas do mundo. Para mostrar como a economia passa longe de ser uma ciência exata, imagine que só nesse cálculo temos valor de mercado, dinheiro em espécie e uma mistura dos dois. Ficou confuso? Para tentar clarear as coisas, veja o infográfico completo de como todo o dinheiro do mundo é distribuído:

Boa parte do que é apresentado nesse estudo revela como a tecnologia diversificou as possibilidades de o dinheiro existir em múltiplos canais. Novamente longe de uma estimativa fixa números apontam que menos de 10% do dinheiro mundial exista na forma tradicional - aquele que se põe na carteira. Os dados divergem especialistas, em um agitado fogo cruzado de fatos.

Em uma reportagem divulgada pela New Yorker em 2016, recortes da sociedade norte americana demonstram como o bom e velho dinheiro ainda sobrevive em meio à era dos pixels que compram coisas. Com o título Why digital money hasn't killled cash (ou por que o dinheiro digital não matou a moeda, em português), o texto conta como a tendência que mais flerta com a extinção dos vinténs, acaba, ironicamente, promovendo maior acúmulo de papel-moeda.

A reserva de capital físico na terra do Tio Sam triplicou nos últimos anos, atingindo sonoros U$ 1.4 trilhão da moeda em uma espécie de paradoxo: a tentativa forçada de se livrar do negócio mantém sua existência, já que, no geral, "somos adeptos ao uso dos dados, mas sempre com trocados na carteira". O temor pelo sumiço do dinheiro vivo gera o acúmulo, que gera o estoque e assim por diante. Nativos dos dados, sim! Mas sem uma previsão para que a última moeda vire relíquia e vá a leilão por uma fortuna. 

Descriptografa-me ou devoro-te

Enquanto a pequena região africana da Somalilândia - território declarado independente da Somália - caminha para a extinção do dinheiro, em um presságio do que se discute, entra em cena outra protagonista - e sensação - do momento, que faz pairar no ar a dúvida de onde é o que o dinheiro vai parar. A Bitcoin, ou criptomoeda, pode responder. Totalmente digital, o novo sucesso do mercado financeiro une o auge do avanço tecnológico às possibilidades de um rumo econômico autêntico, autônomo e ainda misterioso.

Criada em 2009 por Satoshi Nakamoto, que até o momento permanece anônimo, a moeda não tem ligação com um Banco Central fiscalizador e, por isso, corre "livremente" dentro das próprias regras do jogo, definidas por quem a produz e negocia no pregão matemático da web.

Como não está sujeita a políticas econômicas tradicionais, como regularizações, contenções fiscais e emissões que busquem um equilíbrio de mercado, o que credibiliza essa revolução monetária é sua forma de captação, feita por usuários "mineradores" que competem entre si pela resolução dos códigos a fim de gerar remessas da cédula computadorizada. 

Com um aumento no número de participantes, a lei de oferta e demanda elevou os preços unitários, fazendo uma simples unidade valer mais de 4 mil dólares. O que parecia surgir por geração espontânea, hoje já tem um mercado consolidado.

Com a complexidade desse mercado, novos sistemas e computadores brigam cabeça a cabeça pela retenção de conhecimento – a grande chave do negócio - e pela produção de novas moedas dentro do sistema de mineração e programação.

Atualmente, além de se estabelecer como um mercado fortalecido e com um câmbio próprio, as criptomoedas já são aceitas oficialmente como pagamento em países como Estados Unidos, Rússia e Japão. Sim: você já pode visitar uma loja. Para comprar - sem contar o preço alto - não é difícil. Basta abrir uma carteira, também digital, que dará as opções de moedas e as possibilidades de transação.

O professor classifica como “tendência e realidade” a nova queridinha da economia. No entanto, comenta que a falta de um órgão regulador ainda coloca a Bitcoin à margem de um sistema econômico completo, principalmente em negociações internacionais.

“Há um abismo entre o que chamamos de veículo de troca e fluxo de comércio. Quando o Euro virou de fato a moeda da Europa, passou de sua forma virtual – usada pelo Mercado Comum Europeu – para uma moeda de fato, a partir de um Banco Central”, explica.

A grande volatilidade da “geração bit” é outro ponto. Andrade sinaliza que moedas são criadas como a intenção de poder ter certas previsões de mercado. “Como uma empresa toma recursos sem saber como ou quando ele deve voltar? “, pergunta. De fato, a resposta vai além dos bytes.

No bom português, o sistema criado dá um novo braço a economia, lubrificando a velha engrenagem com uma forma autônoma, legal e intangível de se adquirir bens e serviços. Na casa do quinto bilhão de dólar, o dinheiro da modernidade já é fato consumado, mas é um jovem ousado em meio a pilares bem deifinidos pela história. Voltando às primeiras aulas de economia, com seus cálculos simples de produto, difícil não esbarrar na crença de que a humanidade caminha para o total desapego físico do dinheiro. Mesmo assim, “acabar” é um termo forte demais.

Longe de qualquer previsão, já que tudo muda o tempo todo quando o assunto envolve valores, resta entender não o que acontece com a extinção do cash, mas assumir que a ideia de ver os bolsos literalmente vazios é uma soma de premonição e incerteza. Em resumo, o mercado não tem problema com papel, bronze, níquel ou códigos indecifráveis. Só quer criar valores e casas decimais acima de qualquer cifra, lei, ou limitação técnica do home. Profecias vão e vem. A lógica do capital vai sempre existir.