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Por que 2017 marcou o rebuliço político na América Latina

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Por que 2017 marcou o rebuliço político na América Latina

Diante de crises humanitárias e escândalos, latinos deram as caras diante de uma série de impasses políticos (Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

Incertezas no âmbito político não são novidades. Com toda a cor e tempero de sua tortuosa e incomum história social, a América Latina parece não se limitar a poucas doses de tensões, escândalos e inquietação popular; em 2017, tudo isso aconteceu, mais uma vez, em uma grande ciranda de episódios.

Para entender como se encerra o panorama anual do continente, é preciso tomar fôlego e entrar no ritmo eufórico do pulso latino. Primeiro, desvenda-se a dança das cadeiras presidenciais. Esse ano, quase todos os países estão entre a chegada de um novo Governo ou às vésperas de novas eleições. Com forte acirramento entre governos e partidos de oposição, lideranças amargaram o gosto da perda de mandatos longos e viram a escotilha do poder de suas nações, antes à esquerda, mudar de lado, com o fortalecimento da centro-direita.

Em meio à falta de consenso entre chefes de Estado e cúpulas parlamentares, que afetou a credibilidade dos governos, a aparição de escândalos eleitorais mergulhou votações em uma onda de apurações confusas e extensas. Por fim, o desenrolar às escuras de medidas impopulares gerou revoltas. Honrando o estereótipo de povo insatisfeito, a população de vários países se chocou com forças de segurança em uma série de tentativas de dar cabo as articulações de governo. Para atar o nó do clichê, a resposta aos conflitos foi dura. O saldo de mortos, feridos e presos políticos comprova o caso.

Para além da diplomacia (conciliadora) que tenta lançar os países do Mercosul em uma nova aliança com o mercado europeu, a economia foi carta marcada no que disseram os Governos ser o grande motivo para tantas mudanças. A fuga da crise, com tentativas de desviar da inflação, desemprego e da queda do câmbio, foram apontadas como pretextos para o desgaste que assolou o lado sul da América, das cordilheiras ao cerrado.

A análise conjunta, ainda que parecida, também enfrentou diversos níveis de gravidade, já que cada país enfrenta cenários políticos específicos. Da falência do Estado em Caracas, em crise humanitária e sem prestígio na ONU, ao burburinho do Indulto de Fujimori no Peru, vale entender o que foi o ano de 2017 do lado de baixo do Equador. Não se perca: Veja como o resumo país a país leva à ideia de um mesmo grande país-continente.

Argentina

Por que 2017 marcou o rebuliço político na América Latina

Campo de batalha diário em Buenos Aires (Foto: Martin Acosta/Reuters)

Com o discurso de catador de cacos, Mauricio Macri era a cara da nova política em Buenos Aires. Chegou à Casa Rosada em 2016 com a cara de um liberalismo ponderado, longe do radicalismo, e que poria fim aos últimos resquícios do conturbado Governo de Cristina Kirchner, que desvalorizou o câmbio argentino e gerou queda significativa na economia.

Com começo aclamado e promessas ousadas de retomar a atividade agrária e gerar novos empregos, Macri viu sua popularidade despencar até o limite. Nos instantes finais de 2017, aprovou, em plena madrugada, a controversa Reforma da Previdência. Além de gerar uma batalha campal na Plaza de Mayo e paralisar o transporte, o Presidente ouviu os gritos de pedido de impeachment que jogaram a Argentina na maior crise política desde o escândalo do Corralito, em 2001, que terminou com a renúncia do então mandatário Fernando de La Rúa. Após aprovação do Orçamento para 2018 na noite do dia 27, que prevê um crescimento da atividade, a política, no entanto, segue uma grande incógnita para o próximo ano.

Peru

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Ruas tomadas em Lima (Foto: portaldeizquierda)

Os minutos finais em Lima foram agitados. Na semana entre as datas comemorativas do Natal e do Ano Novo, que termina na última sexta-feira do ano (29), o país encarou momentos de revolta popular quando o presidente Pedro Pablo Kuczynski (PPK), concedeu um indulto humanitário ao ex-presidente Alberto Fujimori, do partido Força Nacional, preso nos últimos 12 anos.

O caso é cinematográfico. Para começar, Fujimori e PPK são opostos na política peruana. Fujimori comandou o país de 1990 a 2000, quando terminou exilado no Japão por conta de uma série de escândalos relacionados a seu governo. Em 2009, foi condenado a 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade durante sua controversa e polêmica gestão esquerdista, que contou com a golpes internos no Senado, fechamento do Congresso e censura a veículos de imprensa.

O “Fujimorismo”, por essas razões, era inimigo do partido de Pedro Pablo. Para confirmar a rixa, na eleição do político em julho de 2016, a candidata derrotada foi Keiko Fujimori, filha de Alberto. Ainda que com a saúde debilitada e internado após a luta contra um câncer, o perdão público a Fujimori (pai) desencadeou uma onda de protestos no Natal. No último dia 21, PPK escapou de uma votação de Impeachment – por conta de suposto envolvimento com o escândalo da Odebrecht - com a ajuda de opositores fieis ao Fujimorismo, incluindo Kenji Fujimori, filho do presidente preso e irmão de Keiko. Chamado de “traidor” pela opinião pública, Kuczynski enfrenta o momento mais delicado de sua governança de Centro-direita. Com a anistia dada, a Reuters divulgou na quinta-feira (28) que o presidente já analisa promover mudanças no Ministério, uma vez que a medida polêmica tomou ares de “reconciliação”, nas palavras de Alberto Fujimori. Faltam poucos dias para o começo de 2018, mas não há como duvidar de nada quando o assunto é o cenário político do Peru.

Brasil

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O áudio do ano (Foto: Agência O Globo)

Talvez nenhum outro país renda tantos arrepios, até por ser nossa terra. Mas, ainda que sejamos suspeitos para contar o que aconteceu na incomparável política brasileira, é fato que as editorias da área tiveram trabalho. Às vésperas do Carnaval, a Polícia Militar do Espírito Santo entrou em greve pelas baixas condições de trabalho. Pedindo sérios reajustes salariais, representantes da segurança pública do Estado deixaram as ruas em um cenário sem lei; 200 pessoas morreram, na calamidade da história do ES.

Outra polícia, desta vez a Federal, entrou em cena. Em uma das primeiras operações deflagradas no ano, a PF investigou 40 empresas do setor de alimentação acusadas de comercializar produtos fora das condições sanitárias. A ação teve a parceria do Ministério Público e colocou empresas como a JBS e BRF sob a mira das investigações.

A mesma JBS teria novo papel no drama que viveria o Governo Temer. O Presidente peemedebista foi gravado por Joesley Batista, um dos acionistas da empresa, mandando o empresário comprar o silêncio do então Deputado Eduardo Cunha, hoje preso. Com a divulgação do suposto áudio fornecido por Joesley, Temer integrou a lista de políticos investigados pela Operação Lava Jato, a pedido da Procuradoria Geral da República. “Não renunciarei”, foi um dos icônicos manifestos de Temer. Com a crise em Brasília, muitos ministros deixaram ou ameaçaram deixar o cargo. Era o início da queda de credibilidade do já contestado mandato do ex-vice de Dilma Rousseff que, em 20187, tornou-se o primeiro presidente em exercício a receber uma denúncia criminal. Um caos sem amadorismo.

Entram as Reformas, que até os momentos finais do ano seguem como pivô de grandes discussões. O surgimento das versões trabalhista e previdenciária das mudanças gerou, mais uma vez, represália por parte dos cidadãos. Em decreto do Governo, o Exército passou a ter as funções de política, podendo autuar e prender durante as greves. Houve paralisação em atividades do setor público e protestos Brasil afora. A Reforma da Previdência, já aprovada por uma comissão na Câmara, deverá ser votada em fevereiro do próximo ano – mas tudo (sempre) pode mudar.

Em sequência, a já desgastada Chapa Dilma-Temer, acusada de abuso de poder econômico em 2014, foi absolvida no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por 4 votos a 3. O Ministro Gilmar Mendes, também marcante no certame do ano, teve participação decisivo na votação que livrou a Chapa.

Mais um ex-presidente petista vem à tona. Em uma espécie de conflito pessoal, Lula e o Juiz Sérgio Moro protagonizaram horas de interrogatório, o que resultou na condenação de nove anos e seis por lavagem de dinheiro e corrupção no caso conhecido como o Tríplex do Guarujá. Em paralelo, Temer sanciona a reforma trabalhista e tem sua denúncia (por corrupção passiva) barrada na Câmara.

O lado pitoresco ganha holofote. O também já detido ex-ministro Geddel Vieira Lima ganhou destaque nas capas de jornais em setembro após a Polícia encontrar R$ 51 milhões que seriam de sua posse. As incontáveis notas, que precisaram de 14 horas e muita mão de obra na contagem, ostentam o status de maior apreensão em espécie já feita pela PF.

Enquanto o Ministério Público Federal enfrentava mudanças com a chegada da procuradora-geral Raquel Dodge, indicada por Temer, a popularidade do Presidente despencava: segundo pesquisas, até o momento, quase 80% da população avaliava a gestão como ruim ou péssima. A imprensa foi grande responsável por acompanhar a rotina melindrosa da política. O que se viu foram um minuto a minuto dos desdobramentos de ações da PF, novas denúncias contra magistrados, prisões, escândalos, desvios e o desequilíbrio ao redor do Planalto. Em mais um novo arquivamento de denúncia contra Temer, desgastando ainda mais a cúpula e deixando um aspecto repetitivo nos noticiários, começavam os desdobramentos para as Eleições de 2018.

Lula, caso não se torne inelegível diante das condenações, tenta voltar ao cargo pelo Partido dos Trabalhadores e já é o mais forte na disputa junto com Jair Bolsonaro (PSC-RJ), representante da extrema-direita. Ainda que sejam os melhores no ranking, também são os mais rechaçados nas pesquisas de desaprovação; Lula é associado aos escândalos dos 4 mandatos petistas, enquanto Bolsonaro é alvo de críticas pelo pensamento ultraconservador e por uma série de declarações agressivas e polêmicas. No geral, 2017 foi marcado pela falta de diálogo, o que esquentou ainda mais os bastidores.

Além das vias opostas, o apresentador Luciano Huck entrou no jogo. Primeiro, pelo DEM e depois pelo PSB, o global se declarou um rosto da “nova política”, usando, a seu favor, a repercussão que os anos de auditório lhe deram. Bem cotado, Huck desistiu da escalada ao Planalto após receber um ultimato da Globo. A emissora não o manteria no cargo caso a carreira política fosse adiante.

O Ministro Gilmar Mendes também fez questão de dar ingredientes à roda política que não parou. O jurista, que ficou marcado pela frase “Gilmar manda soltar”, concedeu Habeas Corpus a Anthony Garotinho, Antônio Carlos Rodrigues (presidente do PR) e Adriana Ancelmo. As solturas foram muito criticadas.

Para coroar a prorrogação emocionante, um fato nada ficou fresco: Paulo Maluf, ex-prefeito de São Paulo, foi preso em regime fechado, a mando do Ministro Edson Fachin. Talvez tomado pelo sentimento do que foi o ano e já com o peso dos 86 anos, o alegórico político se entregou sem muitas ressalvas. Haja ano para tanto causo.

Chile

Por que 2017 marcou o rebuliço político na América Latina

Piñera, à direita como seu governo (Foto: Ivan Alvarado/Reuters)

Para não perder o costume, Santiago é mais um país que tem em vista uma administração de centro-direita. No estreito país andino nada foi tão conturbado, mas, também na mesma linha dos vizinhos, novas eleições marcaram o ano com mudanças. Veja o que mudou.

Uma cara antiga volta ao governo. O conservador Sebastián Piñera, da coalizão “Vamos Chile”, venceu com quase 55% dos votos, derrotando o rival Alejandro Guillier. Aos 67 e bilionário, Piñera é a cara do empresariado chileno, que viu vantagem em suas propostas econômicas. O novo presidente inicia sua nova trajetória em março de 2018, substituindo a socialista Michelle Bachelet. Os dois presidentes se revezam no comando de La Moneda (sede da presidência), desde 2006.

Ainda que a passagem entre governos tenha sido tranquila, com conversas pessoais por telefone entre vencedores e vencidos, o que fica no ar é a perspectiva incerta de como o país enfrentará os próximos 365 dias com um comando de estrutura tão diferente ideologicamente.

Venezuela

Por que 2017 marcou o rebuliço político na América Latina

Ditadura ou Democracia? (Foto: Federico Aparra/AFP)

Entre todas as nações que fazem parte do alvoroço político ocorrido em 2017, Caracas tem, sem dúvidas, a situação mais crítica. À medida que a vizinhança enfrenta tensões internas e percalços econômicos complicados, mas não atípicos, o Governo de Nicolas Maduro sofre duras sanções não só do Mercosul, como de países de todo o mundo e da ONU. Chega a ser difícil elencar os problemas.

Segundo o FMI, a inflação venezuelana chegará a 2300% em 2018. Com a desvalorização da moeda, a situação de colapso econômico levou a população a saquear supermercados, já abastecidos com o mínimo de mantimentos. Além da fome, falta de cuidados de saúde e da violência que tomou as ruas do país, levando a mais de 15 mil assassinatos no ano, a política de Maduro não parece ter grandes modificações no horizonte.

Com a criação da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), que tem permissão de nomear e expulsar qualquer autoridade no governo, pouco se pode fazer diante das decisões do chavismo. Além de limitar a oposição e de ser acusado de enfraquecer a força partidária dos partidos – a ponto de gerar o temor pelo unipartidarismo – o comando pela mão de ferro de Maduro já sofre isolamento diplomático. Chamado de ditatorial, o presidente segue articulando para fortalecer a cada vez mais inabalável posição chavista.

Segundo relatório do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa, divulgado no dia 28, só em 2017 cerca de 70 veículos de comunicação foram fechados. O reflexo da crise, que desestabilizou o mercado e barrou insumos para a imprensa, entretanto, não foi o maior motivador do fim de redações por toda Venezuela. A censura a veículos que criticam o governo fomenta o espírito antidemocrático do país, seja por meio do monopólio de papel exportado ou pelo fechamento de espaços de rádio difusão. Além de brecar o acesso à informação, muitos jornalistas seguem como presos políticos, sem contar os que sofreram agressões ou perderam a vida.

Em um dos últimos episódios polêmicos do ano, autoridades venezuelanas expulsaram dois embaixadores do país, incluindo o brasileiro Ruy Pereira. O diplomata foi considerado persona non grata pela cúpula de Maduro, que apontou o impeachment de Dilma, em 2016, como um dos grandes motivos para esse “fechar de portas” ao Brasil. Em resposta, o Itamaraty e o Governo do Canadá (outro país que teve seu representante expulso), desaprovaram publicamente a decisão de Caracas, que recebeu novas críticas do resto do mundo.

Fome, insegurança, presos mortos por inanição, saques a animais de zoológico e um cenário de catástrofe. Não há mais onde se cavar na Venezuela, a não ser em direção a uma reconstrução nacional. Por enquanto, seguem à deriva - e buscando qualquer estilhaço que os não deixe afundar mais ainda em 2018.

Honduras

Por que 2017 marcou o rebuliço político na América Latina

Capitais foram sinônimo de protestos violentos no ano (Foto: Edgardo Garrido/Reuters)

Os hondurenhos também sofreram com a falta de transparência durante as eleições presidenciais em 2017. O atual presidente e reeleito no último dia 17, Juan Orlando Hernández (JOH), viu sua vitória por mais quatro anos de mandato aparecer juntamente a uma grave acusação de fraude eleitoral.

No dia 26 de novembro, enquanto se fazia a contagem dos votos, o candidato de oposição Salvador Nasralla ganhava força. Até boa parte da apuração, o apresentador de TV e ferrenho opositor de Hernández mostrava vantagem. Em um ato ainda sem explicação, houve uma imensa paralisação de 36h. Na volta dos cálculos, o atual presidente reeleito ultrapassou seu concorrente. Além de causar estranheza, a população se revoltou e entrou em confronto com forças policiais. Mais de vinte pessoas morreram durante o episódio, que arremessou a capital Tegucigalpa em uma crise sem precedentes. Para 2018, segue o mantra de que não há o que prever sobre o imprevisível.