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Sangue entrelinhas: 65 jornalistas mortos em 2017

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Sangue entrelinhas: 65 jornalistas mortos em 2017

Lentes voltadas à profissão: muitos pedem mais segurança (Foto: Jornal GGN)

Gumaro Pérez Aguilando, jornalista, destrinchou estatísticas por 34 anos até virar uma. O Mexicano, que há menos de dois anos já fazia parte do número dramático de profissionais de imprensa escoltados pela polícia, passa longe de ser um caso à parte em seu país e em sua profissão.

Só em 2017, 12 jornalistas foram mortos no país governado por Enrique Peña Nieto em casos envolvendo dívidas políticas, afrontas a cartéis de droga e inimizades com a soberania regional. No caso de Pérez, morto na última terça-feira (19), a barbárie foi maior: foi baleado durante a comemoração de final de ano na escola do filho, em Acayucán, no perigoso Estado de Veracruz.

Responsável pelo balanço anual desses casos, a organização Repórteres Sem Fronteira, criada em 1985, divulgou no início da semana os números atualizados da violência contra a imprensa em 2017. O relatório mostrou diminuição, mas sem grande otimismo. São 65 mortos, 326 presos e 54 mantidos como reféns pelo mundo só esse ano. Ainda que os dados reflitam o menor índice em 14 anos, não há muito o que comemorar.

O México, por exemplo, já figura ao lado da Síria no número de fatalidades. Vale lembrar que o país de maioria árabe vive exposto a uma crise territorial e política há mais de meia década, fatos que levaram à morte de mais de 100 mil civis no país e em seus arredores. Com diversos casos de mortes, torturas e desaparecimentos para profissionais da classe desde o estopim da guerra em 2011, o medo tem repelido coberturas na região - já que as chances de problema só aumentam.

Seja pelo confronto com radicais religiosos, como em atentados no Oriente Médio, ou desfazendo os laços corporativistas regados pelo narcotráfico, o jornalista é vítima de uma rotina insalubre e incerta. Como uma espécie de chamariz do terror, a visibilidade vinda da morte de um profissional da informação aparece como uma moeda de troca. Corre o mundo não só rapidamente, como também derrama uma sensação de impunidade em meio à inquietação da opinião pública.

A indigesta e quase metalinguística forma de usar o jornalismo para falar de sua própria vulnerabilidade assusta qualquer um que trabalhe pela utilidade da informação. Todo e qualquer profissional em seu compromisso com o interesse público teme, um dia, entrar para a assustadora apuração feita anualmente. Ainda mais fazendo o que ama.

O balanço

Como o relatório divulgado em dezembro revela uma lenta diminuição nos números, o RSF foi a fundo a fim de evitar qualquer relaxo por parte das medidas de proteção. Segundo a entidade, a evasão de profissionais de países como Síria, Iêmen e Líbia ajudou na diminuição de mortos em conflitos, atingidos por tiros, bombas ou outros. Ou seja, não representa de fato um aumento de segurança.

Sangue entrelinhas: 65 jornalistas mortos em 2017

Documento com detalhes está disponível no link da matéria (Foto: RSF.org)

No entanto, sobe para 46% o número de repórteres mortos em países considerados em situação de paz, o que mostra um quadro generalizado de perigo, independente de um cenário de calamidade. Quando o assunto é gênero, também há distinção na análise. Enquanto 2016 contou com cinco mortes de mulheres, no ano seguinte o número dobrou. Considerada uma das categorias do balanço, a violência "durante o exercício da função" foi responsável por mortes femininas já precedidas por ameaças - o que costuma ser um alerta às autoridades e à ONU.

Para além do que apontam as organizações, que talvez tenham inserido o último nome na lista de mortos no ano com o assassinato em Veracruz, a reflexão parece não diferenciar regiões, editorias ou se a reportagem é feita ou não sob escombros e tiroteios. Ser jornalista, em sua maioria, é abraçar o acaso. Aos amantes da profissão, fica a esperança de que o sangue do ofício corra pelas veias e sobre a pauta, não mais pelo chão.