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Cruyff, Jordan e as mudanças imortalizadas

Luis Felipe dos Santos
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Luis Felipe dos Santos
Cruyff, Jordan e as mudanças imortalizadas

Michael Jordan já dispensava apresentações em 1988, quando o Chicago Bulls enfrentou o Detroit Pistons na semifinal da Conferência Leste da NBA. Naquela temporada, Jordan fez 35 pontos por jogo e liderou o campeonato pela segunda vez nesse índice – uma média impressionante para um atleta de 25 anos. Os “bad boys” do Detroit Pistons precisavam parar ele. O técnico Chuck Daly e Isiah Thomas, líder da equipe, formaram uma estratégia chamada de “regra Jordan”.

A “regra Jordan” consistia em dobrar a marcação sobre o craque do Bulls, forçando ele a desacelerar, de preferência usando o contato físico. “Contato físico” é um eufemismo: os jogadores do Pistons agarravam, puxavam, socavam e até chutavam Michael Jordan para evitar que ele pontuasse. Os Pistons venceram aquela semifinal de conferência por 4 jogos a um. No ano seguinte, seriam campeões da NBA.

Em 1990 a NBA mudou as regras, instituindo o conceito de “falta flagrante” para infrações “desleais” ou “desnecessárias”. Essas faltas passaram a ser punidas com dois lances livres em qualquer hipótese, mesmo com um número baixo de infrações por time ou por jogador. Em 1994 segurar um adversário foi oficialmente proibido.

O livro de regras da NBA tem 66 páginas; o da FIBA, 86. No futebol, as “leis do jogo” da Fifa têm 137 páginas, ainda que habitualmente se fale em “17 regras”. Uma das regras é a do impedimento, que foi radicalmente alterada por iniciativas como a de Johan Cruyff, falecido hoje.

Johan Cruyff dentro de campo, Rinus Michels fora dele. A Holanda tinha dois técnicos, mas poderiam dizer que tinha 20; do goleiro Jongbloed até o ponta Resenbrink, a fidelidade aos princípios da Laranja Mecânica era canina. A equipe holandesa revolucionou o futebol ao aplicar de forma extrema uma das regras do jogo: o impedimento.

A linha de impedimento foi usada antes pelo Notts County e já era regra no Estudiantes de Osvaldo Zubeldía, mas Rinus Michels levou ela a outro patamar. Graças a ela, a Holanda atacava sem a bola, com uma blitz de jogadores por todos os lados, aniquilando todos os espaços possíveis para o defensor passar a bola. Fatalmente ele optava pelo chutão, e sempre encontrava um, dois ou até seis jogadores impedidos. A regra, na época, dizia que qualquer jogador que estivesse posicionado à frente do último adversário no momento do passe estava impedido, sendo ele jogador ativo ou não.

Cruyff, como técnico, levou o princípio do ataque sem a bola e da pressão na saída do meio campo como uma lei, e a aplicou no Barcelona. Como jogador e como técnico, ajudou a transformar o futebol. Não foi o pioneiro em nenhuma das suas aplicações, mas foi quem as levou à perfeição.

Não são todos os jogadores que podem ser ditos como “arquitetos do jogo”, como descreveu David Butter – aliás, são muito poucos. As regras do futebol nem sempre mudaram por times incríveis – o “boring Arsenal” de George Graham, por exemplo, trocava passes laterais na defesa e atrasava para o goleiro Seaman agarrar com as mãos várias vezes por jogo, ao limite do insuportável, e assim foi campeão inglês. Quando a Fifa resolveu aumentar a atratividade do jogo, antes da Copa dos EUA, aproveitou para eliminar a possibilidade do goleiro pegar a bola atrasada com as mãos e estabelecer os seis segundos como limite. A “arquitetura” do jogo usada para fins nada artísticos.

Cruyff se despediu do mundo vitimado por um câncer nesta quinta-feira. São muitos os jogadores que podem ser considerados imortais, aos olhos das suas torcidas, dos jornalistas, dos seus companheiros de time. São poucos os que são imortais por terem transformado o jogo para sempre.