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Foi bonita a festa, mas e depois?

Luis Felipe dos Santos
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Luis Felipe dos Santos
Foi bonita a festa, mas e depois?

O inédito ouro olímpico veio, pelas mãos de Weverton e nos pés de Neymar, contra uma Alemanha desfalcada inclusive das suas estrelas sub-23. O torneio olímpico de futebol em si teve o seu nível fraco de sempre, abaixo de qualquer uma das grandes competições de seleções - inclusive as continentais, inclusive a surreal Copa América Centenário.

Porém, foi bem ao estilo desta Seleção: todos os melhores jogadores brasileiros sub-23 lá estavam, acrescidos de Neymar. A geração brasileira sub-23 é superior à geração que chegou ao seu auge agora, com Fernandinho, Coutinho, Oscar e outros jogadores que raramente chegam à primeira linha do futebol europeu. O desperdício da geração olímpica de 2008 não deve se repetir desta vez. Essa geração olímpica deve seguir um ciclo, com pequenos acréscimos, as mãos de Tite e um plano de jogo ofensivo, de organização e aproximação. Tudo isso deve levar a Seleção Brasileira principal a se recuperar nas Eliminatórias da Copa do Mundo e conseguir uma classificação tranquila para a Copa da Rússia em 2018 - o que é uma virtude, considerando que isso estava seriamente ameaçado.

A festa olímpica foi essencialmente carioca e Global - 44 pontos de audiência no Rio de Janeiro, 41 em São Paulo, um estádio superlotado e uma enorme festa nas ruas da Cidade Maravilhosa. Aqui em Porto Alegre, a recepção da final olímpica foi inferior a uma final de campeonato gaúcho. Mesmo com chuva e frio, nenhuma buzina, nenhum grito, nenhum foguete, bares praticamente vazios na Goethe, tradicional local de confraternização esportiva da Capital. As pessoas comemoraram em casa e nas redes sociais, que dão aquela sensação falsa de presença no lugar da festa.

Muito disso se explica pelo baixo nível do torneio, e aquela sensação de que a Seleção Brasileira masculina não fez mais que a sua obrigação, uma vez que era muito superior as outras e que Neymar, em si, está em um patamar superior a todos os outros atletas que jogaram na Olimpíada. A Seleção Feminina tinha uma jogadora acima de quase todas as demais - Marta - mas a empatia despertada pela falta de apoio dentro do seu país e pelo alto nível das demais equipes construíram uma sensação de pertencimento. O brasileiro médio se identifica com uma Seleção talentosa que raramente ganha e tem que enfrentar tudo e todos, mas não se identifica mais com uma Seleção igualmente talentosa que está cheia de louros no passado e dinheiro no bolso.

Tudo deve mudar quando a Seleção passar a enfrentar, com esses mesmos jogadores, adversários de nível igual ou superior, tanto nos jogos decisivos das Eliminatórias quanto na Copa do Mundo. Dia 6 tem Brasil x Colômbia na Arena da Amazônia, estreia de Tite, time precisando de vitória para voltar à zona de classificação - o estádio vai lotar, as pessoas vão encher as redes sociais de comentários, a Globo vai conquistar mais uma enorme audiência.

E os demais esportes? Vão voltar para a sua rotina de invisibilidade?

O que falta para a construção de uma cultura esportiva no Brasil?

Não é a demanda. Na Olimpíada, foi possível observar que, a despeito do maior sucesso dos esportes nos quais o Brasil tem longa tradição (futebol masculino, vôlei, judô, natação), existe também uma demanda de "mídia de evento" para os esportes de menor tradição (canoagem, boxe, ginástica, handebol, etc). Existem formas de manter essa demanda - nunca de forma integral, pois é impossível garantir estádios e ginásios lotados em todas as modalidades como em uma Olimpíada, mas com certeza melhor que a existente hoje.

A demanda de "mídia de evento" nunca depende de apenas um fator. Ela envolve sensação de pertencimento, divulgação extensa, prática nas escolas, construção de uma cultura no País. 

(Nesse ponto, é importante excluir o futebol: um esporte como esse levaria dois séculos para ser construído da mesma forma, pois ele uniu a transposição de uma barreira étnica e cultural construída pelos anos de escravidão com interesses de governos de construção de uma identidade nacional, e uma avassaladora lógica de mercado globalizadora. A canoagem pode ter a sua Copa de 1958 com Isaquias Queiroz, o salto com vara pode ter a sua Copa de 1958 com Thiago Braz, mas dificilmente esses mesmos esportes terão sobre si o contexto de 1958)

A cultura de evento no Brasil é mais avançada que a cultura esportiva - e o esporte nem sempre é um evento. A potencialidade de divulgação espontânea de eventos no Brasil é tão grande quanto nos Estados Unidos, em um país mais pobre e menos conectado. Finais do Masterchef, do The Voice, da canoagem olímpica, debates presidenciais, apurações eleitorais ou especiais de Natal do Roberto Carlos são eventos de potencialidade semelhante. O que os une é aparecer na TV aberta, dona de 70% da verba publicitária no Brasil. É a lógica de Guy Debord - "o que é bom aparece, o que aparece é bom".

A Seleção Brasileira de futebol masculino vai voltar a aparecer na mesma lógica de Debord, mas os outros esportes também? Potencial existe para isso.