Fumaceira
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Fumaceira
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Fumaceira
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Cruyff, Jordan e as mudanças imortalizadas

Cruyff, Jordan e as mudanças imortalizadas
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Michael Jordan já dispensava apresentações em 1988, quando o Chicago Bulls enfrentou o Detroit Pistons na semifinal da Conferência Leste da NBA. Naquela temporada, Jordan fez 35 pontos por jogo e liderou o campeonato pela segunda vez nesse índice – uma média impressionante para um atleta de 25 anos. Os “bad boys” do Detroit Pistons precisavam parar ele. O técnico Chuck Daly e Isiah Thomas, líder da equipe, formaram uma estratégia chamada de “regra Jordan”.

A “regra Jordan” consistia em dobrar a marcação sobre o craque do Bulls, forçando ele a desacelerar, de preferência usando o contato físico. “Contato físico” é um eufemismo: os jogadores do Pistons agarravam, puxavam, socavam e até chutavam Michael Jordan para evitar que ele pontuasse. Os Pistons venceram aquela semifinal de conferência por 4 jogos a um. No ano seguinte, seriam campeões da NBA.

Em 1990 a NBA mudou as regras, instituindo o conceito de “falta flagrante” para infrações “desleais” ou “desnecessárias”. Essas faltas passaram a ser punidas com dois lances livres em qualquer hipótese, mesmo com um número baixo de infrações por time ou por jogador. Em 1994 segurar um adversário foi oficialmente proibido.

O livro de regras da NBA tem 66 páginas; o da FIBA, 86. No futebol, as “leis do jogo” da Fifa têm 137 páginas, ainda que habitualmente se fale em “17 regras”. Uma das regras é a do impedimento, que foi radicalmente alterada por iniciativas como a de Johan Cruyff, falecido hoje.

Johan Cruyff dentro de campo, Rinus Michels fora dele. A Holanda tinha dois técnicos, mas poderiam dizer que tinha 20; do goleiro Jongbloed até o ponta Resenbrink, a fidelidade aos princípios da Laranja Mecânica era canina. A equipe holandesa revolucionou o futebol ao aplicar de forma extrema uma das regras do jogo: o impedimento.

A linha de impedimento foi usada antes pelo Notts County e já era regra no Estudiantes de Osvaldo Zubeldía, mas Rinus Michels levou ela a outro patamar. Graças a ela, a Holanda atacava sem a bola, com uma blitz de jogadores por todos os lados, aniquilando todos os espaços possíveis para o defensor passar a bola. Fatalmente ele optava pelo chutão, e sempre encontrava um, dois ou até seis jogadores impedidos. A regra, na época, dizia que qualquer jogador que estivesse posicionado à frente do último adversário no momento do passe estava impedido, sendo ele jogador ativo ou não.

Cruyff, como técnico, levou o princípio do ataque sem a bola e da pressão na saída do meio campo como uma lei, e a aplicou no Barcelona. Como jogador e como técnico, ajudou a transformar o futebol. Não foi o pioneiro em nenhuma das suas aplicações, mas foi quem as levou à perfeição.

Não são todos os jogadores que podem ser ditos como “arquitetos do jogo”, como descreveu David Butter – aliás, são muito poucos. As regras do futebol nem sempre mudaram por times incríveis – o “boring Arsenal” de George Graham, por exemplo, trocava passes laterais na defesa e atrasava para o goleiro Seaman agarrar com as mãos várias vezes por jogo, ao limite do insuportável, e assim foi campeão inglês. Quando a Fifa resolveu aumentar a atratividade do jogo, antes da Copa dos EUA, aproveitou para eliminar a possibilidade do goleiro pegar a bola atrasada com as mãos e estabelecer os seis segundos como limite. A “arquitetura” do jogo usada para fins nada artísticos.

Cruyff se despediu do mundo vitimado por um câncer nesta quinta-feira. São muitos os jogadores que podem ser considerados imortais, aos olhos das suas torcidas, dos jornalistas, dos seus companheiros de time. São poucos os que são imortais por terem transformado o jogo para sempre.

Para acabar com a monocultura do futebol brasileiro

Para acabar com a monocultura do futebol brasileiro
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Você pode não gostar do Esporte Interativo, do estilo de narração, da forma de abordagem nas redes sociais, mas é fato: não fosse o canal da Turner, o cenário do futebol brasileiro estava condenado ao marasmo. Desde a dissolução do Clube dos 13, em 2011, não havia uma ameaça tão concreta à hegemonia da Globo sobre os direitos de televisão – por consequência, não havia uma possibilidade tão grande de mudança real no cenário do futebol de elite do Brasil.

Segundo o repórter Marcus Alves, da ESPN (provavelmente a pessoa mais bem informada sobre o tema no Brasil: siga ele em twitter.com/alves_marcus), o Esporte Interativo propõe R$ 600 milhões, uma divisão mais justa do dinheiro (de acordo não só com audiência, mas também com mérito dentro do campo) e uma “cláusula anti-Corinthians”, que evitaria que apenas um clube fosse privilegiado pelas transmissões.

Informações de bastidores dão conta de que a proposta do Esporte Interativo tem um plus: o canal poderia ceder, através de um determinado valor, o sinal para que os próprios clubes fizessem suas transmissões. Assim como acontece com as principais ligas esportivas americanas, o assinante poderia optar entre assistir a todos os jogos do campeonato ou apenas a jogos do seu clube, por um valor menor.

Essa estratégia só poderia funcionar em um cenário como o atual, no qual a CBF está severamente enfraquecida pelas denúncias de corrupção – inclusive, o próprio Marcus Alves afirma que os clubes pretendem lançar um candidato à presidência da Confederação, e que os presidentes do Grêmio, do Atlético Mineiro e do Bahia são os nomes favoritos das entidades.

Parece claro que tudo foi longe demais para nada acontecer.

Mesmo se a Globo conseguir superar o Esporte Interativo e acertar com todos os demais clubes, isso não vai ocorrer sem uma mudança de modelo do produto hoje vendido. O campeonato brasileiro é um produto bem menos rentável do que a Globo esperava em 2012, quando todos os contratos foram fechados por valores bem superiores aos negociados com o Clube dos 13. Pesam a crise econômica, a fuga dos patrocinadores e a diminuição progressiva da audiência.

Nos últimos três anos, mesmo com o sucesso da Copa do Mundo, CBF, Globo e clubes falharam em entregar um Campeonato Brasileiro incontestável, que proporcionasse o crescimento do público interessado e a melhora do nível técnico ao mesmo tempo. Os investimentos dos clubes – às vezes irresponsáveis – foram altos na mesma proporção do investimento da Globo, e o retorno não garantiu nem estádios lotados para todos, nem os enormes lucros esperados.

Chama atenção também o quanto grandes crises econômicas contribuem para reviravoltas no cenário do futebol.

Em 1987, após o colapso do Plano Cruzado, o Clube dos 13 foi fundado e a Copa União virou o principal torneio de clubes brasileiros. Em 1991, após o Plano Collor, o Campeonato Brasileiro passou a ter mais de uma divisão fixa. Em 2002, após um duro ajuste fiscal que minou a popularidade de Fernando Henrique Cardoso, a CBF decide adotar o formato de pontos corridos. Em 2016, com a “tempestade perfeita” na economia do governo Dilma Rousseff, mais uma mudança deve acontecer.

Não é preciso ser especialista para perceber os motivos: assim como a economia brasileira, a economia do futebol também depende muito de exportação de ativos. Durante o longo período de dólar valorizado no Brasil, vender um jogador brasileiro deixou de ser vantajoso para os clubes de elite. O falecido Juvenal Juvêncio, quando perguntado por Paulo Vinícius Coelho sobre os motivos pelos quais Hernanes – então principal figura de um São Paulo campeão brasileiro – não estava na Europa, ouviu um sincero “o mercado está uma merda”. Hernanes acabou vendido por 20 milhões de euros em 2010, 65 milhões de reais em valores da época.

Com os cofres lotados pelos novos contratos da Globo, muitos clubes apostaram em “reforços de impacto”. Para mim, duas contratações simbolizam essa era: Seedorf no Botafogo e Diego Forlán no Internacional. Ambos jogadores ricos, em final de carreira, contratados no Brasil por valores um tanto acima das possibilidades dos seus clubes. Uma terceira contratação poderia ser vista como símbolo: Alexandre Pato, no Corinthians, por impressionantes 40 milhões de reais. Pato, porém, era um jogador que ainda poderia dar um retorno muito grande, pois tinha apenas 24 anos – não foi o caso, e o Corinthians pretende no mínimo rever o prejuízo, vendendo o jogador ao Chelsea por 10 milhões de libras.

Não foram muitos os anos de pujança econômica, é verdade, mas o Brasil teve tempo para se preparar da forma correta: investindo forte na base e adquirindo conhecimento. Não o fez, porque jamais houve um plano da CBF para o futebol brasileiro que não fosse fazer dos campos nacionais uma “plantation”, sugando o máximo possível dos atletas para concentrar o dinheiro na mão de poucos.

É por isso que o movimento atual de rebeldia deve ser saudado e incentivado.

Ainda que existam claras divergências entre as iniciativas (D'Alessandro, do Bom Senso F.C, rejeita a Primeira Liga; Alexandre Kalil detonou o acordo entre os clubes, a CBF e a Globo para que o torneio fosse viável; o torneio ainda assim vai sair, parecendo mais do mesmo) é importante que elas tenham um objeto de convergência: dar aos clubes e aos atletas poder sobre os seus destinos.

A iniciativa de 2011 de arruinar o Clube dos 13 foi nefasta por um motivo: os clubes negociaram desunidos e obtiveram um enorme sucesso financeiro inicial. Isso fez com que muitos dirigentes achassem que a desunião era positiva e que o torcedor queria mesmo saber se o seu time estava ganhando mais dinheiro que os outros. Essa distorção provocou o cenário atual, no qual Flamengo e Corinthians podem ganhar até 6 vezes mais que um time recém-chegado à Série A.

A iniciativa de 2016 mostra os clubes trabalhando novamente pela união dos próprios esforços. Somente uma coisa pode arruinar novamente essa iniciativa: a opinião pública. Ver torcedores brigando para saber quem tem mais dinheiro e quem tem mais audiência é exatamente o que os dirigentes que fizeram a “plantation” do futebol brasileiro precisam para enfraquecer as iniciativas de união e seguir fechando contratos sem o mínimo de transparência.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por