Fumaceira
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Fumaceira
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Luis Felipe dos Santos
luisfelipehá um ano

Fumaceira

Opiniões sobre futebol
    • Reportar esta pasta de histórias
Fumaceira
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Foi bonita a festa, mas e depois?

Foi bonita a festa, mas e depois?
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

O inédito ouro olímpico veio, pelas mãos de Weverton e nos pés de Neymar, contra uma Alemanha desfalcada inclusive das suas estrelas sub-23. O torneio olímpico de futebol em si teve o seu nível fraco de sempre, abaixo de qualquer uma das grandes competições de seleções - inclusive as continentais, inclusive a surreal Copa América Centenário.

Porém, foi bem ao estilo desta Seleção: todos os melhores jogadores brasileiros sub-23 lá estavam, acrescidos de Neymar. A geração brasileira sub-23 é superior à geração que chegou ao seu auge agora, com Fernandinho, Coutinho, Oscar e outros jogadores que raramente chegam à primeira linha do futebol europeu. O desperdício da geração olímpica de 2008 não deve se repetir desta vez. Essa geração olímpica deve seguir um ciclo, com pequenos acréscimos, as mãos de Tite e um plano de jogo ofensivo, de organização e aproximação. Tudo isso deve levar a Seleção Brasileira principal a se recuperar nas Eliminatórias da Copa do Mundo e conseguir uma classificação tranquila para a Copa da Rússia em 2018 - o que é uma virtude, considerando que isso estava seriamente ameaçado.

A festa olímpica foi essencialmente carioca e Global - 44 pontos de audiência no Rio de Janeiro, 41 em São Paulo, um estádio superlotado e uma enorme festa nas ruas da Cidade Maravilhosa. Aqui em Porto Alegre, a recepção da final olímpica foi inferior a uma final de campeonato gaúcho. Mesmo com chuva e frio, nenhuma buzina, nenhum grito, nenhum foguete, bares praticamente vazios na Goethe, tradicional local de confraternização esportiva da Capital. As pessoas comemoraram em casa e nas redes sociais, que dão aquela sensação falsa de presença no lugar da festa.

Muito disso se explica pelo baixo nível do torneio, e aquela sensação de que a Seleção Brasileira masculina não fez mais que a sua obrigação, uma vez que era muito superior as outras e que Neymar, em si, está em um patamar superior a todos os outros atletas que jogaram na Olimpíada. A Seleção Feminina tinha uma jogadora acima de quase todas as demais - Marta - mas a empatia despertada pela falta de apoio dentro do seu país e pelo alto nível das demais equipes construíram uma sensação de pertencimento. O brasileiro médio se identifica com uma Seleção talentosa que raramente ganha e tem que enfrentar tudo e todos, mas não se identifica mais com uma Seleção igualmente talentosa que está cheia de louros no passado e dinheiro no bolso.

Tudo deve mudar quando a Seleção passar a enfrentar, com esses mesmos jogadores, adversários de nível igual ou superior, tanto nos jogos decisivos das Eliminatórias quanto na Copa do Mundo. Dia 6 tem Brasil x Colômbia na Arena da Amazônia, estreia de Tite, time precisando de vitória para voltar à zona de classificação - o estádio vai lotar, as pessoas vão encher as redes sociais de comentários, a Globo vai conquistar mais uma enorme audiência.

E os demais esportes? Vão voltar para a sua rotina de invisibilidade?

O que falta para a construção de uma cultura esportiva no Brasil?

Não é a demanda. Na Olimpíada, foi possível observar que, a despeito do maior sucesso dos esportes nos quais o Brasil tem longa tradição (futebol masculino, vôlei, judô, natação), existe também uma demanda de "mídia de evento" para os esportes de menor tradição (canoagem, boxe, ginástica, handebol, etc). Existem formas de manter essa demanda - nunca de forma integral, pois é impossível garantir estádios e ginásios lotados em todas as modalidades como em uma Olimpíada, mas com certeza melhor que a existente hoje.

A demanda de "mídia de evento" nunca depende de apenas um fator. Ela envolve sensação de pertencimento, divulgação extensa, prática nas escolas, construção de uma cultura no País. 

(Nesse ponto, é importante excluir o futebol: um esporte como esse levaria dois séculos para ser construído da mesma forma, pois ele uniu a transposição de uma barreira étnica e cultural construída pelos anos de escravidão com interesses de governos de construção de uma identidade nacional, e uma avassaladora lógica de mercado globalizadora. A canoagem pode ter a sua Copa de 1958 com Isaquias Queiroz, o salto com vara pode ter a sua Copa de 1958 com Thiago Braz, mas dificilmente esses mesmos esportes terão sobre si o contexto de 1958)

A cultura de evento no Brasil é mais avançada que a cultura esportiva - e o esporte nem sempre é um evento. A potencialidade de divulgação espontânea de eventos no Brasil é tão grande quanto nos Estados Unidos, em um país mais pobre e menos conectado. Finais do Masterchef, do The Voice, da canoagem olímpica, debates presidenciais, apurações eleitorais ou especiais de Natal do Roberto Carlos são eventos de potencialidade semelhante. O que os une é aparecer na TV aberta, dona de 70% da verba publicitária no Brasil. É a lógica de Guy Debord - "o que é bom aparece, o que aparece é bom".

A Seleção Brasileira de futebol masculino vai voltar a aparecer na mesma lógica de Debord, mas os outros esportes também? Potencial existe para isso. 

 

Cruyff, Jordan e as mudanças imortalizadas

Cruyff, Jordan e as mudanças imortalizadas
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Michael Jordan já dispensava apresentações em 1988, quando o Chicago Bulls enfrentou o Detroit Pistons na semifinal da Conferência Leste da NBA. Naquela temporada, Jordan fez 35 pontos por jogo e liderou o campeonato pela segunda vez nesse índice – uma média impressionante para um atleta de 25 anos. Os “bad boys” do Detroit Pistons precisavam parar ele. O técnico Chuck Daly e Isiah Thomas, líder da equipe, formaram uma estratégia chamada de “regra Jordan”.

A “regra Jordan” consistia em dobrar a marcação sobre o craque do Bulls, forçando ele a desacelerar, de preferência usando o contato físico. “Contato físico” é um eufemismo: os jogadores do Pistons agarravam, puxavam, socavam e até chutavam Michael Jordan para evitar que ele pontuasse. Os Pistons venceram aquela semifinal de conferência por 4 jogos a um. No ano seguinte, seriam campeões da NBA.

Em 1990 a NBA mudou as regras, instituindo o conceito de “falta flagrante” para infrações “desleais” ou “desnecessárias”. Essas faltas passaram a ser punidas com dois lances livres em qualquer hipótese, mesmo com um número baixo de infrações por time ou por jogador. Em 1994 segurar um adversário foi oficialmente proibido.

O livro de regras da NBA tem 66 páginas; o da FIBA, 86. No futebol, as “leis do jogo” da Fifa têm 137 páginas, ainda que habitualmente se fale em “17 regras”. Uma das regras é a do impedimento, que foi radicalmente alterada por iniciativas como a de Johan Cruyff, falecido hoje.

Johan Cruyff dentro de campo, Rinus Michels fora dele. A Holanda tinha dois técnicos, mas poderiam dizer que tinha 20; do goleiro Jongbloed até o ponta Resenbrink, a fidelidade aos princípios da Laranja Mecânica era canina. A equipe holandesa revolucionou o futebol ao aplicar de forma extrema uma das regras do jogo: o impedimento.

A linha de impedimento foi usada antes pelo Notts County e já era regra no Estudiantes de Osvaldo Zubeldía, mas Rinus Michels levou ela a outro patamar. Graças a ela, a Holanda atacava sem a bola, com uma blitz de jogadores por todos os lados, aniquilando todos os espaços possíveis para o defensor passar a bola. Fatalmente ele optava pelo chutão, e sempre encontrava um, dois ou até seis jogadores impedidos. A regra, na época, dizia que qualquer jogador que estivesse posicionado à frente do último adversário no momento do passe estava impedido, sendo ele jogador ativo ou não.

Cruyff, como técnico, levou o princípio do ataque sem a bola e da pressão na saída do meio campo como uma lei, e a aplicou no Barcelona. Como jogador e como técnico, ajudou a transformar o futebol. Não foi o pioneiro em nenhuma das suas aplicações, mas foi quem as levou à perfeição.

Não são todos os jogadores que podem ser ditos como “arquitetos do jogo”, como descreveu David Butter – aliás, são muito poucos. As regras do futebol nem sempre mudaram por times incríveis – o “boring Arsenal” de George Graham, por exemplo, trocava passes laterais na defesa e atrasava para o goleiro Seaman agarrar com as mãos várias vezes por jogo, ao limite do insuportável, e assim foi campeão inglês. Quando a Fifa resolveu aumentar a atratividade do jogo, antes da Copa dos EUA, aproveitou para eliminar a possibilidade do goleiro pegar a bola atrasada com as mãos e estabelecer os seis segundos como limite. A “arquitetura” do jogo usada para fins nada artísticos.

Cruyff se despediu do mundo vitimado por um câncer nesta quinta-feira. São muitos os jogadores que podem ser considerados imortais, aos olhos das suas torcidas, dos jornalistas, dos seus companheiros de time. São poucos os que são imortais por terem transformado o jogo para sempre.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por