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2018: o ano em que os robôs elegerão o presidente do Brasil

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Robôs serão determinantes para o resultado, ao espalharem mentiras nas redes sociais e tornarem o debate mais irracional

2018: o ano em que os robôs elegerão o presidente do Brasil

(Exterminador do Futuro - Gênesis/ Divulgação)

A eleição de 2018 será uma verdadeira guerra, e não se trata apenas de um efeito retórico para abrir um texto. Além da radicalização de seus militantes de carne e osso, as facções ideológicas preparam um novo exército: os robôs (bots) que emporcalham as redes sociais com uma enxurrada de notícias falsas ou enviesadas. Naturalmente, disseminam opiniões favoráveis a seus candidatos e atacam brutalmente seus rivais e quem os apoiar. Uma pesquisa divulgada pela Diretoria de Análises de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP/FGV) mostra que a ameaça é real e, sobretudo, pode determinar o resultado da eleição. Se isso, de fato, ocorrer, teremos nosso primeiro presidente eleito por robôs.

O trabalho da FGV foi gigantesco: primeiro, identificou 1.925 geradores de postagens automáticas no Twitter, que distribuíram 7,8 milhões de mensagens. Desse grupo, extraiu 181 geradores que postaram 100 ou mais mensagens por dia. Desses, concentrou-se em 83 robôs que atuaram nos episódios políticos mais quentes dos últimos tempos no Brasil.

Tropas virtuais

Os números apurados preocupam: no debate do segundo turno das eleições de 2014, promovido pela Globo em 24 de outubro, nada menos que 19,4% das mensagens de apoio a Aécio Neves foram geradas por bots, ante 9,7% das de Dilma Rousseff. Quando o movimento pró-impeachment começava a embalar, a situação se inverteu. Em 13 de março de 2016, quando um ato pela saída de Dilma mobilizou milhões de pessoas, 21,4% das mensagens contrárias ao impeachment partiram de geradores automáticos, frente a 16,6% de posts favoráveis. Já nas eleições municipais paulistanas, no ano passado, as forças se equipararam: 11,5% das mensagens de apoio a Fernando Haddad eram automáticas, seguidas por 11,2% das de João Doria.

Se a geração de posts se limitasse apenas a uma versão moderna de distribuição de santinhos via correio ou e-mail, os danos seriam mínimos. Os robôs postariam, de tempos em tempos, a foto sorridente do candidato beijando criancinhas e um slogan qualquer. Iria poluir nossos murais de mensagens no Twitter, no Facebook e no Instagram, mas seria suportável. O diabo é que, com o avanço da inteligência artificial, os robôs não se limitam a isso. Sua missão mais importante é disseminar confusão, desinformação, más interpretações sobre fatos e mentiras (hoje pomposamente chamadas de fake news).

Votando com o fígado

A pesquisa mostra que as estratégias para que robôs se passem por seres humanos reais estão cada dia mais elaboradas. Com isso, está mais difícil discernir se aquela mensagem compartilhada por seu amigo real, oriunda de alguém que você não conhece, é fruto de um bot que enganou todo mundo, ou se é apenas um amigo do amigo que você não conhece.

Isso acrescenta um elemento poderoso de irracionalismo nas eleições de 2018. Já estamos cansados de saber que todos os sinais mostram que as urnas não serão uma pia de água benta que pacificará o Brasil e ungirá o eleito com as graças do povo. As urnas serão incapazes de acalmar a população, cada vez mais polarizada. Assim, os robôs servirão como nitroglicerina na fogueira em que os eleitores queimarão a razão e o bom senso antes e depois de votarem. Se você já acha insano discutir política nas redes hoje, prepare-se: será praticamente impossível manter a sanidade mental nos próximos meses. A menos que se reprima severamente o uso de bots. Mas, esqueci... estamos no Brasil...