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A democracia só não cai, porque eleições viraram uma lavanderia milionária

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De drogas a propinas, passando por doações de igrejas e tudo o mais que se imagine, milhões são democraticamente esterilizados pelas urnas

A democracia só não cai, porque eleições viraram uma lavanderia milionária

Vivemos, meus caros leitores, uma situação peculiar: num país em que a maioria dos políticos não vale nada, as eleições são cada vez mais caras. Pode-se dizer que isso ocorre justamente devido à absoluta nulidade dos candidatos, em geral aventureiros desconhecidos, sem as mínimas condições de dirigir sequer um carrinho de controle remoto no quintal de sua casa, quanto mais os rumos do país. Logo, a desimportância dos concorrentes seria diretamente proporcional à quantidade de dinheiro para elegê-los. Mas essa é apenas uma parte da resposta. A outra, que só agora, com a Lava Jato, começa a ser cavoucada é que criminosos de todos os tipos transformaram as eleições brasileiras numa milionária lavanderia de dinheiro ilícito. De drogas a propinas, passando por doações de igrejas e tudo o mais que se imagine, milhões são democraticamente esterilizados com a bênção das urnas.

A declaração mais recente vem do traficante Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, preso no presídio de segurança máxima de Mossoró (RN). Em entrevista publicada nesta sexta-feira (20) pela TV UOL, o ex-chefão do Complexo do Alemão afirma com todas as letras: não haverá legalização das drogas leves, como a maconha, porque o tráfico sustenta eleições em todo o país – de simples vereadores a senadores. Sendo exato, Marcinho VP disse que os políticos não legalizarão a maconha, porque enfraqueceriam os traficantes e, com isso, perderiam uma boa fonte de financiamento eleitoral.

Lava mais branco

Mas é possível ir além: os traficantes também precisam de oportunidades para lavar o dinheiro sujo das drogas. As eleições são uma ocasião perfeita. Estão aí as milionárias e incompreensíveis somas de dinheiro que sustentam as candidaturas, as recorrentes notas frias de empresas fantasmas para justificar gastos fictícios (onde, efetivamente, foi parar esse dinheiro?), as omissões de informações... tudo o que o TSE, a imprensa e, mais recentemente, a Lava Jato não se cansam de denunciar.

Outra evidência de parte dos doadores é movida por qualquer coisa, menos pelo desejo de fortalecer a democracia e construir um país melhor, é que é possível fazer boas campanhas, com resultados satisfatórias, por valores bem menores. O empresário Josué Gomes da Silva, filho de José Alencar, ex-vice de Lula, concorreu ao Senado por Minas Gerais em 2014. Com apenas R$ 6,2 milhões, bancados do próprio bolso e com doações de pessoas físicas, Josué ficou em segundo lugar na disputa, com 42% dos votos. A cifra foi um terço do que o vencedor, o tucano Antônio Anastasia, desembolsou.

Em entrevista recente ao Estadão, o empresário afirmou: “não dá para ter campanha para deputado federal custando R$ 20 milhões, R$ 30 milhões. Uma campanha para governo de Estado custando R$ 100 milhões, R$ 150 milhões. É um despropósito, não precisa desse tipo de gasto e tive uma experiência provando que não precisa.” Para se ter uma ideia, apenas em 2014, o custo total das campanhas eleitorais para cargos executivos e legislativos federais e estaduais foi de R$ 5 bilhões, segundo o TSE. Trata-se de um valor recorde e crescente. Em 2002, por exemplo, o valor foi de R$ 792 milhões.

Como não suspeitar que essa dinheirama tenha outros objetivos e a democracia brasileira seja apenas uma grande fachada para toda a corrupção que envenena nosso futuro? Claro que não é o caso de acabar com a democracia, como querem os intervencionistas, mas de desinfetá-la daquelas que a sequestraram para fins hediondos. É triste pensar nisso, mas, aparentemente, a democracia só não cai, porque os bandidos precisam dela.