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A Lava Jato vai acabar e você nem perceberá

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni
A Lava Jato vai acabar e você nem perceberá

A Lava Jato vai se desmanchar diante dos seus olhos e você nem verá. Literalmente. É o que os neurocientistas chamam de “cegueira para a mudança”. Durante milhões de anos de evolução, nosso cérebro foi moldado para reagir a fortes contrastes: movimento versus repouso, quente versus frio, cor berrante versus cor pastel etc. Não se trata de um capricho da natureza, mas de um modo de processarmos informações mais rapidamente, sem ficarmos malucos ou exaustos.

Malucos, porque seria monstruosamente trabalhoso assimilar e refletir conscientemente sobre cada mínima variação do ambiente – de uma ligeira mudança no vento a uma sutil alteração na cor das árvores. Exaustos, porque isso demandaria um consumo enorme de energia – e o cérebro já é o órgão que mais demanda calorias para funcionar.

Mas, sobretudo, seria uma tarefa inútil. Imagine seu pobre avô hominídeo nas savanas africanas há milhões de anos. Coloque-se em seu lugar. Em que você prestaria atenção? Naquele antílope que pasta despreocupadamente com seu filhote a centenas de metros de distância, ou naquele tigre dentes-de-sabre que, um segundo atrás, estava quieto, mas agora dispara faminto em sua direção? O que mudou na cena em um segundo? Pois é... não é preciso ser um homo sapiens para perceber o contraste no ambiente e dar no pé para não virar almoço.

O pior cego...

O problema, segundo os cientistas cognitivos, é que a cegueira para a mudança também tem seus contras. Nos torna desatentos a mudanças graduais. Se, em tempos pré-históricos isso não era importante, em tempos de Lava Jato, é fundamental.

Justamente porque não damos bola para pequenas mudanças, elas estão ocorrendo sob nossos olhos neste instante e corremos o risco de percebê-las apenas quando for tarde demais. Quando seu volume acumulado for tamanho, que acarretará uma alteração gritante no ambiente – quase como um tigre dentes-de-sabre disparando em nossa direção. E nos perguntaremos: como não vimos antes?

Olhe de novo

Não vimos, porque não quisemos, ou julgamos que não era importante. Mas vamos aos fatos: a Lava Jato está virando fumaça e você aí na praça, dando milho aos pombos. Eis o que já aconteceu:

- nesta quinta, a equipe de delegados federais que atuava exclusivamente na Lava Jato em Curitiba foi encerrada. As investigações passarão para a Delegacia de Combate à Corrupção e Desvio de Verbas Públicas (Decor). Traduzindo: o maior escândalo de corrupção da história disputará recursos e a atenção com pequenos achaques de vereadores de Onde-Fica-Isso?

- A futura procuradora-geral da República, Raquel Dodge, já indicou que reduzirá o número de procuradores dedicados à operação. Esqueça todo o malabarismo verbal: na prática, ela considera que tem muita gente investigando os poderosos da vez e, pior, passando dos limites...

- A absolvição de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, pela segunda instância deu a brecha que todo advogado de investigado pela Lava Jato queria. O argumento: delação não é prova. Ficará difícil, agora, condenar alguém, mesmo que o cúmplice jure que ele é culpado. Infelizmente, como diz Rodrigo Janot, não se conhecem corruptos que deem nota fiscal.

- Marco Aurélio Mello aliviou a barra de Aécio Neves e o Senado o absolveu. Com isso, um tucano gravado pedindo milhões de reais a um confesso corruptor sairá voando livremente.

- A pretexto de conter gastos diante da crise fiscal, Michel Temer vem asfixiando o orçamento da Polícia Federal. Pretende matar a Lava Jato por inanição.

- Mas o pior de tudo: as ruas se calaram. A esquerda nunca morreu de amores pela Lava Jato, pois acredita que ela não passa de uma perseguição injusta contra os petistas e seu líder-mor: Lula. Logo, não mexerão um dedo para defendê-la. A direita acredita que a Lava Jato já cumpriu seu papel: baniu os “petralhas” do poder. Por conveniência ou mera cumplicidade, não protesta contra o desmonte da operação, agora que ela atinge o seu time.

Um dos célebres conselhos de Maquiavel ao príncipe é fazer o mal de uma vez, e o bem, aos poucos. Os cientistas cognitivos diriam o contrário: promova o mal bem devagar, para que ninguém o perceba, e faça o bem de uma vez, para gerar contraste. Está aí o silêncio das ruas, diante da evaporação da Lava Jato, que não devemos deixar de notar.