ECONOMIA

A maldição da geração X na política: ideologia, ainda queremos uma pra viver

Márcio Juliboni
Autor
Márcio Juliboni

Fomos criados para ver o mundo de modo binário, mas ele se tornou muito mais complexo do que gostaríamos

A maldição da geração X na política: ideologia, ainda queremos uma pra viver

Com que roupa, eu vou ao comício que você me convidou?

 (Imagem: Reprodução/YouTube)

Ao afirmar publicamente, nesta segunda-feira (27), que não concorrerá à Presidência em 2018, Luciano Huck lembrou que falta atuação política à sua geração, a despeito de trabalhar e inovar “com vigor em muitas frentes”, como o mundo dos negócios, dos esportes, das artes e do pensamento. “Mas pela política, ela tem feito pouco.” Huck nasceu em 3 de setembro de 1971 e recém-completou 46 anos. É, portanto, um típico representante da geração X, à qual também pertenço. E, como ele, também me pergunto por onde andam os quarentões. Muitos de meus amigos eram engajados politicamente na juventude, inclusive se filiando a partidos. Agora, há um incômodo silêncio, quebrado apenas pelos estéreis debates de Facebook. Há algum tempo, penso que Cazuza expressou, melhor do que ninguém, a maldição da geração X na política: ideologia, queremos uma pra viver.

É verdade que o cantor não pertence, a rigor, à geração X. Nascido em 1958 e morto aos 32 anos, Cazuza foi muito mais influenciado pela contracultura dos anos 60 e pelo desbunde dos anos 70, do que pelas angústias de quem, naquela época, ainda andava de fraldas ou nem sequer nascera. Mas, como dizem, gênios são capazes de se antecipar ao tempo, e não há dúvidas de que Cazuza foi um deles. Por isso, soube como poucos captar as angústias de uma geração, a minha, que anda desnorteada desde o fim dos anos 80 e começo dos anos 90.

Zeros e uns

Certa vez, em mais uma dessas intermináveis (e improdutivas) discussões de Facebook, disse a um amigo (era-o na época, pelo menos) que somos uma geração em estado de choque. Nossa maldição foi sermos criados ainda dentro da lógica binária da Guerra Fria, já que nossos pais, com mais ou menos consciência, e toda a intelligentsia de nossa adolescência e início da juventude (dos professores do colegial e da faculdade, aos artistas, filósofos etc.) se forjaram naquela sociedade de extremos. Fomos educados, em maior ou menor grau, a separar tudo em dois lados: esquerda e direita; comunismo e capitalismo; trotskismo e stalinismo; burguesia e proletariado; ditadura e democracia; censura e liberdade de expressão; EUA e URSS; mocinhos e bandidos; Bem e Mal...

Mas, bem na saída de nossa adolescência para a idade adulta, caiu um Muro de Berlim sobre nossas cabeças. Em muitos aspectos, ainda estamos atordoados pelos pedaços de concreto que nos atingiram naquele distante 1989. Também naquele ano, assistimos, perplexos, a estudantes protestarem contra o governo chinês, pedindo democracia e sendo massacrados na Praça da Paz Celestial. Dois anos depois, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas chegava ao fim e encerrava, oficialmente, a Guerra Fria e os últimos resquícios de esperança de uma esquerda revolucionária, que permaneceu apenas de modo caricato em Cuba.

Dispersão geral

Como um dos diretores do grêmio estudantil de meu colégio técnico, pude ver meus amigos se dispersarem por uma série de tentativas de reação. Alguns engajaram-se em partidos radicais de esquerda e me cobravam o mesmo. Outros concentraram-se em causas específicas, antecipando um movimento mais enfatizado pela geração Y e posteriores. Houve ainda aqueles que procuraram transformar sua vida particular em um pequeno exemplo de correção e sensibilidade social: são empresários que apoiam o empreendedorismo e a inclusão social, professores universitários e do ensino técnico, artistas, jornalistas... mas, com exceção de um amigo da faculdade que, certa vez, se lançou candidato a vereador, não há ninguém que ainda esteja militando em partidos, quaisquer que sejam.

Isso não quer dizer que não tivemos nossos grandes momentos. A geração X, no Brasil, compôs o grosso dos caras-pintadas que exigiram o impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992. Mas o caso é emblemático de outro choque de nossa geração: Lindbergh Farias, o extrovertido presidente da UNE naquela época, que arrancava suspiros das meninas nas marchas (para contrariedade dos meninos), hoje é senador pelo PT e, mais do que isso, investigado pela Lava Jato. Assim como Lula, que mobilizou os sonhos de muita gente da minha geração. O ex-sindicalista e ex-presidente foi o último líder político a quem muitos de meus amigos delegaram o poder de transformar o país em um lugar digno de se viver.

Do luto à luta?

Por isso, ele foi o último e grande choque da geração X. Após vê-lo denunciado e condenado pela Lava Jato, os quarentões espalharam-se por todos os cinco estágios de sofrimento do modelo de Elisabeth Kübler-Ross: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Eu, mesmo, convencido de que Lula não é santo, fui um dos alvos prediletos de alguns amigos que maldiziam a imprensa golpista por aquilo que denunciam como a aversão das elites em ver o povo ascender ao poder. O ponto central, contudo, é que, sob a influência do pensamento binário, a geração X delegou até onde pôde, a algum líder, a missão de reestruturar o país. Fomos criados para sermos maniqueístas, mas o mundo mudou: para nosso desconforto, tornou-se muito mais multifacetado, nuançado. Nossos líderes sempre seriam bons. Os líderes dos outros sempre seriam maus.

Esquecemo-nos, porém, do básico: nenhum líder, sozinho, resgata uma nação. O dever cabe, sempre, todo o dia, aos seus cidadãos, como fazíamos nos tempos de grêmio estudantil. Ao se engajar na política, mas sem ser, necessariamente, candidato, Huck talvez sinalize um saudável lembrete à geração X: é possível ser político de muitos modos. Concordem ou não com as ideias de Huck e com as pessoas de quem se cercou politicamente, quem sabe os quarentões não se animem a pôr a mão na massa de novo e rejuvenesçam?