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Alckmin, Bolsonaro e Lula: quem São Paulo quer na Presidência?

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Disputa em São Paulo será uma briga de “rouba-monte” entre os três, que não conseguirão crescer sem atrair os eleitores de seus adversários

Alckmin, Bolsonaro e Lula: quem São Paulo quer na Presidência?

A caminho: quem, afinal, os paulistas seguirão até Brasília? (Foto: Márcio Juliboni)

A menos de um ano da eleição presidencial, São Paulo, o Estado mais rico e populoso do Brasil, está rachado em três grandes placas tectônicas de dimensões semelhantes. Numa, agrupam-se os 23,7% de paulistas que pretendem votar em Geraldo Alckmin, seu atual governador; noutra; os 19,9% de eleitores do ex-militar e deputado federal Jair Bolsonaro; e na terceira, os 19,4% que apoiam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O mapeamento foi divulgado nesta terça-feira (12) pelo Instituto Paraná Pesquisas, com base em 2.016 entrevistas em 76 cidades paulistas na primeira semana de dezembro. Como a margem de erro é de 2 pontos para mais ou para menos, Alckmin, Bolsonaro e Lula estão tecnicamente empatados. Como pertencem a continentes políticos distintos, o atrito entre eles produzirá cada vez mais terremotos retóricos até outubro. A pergunta é: quem sobreviverá às ondas de choque emanadas de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país?

A primeira parte da resposta passa por entender quem já embarcou em cada candidatura. Segundo o Paraná Pesquisas, Alckmin é mais forte entre mulheres (27% da preferência); pessoas com 45 anos ou mais (de 28% a 32% das intenções, conforme a faixa etária); com ensino fundamental (27%); fora do mercado de trabalho (não confundir com desocupados, por favor!), com 28%; e que não moram na região metropolitana (27%).

Já Bolsonaro destaca-se entre os homens (27%); eleitores entre 16 e 44 anos (de 29% a 22%, segundo a faixa etária); com ensino médio ou superior (de 23% a 25%, conforme o nível); integrados ao mercado de trabalho (isto é, efetivamente ocupados ou em busca de ocupação), com 23%; e fora da região metropolitana (21%).

Por último, Lula está praticamente equilibrado em termos de gênero, com ligeira vantagem para as mulheres (19,8% a 19%). É mais forte entre os eleitores com 16 a 34 anos (20%); com ensino fundamental (24%), integrados ao mercado de trabalho (20%). O que chama mais a atenção, no caso do petista, é que é o único dos três principais candidatos cuja força pende para a região metropolitana – 21% dos moradores pretendem votar nele.

Alckmin contra Bolsonaro e Lula

Logo, a segunda parte da resposta é entender o que falta para cada candidato ampliar sua base em segmentos nos quais está fraco. Em linhas gerais, Alckmin precisa crescer entre os homens jovens, com maior nível de instrução e integrados ao mercado de trabalho. Além disso, deve também mostrar que fez algo pela Grande São Paulo, que só se lembra dele a cada inauguração quadrienal de uma estação de metrô. Os três primeiros pontos são justamente os que concentram o eleitorado de Bolsonaro. Já o último bate de frente com os lulistas. Como fará isso, só Deus, o governador e seus marqueteiros sabem (não, necessariamente, nesta ordem). O fato é que o perfil dos eleitores de Alckmin mostra que o tucano não é visto como algo novo (nem poderia ser, já que está há tanto tempo na política paulista). Por isso, seus eleitores são mais velhos. Tampouco convence os paulistanos de que faz uma boa gestão – por isso, sua força no interior.

Bolsonaro contra Alckmin e Lula

Já Bolsonaro fascina machos adolescentes ou recém-entrados na fase adulta. Seu discurso caricato consegue ser tão tosco quanto uma propaganda do desodorante Old Spice, atraindo eleitores cheios de testosterona e vazios de empatia ao próximo. Para crescer, precisa atrair mais mulheres – conseguirá, com seu discurso misógino e sua condenação por apologia ao estupro, ao dizer que não violentaria Maria do Rosário, porque ela era feia e não merecia? Aqui, ele terá de suar muito a camisa, já que a maioria das mulheres está com Alckmin e, em menor medida, com Lula. Será um prato cheio para os dois, em propagandas eleitorais e debates, cutucar essa ferida bolsonarista.

Também, precisa atrair pessoas com ensino fundamental e que estão fora do mercado de trabalho. Esses dois elementos, juntos, significam adotar um discurso com mais apelo social – ajuda aos mais pobres e desfavorecidos. Neste ponto, seu mentor econômico, o economista ultraliberal Paulo Guedes, terá de rebolar para convencer que acabar com programas sociais é a solução para melhorar a vida dos mais pobres. Após a guinada do PSDB de Alckmin para um discurso de centro-esquerda e com Lula ainda aglutinando a maioria da esquerda, será uma tarefa inglória para Bolsonaro. Por fim, precisa agregar eleitores mais velhos – uma camada de paulistas escaldados, que já viram muita coisa na vida e se arriscam menos em aventuras e estão com Alckmin.

Lula contra Alckmin e Bolsonaro

Em termos de gênero, Lula está equilibrado e sua tarefa é promover um crescimento geral. Entre os homens, seu desafio será oferecer algo que os convença a abandonar o afago fácil ao ego, proporcionado pelo estilo “tiro, porrada e bomba” de Bolsonaro. Pelo lado das mulheres, terá de vencer a imagem de bom moço, de Alckmin, com aquele apelo de genro que toda família paulista quer ter. Quanto à faixa etária, o fôlego de Lula entre os mais jovens é menor que o de Bolsonaro. Logo, seu trabalho começa já a partir dos eleitores entre 35 e 44 anos. Trata-se de uma camada que se tornou adulta durante a redemocratização, e só conheceu dois partidos no poder: tucanos e petistas. Não é à toa que Bolsonaro, vendido como a terceira via, atrai parte desse público. Para os mais velhos, a partir de 45 anos, Lula precisa vencer sua própria batalha: explicar seus erros, suas mudanças de rumo e, sobretudo, as acusações e a condenação na Lava Jato.

Como se vê, a eleição em São Paulo será uma briga de “rouba-monte” entre Alckmin, Bolsonaro e Lula. Ao mesmo tempo em que precisam conservar o que já têm, nenhum deles conseguirá crescer e subir a rampa do Planalto, sem seduzir parte dos eleitores dos outros dois. O choque entre os três, em São Paulo, será sentido por todo o Brasil – a ponto de, no limite, decidir a eleição. Preparem-se: tudo vai tremer até 2018.