LAVA JATO

Alguém está disposto a defender Rodrigo Janot das acusações de Marun?

Márcio Juliboni
Autor
Márcio Juliboni

Ao que parece, Janot está entregue à própria sorte. O risco é que esse isolamento não seja apenas dele, mas da própria Lava Jato

Alguém está disposto a defender Rodrigo Janot das acusações de Marun?

Sozinho no mundo: Janot é só Janot ou ainda é a Lava Jato? (Foto: Wilson Dias/ABr)

Carlos Marun (PMDB-MS) prepara-se, em grande estilo, para trocar sua cadeira de deputado federal pela de ministro de Michel Temer. Como prova de lealdade ao presidente, seu último ato, como parlamentar e relator da CPI da JBS, será denunciar o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot por supostamente tramar, junto com dois assessores, a queda de Temer. Para Marun, Joesley Batista, um dos donos da JBS, foi deliberadamente orientado pela antiga cúpula do Ministério Público Federal a gravar a conversa com Temer, na qual o empresário confessa pagar pelo silêncio de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara e preso pela Lava Jato. Até aí, Marun está cumprindo seu papel. Basta lembrar que ele defendeu Cunha até o último minuto e dançou para comemorar a rejeição, pelo Congresso, da denúncia contra seu futuro chefe. A pergunta mais importante é: há alguém disposto a defender Janot?

Antes de mais nada, é preciso lembrar que o relatório que Marun apresentará à CPI não tem validade judicial – afinal, cabe ao Judiciário, e não ao Legislativo, a investigação e eventual condenação de qualquer brasileiro. Em bom português, o Ministério Público Federal (alô, Raquel Dodge!) é que decidirá se acatará ao pedido da CPI e abrirá um inquérito. Por isso, a importância da reação ao ataque do deputado e futuro ministro tem tanta força simbólica, quanto prática. O que significa defender Janot nesse caso? Não se trata de uma resposta simples, como tudo o que envolve a política brasileira nos últimos anos. Primeiro, é preciso entender se o ex-procurador efetivamente sabia das conversas de Marcello Miller, seu assessor na época, com a JBS. Segundo: caso soubesse, Janot foi apenas relapso e conivente com uma falha ética grave, ou também se envolveu efetivamente? Terceiro: qualquer que seja a resposta às duas perguntas anteriores, o quanto os eventuais erros (deliberados ou não) de Janot comprometem a Lava Jato?

Se Dodge ignorar a acusação de Marun, estará sujeita a duas reações. De um lado, os atingidos pela Lava Jato a apontarão como cúmplice de Janot no caso. Tentarão colar, nela, a imagem de golpista que acoberta uma conspiração contra Temer. Se a procuradora-geral da República não se escandaliza com essas tramoias, estamos perdidos – dirão os suspeitos, denunciados e condenados. De outro, a maioria dos brasileiros entenderá que Dodge protegeu a Lava Jato dos corruptos que tentam destruí-la. Os cidadãos poderão dormir sossegados, pois a chefona do Ministério Público provará que não é, como se suspeita, uma marionete de Temer e de todos os enrolados com a Justiça (sejam de esquerda, de direita ou do centrão). Contudo, se ela decidir investigar Janot e seus auxiliares, colocará sob suspeita toda a Lava Jato. Que corrupto pego com a boca na botija não se sentirá no direito de clamar pela anulação de provas e sentenças?

Faustão está melhor

Como se vê, trata-se de uma decisão vital para ser tomada apenas por uma pessoa ou um punhado delas. Há, nessa história, um personagem completamente omisso até agora: o povo, seja na forma de manifestações de rua, seja por meio de suas “novas lideranças”. O ânimo dos brasileiros com a Lava Jato é cada vez menor. Da boca para fora, pega bem defendê-la; mas praticamente ninguém mais se anima a sair do sofá em seu nome, nem mesmo com a piora do Domingão do Faustão. As raivosas lideranças que berravam sobre carros de som, na época do impeachment, deram-se por satisfeitas em tirar Dilma Rousseff do Planalto. Parte dos “líderes” está mais preocupada em se eleger para algum cargo em 2018, do que em continuar zelando pelo combate à corrupção.

Outra parte simplesmente desmanchou no ar, provando que sua liderança era tão consistente e vistosa quanto uma bolha de sabão. Tampouco a imprensa (grande, pequena, “golpista” ou “independente”) dá sinais de se importar como deveria com o assunto. Os barões da mídia sentem seu dever cumprido – puseram fim à era petista no Planalto. Já os “independentes” torcem o nariz para Janot, a quem acusam de golpista. Ao que parece, o ex-procurador-geral está entregue à própria sorte. O risco é que esse isolamento não seja apenas dele, mas da própria Lava Jato.