ECONOMIA

Aprovação a Doria cai: tudo o que é marketing desmancha no ar

Márcio Juliboni
Autor
Márcio Juliboni

Não é à toa que seu maior programa, nesses primeiros meses, chama-se Cidade Linda. Afinal, o que os olhos veem, a urna deveria faturar

Aprovação a Doria cai: tudo o que é marketing desmancha no ar

Dureza: Doria precisa de menos foto e de mais trabalho (Foto: Heloísa Ballarini/SECOM-PMSP)

A lua-de-mel entre os paulistanos e o prefeito João Doria terminou. De acordo com uma pesquisa do Datafolha divulgada nesta terça-feira (05), 39% dos entrevistados consideram-no ruim ou péssimo, após seu primeiro ano no cargo. Trata-se do mesmo índice de seu antecessor, o petista Fernando Haddad, ao completar o mesmo período de governo. Para quem, por alguns meses, sonhou em bater seu padrinho político – o governador Geraldo Alckmin – e acordar presidente do Brasil em janeiro de 2019, Doria é o melhor exemplo de que o marketing pode enganar alguns o tempo todo; pode enganar todos por algum tempo; mas não pode enganar todos por todo o tempo. Seja porque afastou-se da gestão da maior cidade do país para pavimentar sua candidatura ao Planalto, seja porque é ruim de serviço mesmo, o fato é que Doria precisa fazer muito mais para convencer os paulistanos de que é bom.

Para quem não se deixou encantar pelo canto da sereia do “gestor que não é político”, era um tanto óbvio que isso aconteceria. Comecemos pelo lado “gestor”. Doria assumiu prometendo um choque de processos na preguiçosa e burocrática estrutura municipal. Criou factoides como a “multa Soninha” – aquela que todo secretário deveria pagar, a exemplo dela, se se atrasasse para as reuniões do gabinete. Distribuiu barras de cereal e energético para os assessores para ficarem “ligadões” e trabalharem mais. Ciente de que vivemos num mundo midiático, foi a campo: vestiu-se de gari, varreu ruas por dois minutos, comprou briga com grafiteiros ao pintar a Avenida 23 de Maio de cinza, voltou atrás, liderou mutirões para limpar praças e arrumar calçadas. Não é à toa que seu maior programa, nesses primeiros meses, chama-se Cidade Linda. Afinal, o que os olhos veem, a urna fatura!

Espalha-roda

Seus erros, porém, são mais eloquentes, porque revelam a falta de habilidade do “gestor”. O primeiro foi a intervenção atabalhoada na cracolândia na região central. De prático, tudo o que conseguiu foi espalhar a multidão de zumbis viciados em crack. Agora, a maioria acampa na Praça Princesa Isabel, lá perto, enquanto outros formaram minicracolândias por aí. A ação foi mal planejada, mal executada e arrogantemente defendida por Doria e seu secretariado, como se a culpa do fracasso fosse... das vítimas da droga!

Outro erro grave foi a tal farinata – a ração que o prefeito pretendia distribuir para a população de rua e, depois, como merenda nas escolas municipais. Feita a partir de alimentos próximos à data de vencimento, foi questionada por nutricionistas, médicos, assistentes sociais, movimentos civis, professores e imprensa. A pressão foi tamanha, que Doria recuou – não sem mostrar uma grande irritação com as críticas. Detalhe: não se tem notícia de alguma foto em que o prefeito esteja comendo os tais biscoitos...

Agora vale

Olhemos, agora, o lado “não político” de Doria. Nesta terça, o tucano negou que o Datafolha mostre que sua reprovação seja idêntica à de Haddad. Para tanto, alegou que, se 39% são contrários à sua gestão, é sinal de que 60% são favoráveis (somando-se bom, ótimo e regular). A ironia é que o mesmo raciocínio deveria se aplicar a Haddad, então: se 39% dos paulistanos o reprovavam, significa que 60% o aprovavam (incluindo também os regulares). Doria, convenientemente, desconsidera tal situação, e a Folha tampouco se importou em questioná-lo sobre isso. De qualquer forma, a última cartada do prefeito foi reclamar do orçamento deixado por seu antecessor. A falta de dinheiro compromete, segundo o tucano, a prestação de serviços públicos – a tal zeladoria da cidade. Segundo ele, os recursos “infelizmente faltaram no orçamento, que, aliás, foi elaborado pela gestão anterior.”

Ora, ora, ora... não faz nem um mês, Doria demitiu o prefeito regional da Casa Verde/Cachoeirinha, Paulo Cahim, após este reclamar da... falta de verbas! No caso, Cahim ressentia-se de não ter dinheiro para obras de combate a enchentes na região. Na ocasião, ao informar sobre sua exoneração, a Prefeitura afirmou, em nota, que o mesmo demonstrou “conformismo diante das dificuldades, em lugar de empenho e criatividade na superação dos desafios, como exige a atual administração municipal de seus colaboradores.” Ao pedir que a população compreenda que não fez mais, por falta de dinheiro, Doria arroga para si uma prerrogativa que não dá a seus subordinados. Nada mais político do que isso – nem mais marqueteiro.