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Bolsonaro deveria ser cassado, e não eleito, após a entrevista à Folha

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O candidato honesto e zeloso com o dinheiro público realmente é um mito. O verdadeiro é o que não gosta de prestar “continha” sobre o que faz e ataca quem o cobra

Bolsonaro deveria ser cassado, e não eleito, após a entrevista à Folha

Bolsonaro: de boca fechada, ele é um poeta (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ Ag. Brasil)

Há coisas que não se pode tolerar, nem como piada escatológica. Simples assim. Na entrevista concedida à Folha de S.Paulo na noite desta quinta-feira (11), o deputado federal e presidenciável Jair Bolsonaro ultrapassou todos os limites da decência e do bom-senso. Arrogante, desrespeitoso, autoritário, respondeu com grosserias dignas de entrar para os anais do bestiário nacional. Coisinhas como “usei o auxílio-moradia para comer gente”. Se você ainda está com ele, de duas, uma: ou você é um completo sem-noção, como o seu candidato, ou deve abandoná-lo agora. Sinceramente, após essa entrevista, Jair Bolsonaro merece ser cassado e banido da política, e não eleito presidente do Brasil.

Não se trata apenas de alguém descontrolado, que fala a primeira coisa que lhe vem à cabeça. É, sobretudo, o exemplo de um político que se acostumou, por 20 anos, a fazer o que faz sem se sentir obrigado a prestar contas a ninguém. Afinal, convenhamos: antes que um bando de malucos o alçasse ao segundo lugar na corrida presidencial, Bolsonaro não passava de um coadjuvante tosco na Câmara dos Deputados, que se mantinha em evidência graças à sua capacidade de ofender qualquer coisa não tolere, como os direitos humanos, a homoafetividade, o empoderamento feminino e o amparo dos mais pobres por meio de programas sociais.

“Boçalnaro”, primeiro e único

Se você tem alguma dúvida, eis alguns exemplos. Ao ser questionado sobre a incoerência de receber auxílio moradia, apesar de possuir um apartamento em Brasília, Bolsonaro foi bizarro: “Como eu estava solteiro naquela época, esse dinheiro de auxílio moradia eu usava para comer gente, tá satisfeita agora ou não? Você tá satisfeita agora?” Veja que maravilha: 1) não respondeu por que, raios, recebia a verba; 2) foi grosseiro, machista e sexista com uma jornalista. Uma, não um. Uma mulher que estava apenas cumprindo o seu dever: investigar os deslizes de alguém que pretende comandar o país a partir de janeiro do ano que vem. O que ele esperava? Que ela abrisse o botão da camisa, mordesse a caneta e dissesse “ai, macho, quero você agora?” Ora, vá à...

Ainda sobre o auxílio moradia, em outro momento, “Boçalnaro” ainda desdenha de sua obrigação de prestar contas sobre o que faz com dinheiro público, isto é, aquele que sai do seu, do meu, do nosso bolso. Em suas próprias palavras: “o dinheiro foi gasto em alguma coisa, ou você quer que preste continha: olha, recebi R$ 3 mil, gastei R$ 2 mil em hotel, vou devolver mil, tem cabimento isso?” Oi? O que, camarada? Se “tem cabimento prestar continha”? Não tem cabimento... tem obrigação! Não é o dinheiro dele que está em questão, é dinheiro público, oriundo de impostos de quem acorda cedo e vai trabalhar, sua o dia todo e não merece ser desrespeitado por um debochado. Tem a obrigação, sim, senhor, de devolver até os centavos que não usa.

De mito a lenda

O “mito” também insistiu em não ver nada de errado em utilizar a verba de gabinete para pagar seu caseiro e a esposa. Insistiu que ela era assessora, embora nem sequer saiba o que anda fazendo. Disse que sua afirmação de que sonegava tudo o que podia, feita em uma entrevista em 1999, era apenas um “desabafo” e um “deslize”. Por fim, declarou que a Folha fez uma “bomba de merda” ao investigar seu patrimônio e arrogou-se o direito, como eventual presidente, de atender apenas a parte da imprensa que lhe for subserviente. Muito, muito democrático mesmo... mais do que isso, e Bolsonaro chegará ao ponto de defender eleições diretas para presidente... desde que o eleito seja ele próprio.

Para encerrar: “Boçalnaro” cresceu na onda moralista de direita que promoveu o impeachment de Dilma Rousseff. Rapidamente, ganhou status de “mito” entre seus fanáticos adoradores. É verdade. O Bolsonaro que se preocupa com o bom uso do dinheiro público, é liberal e preparado para resolver os gravíssimos problemas do Brasil não passa de um mito. O verdadeiro é esse que despejou todo seu esgoto verbal.