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Bolsonaro e a volta do direito divino de governar

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Se Deus o puser no Planalto, e não a vontade popular, então por que dar ouvidos aos eleitores, à sociedade e à oposição?

Bolsonaro e a volta do direito divino de governar

(Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil)

Aqui vão rápidas considerações sobre a entrevista de Jair Bolsonaro à Veja, publicada neste fim de semana. Nela, o ex-capitão reafirma seu desejo de concorrer à Presidência no ano que vem, comenta a busca por um partido que aceite seu projeto e fala de seus planos. É seu direito apresentar-se ao público e é um dever jornalístico lhe dar espaço – afinal, neste momento, é o segundo colocado na corrida eleitoral, atrás de Luiz Inácio Lula da Silva. Tudo muito normal, a não ser por um ponto preocupante: Bolsonaro afirma que é a “vontade de Deus” que o empurra para a disputa.

Sua declaração à Veja é: “Não estou fazendo isso por obsessão, eu entendo que o que acontece comigo é uma missão de Deus e ponto final. Acredito que temos como atingir o sucesso nas nossas mídias sociais. Se for a vontade de Deus, se for a missão dele, estarei pronto para cumpri-la.”

É realmente preocupante que alguém interprete sua eventual vitória nas urnas como o desejo divino. Se Deus o puser lá, e não a vontade popular, então por que dar ouvidos aos eleitores, à sociedade e à oposição? Se todos os votos que receber não passarem apenas de instrumentos do Senhor para ungir Bolsonaro, então será somente a Ele que o hipotético presidente deverá satisfações?

“A Presidência sou eu”

Isso soa familiar? Com certeza. Chama-se direito divino de governar – aquela gambiarra filosófico-jurídica inventada para sustentar o Absolutismo. Mas há antecedentes nos faraós do Egito Antigo, nas civilizações pré-colombianas das Américas... em nome de Deus, qualquer deus, governantes impuseram sua vontade e sua injusta justiça e não toleraram divergências. Masmorras, torturas, mortes, exílios... escolha o castigo que quiser para quem se opusesse à vontade de Deus encarnada no soberano.

O pior é que isso não ficou no passado, empeirando nos livros de História. O direito divino continua firme e forte entre nós. O que é o Estado Islâmico, se não um arremedo monstruoso de totalitarismo baseado na certeza de que estão seguindo a vontade do Profeta? O que é a luta contra os direitos civis nos EUA (como o direito ao aborto), se não um movimento de inspiração religiosa? E o que dizer do retorno do criacionismo? Se você é criacionista, seja, pelo menos, coerente: recuse-se a qualquer tratamento médico. Afinal, as conquistas da medicina ocorreram pela compreensão dos mecanismos da evolução natural.

A esta altura, ainda acho improvável que Bolsonaro vença a disputa em 2018. Como escrevi neste mesmo espaço, o ex-militar precisa enfrentar um verdadeiro corredor polonês até o Planalto. Mas não deixa de ser preocupante que alguém evoque uma autoridade alheia à democracia para justificar seu poder. Não é à toa que Bolsonaro tem traços claríssimos de autoritarismo: para ele, autoridade não se discute, se obedece. Na qualidade de presidente, com esse pensamento, prestará contas apenas a Deus? E, se Deus é por ele, quem poderá ser contra?