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Bolsonaro é o Lula da direita

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Messianismo, personalismo, moralismo... petista e ex-militar são mais parecidos do que desejam seus seguidores

Bolsonaro é o Lula da direita

Com Jair Bolsonaro (PSC-RJ) tecnicamente empatado com Lula na pesquisa do site Poder360, o deputado federal tornou-se o fato novo da corrida presidencial. Embora muita coisa ainda vá acontecer até outubro de 2018, sua disparada na pesquisa é compreensível. Por mais estranho que pareça, os fatores que impulsionam Lula e Bolsonaro são mais parecidos do que os seus apoiadores mais fanáticos desejam.

Primeiro, ambos contam com a sólida retaguarda de grupos da Igreja Católica. Nos anos 70 e início dos 80, a ala progressista dos católicos enxergou, em Lula, uma alternativa para construir um partido de esquerda que não fosse comunista (afinal, alguém já viu padre com quadro do Marx na parede?). O objetivo era lutar contra a injustiça social, mas dentro do quadro de uma renovação do capitalismo (e não de sua superação, como pregam as alas mais radicais do PT). Por isso, a defesa da reforma agrária e das pequenas propriedades rurais (que não deixam, em última instância, de serem capitalistas), e a crença na capacidade de trabalho dos brasileiros como meio para ascender na vida.

No caso de Bolsonaro, os grupos católicos que o apoiam, obviamente, são distintos. Representam o conservadorismo da igreja. Para os conservadores, lidar com a injustiça social é muito mais uma questão de caridade (faça uma doação, de vez em quando, e alivie sua alma) do que de transformação estrutural. De qualquer modo, eles também apostam no poder do trabalho para ascender socialmente – não é por acaso que defendem sem tréguas a propriedade privada.

Salvadores da Pátria

Mas o que os católicos de direita e de esquerda têm em comum? Messianismo. Na fé, ele é representado pela crença de que Cristo retornará à Terra para vencer o Diabo na batalha final do Armagedon e resgatar os puros de coração. Na política, ele é representado pela esperança de que um líder forte e carismático se coloque acima do Bem e do Mal, a fim de promover a ordem e a justiça terrenas.

Segundo: promover a ordem e a justiça terrenas pressupõe combater o Mal que desgraça a política e a sociedade. Vejamos como isso ocorre na política. Nos bons tempos em que era estilingue e não vidraça, Lula não se cansava de se vender ao eleitorado como o único capaz de moralizar a política. Era imaculado, puro, pairava como um Cristo sobre as águas do Paranoá. Alguém se lembra de quando ele disse que, no Congresso, havia “300 picaretas com anel de doutor”, frase eternizada em uma música dos Paralamas do Sucesso?

Agora, nos tempos da Lava Jato, a bandeira da ética na política mudou de mãos. Ela foi delegada, por parte dos eleitores da direita, a Jair Bolsonaro. Ex-militar, ele encarna a idealização de que bastam a ordem e o cumprimento da lei para que a corrupção acabe. Para tanto, é necessário aplicar a disciplina dos quartéis à máquina pública e às relações com os outros poderes. De qualquer modo, não deixa de ser um pensamento mágico. Bolsonaro seria o único capaz de inspirar ética na corporação de tecnocratas, caminhando sobre o espelho d’água do Palácio do Planalto.

Papai chegou

Terceiro: tanto Bolsonaro, quanto Lula são vendidos como a panaceia para o resgate social. É claro que há diferenças. Para os petistas, tal resgate significa combater séculos de injustiças sociais por meio de políticas inclusivas (mesmo quando elas se transformam em uma camisa-de-força assistencialista e paternalista). Para os bolsonaristas, significa reagir àquilo que enxergam como deterioração dos costumes. Nunca é demais lembrar a fixação de Bolsonaro em questões de gênero – para rejeitá-las como uma tentação de Satanás.

Por fim, tanto Bolsonaro, quanto Lula despolitizam e desmobilizam a sociedade. Ao personalizar as soluções para os graves problemas do país, ambos impedem que seus seguidores cogitem que o Brasil deve funcionar independentemente das intervenções de Deus, por meio de seus profetas escolhidos. Ambos compartilham ainda de certo tom autoritário, próprio de quem se acha o único portador da verdade, do caminho e da luz.

Ambos são, sobretudo, uma prova de que os brasileiros continuam delegando a terceiros uma tarefa que deveria ser de todos nós: nos tornarmos uma sociedade realmente justa e próspera, capaz de andar sozinha cumprindo as regras que ela mesma deliberou. E não há milagres ou santos que possam nos ajudar.