ECONOMIA

Brasil é corrupto porque tem muitas raças e crenças (a perigosa tese do FMI)

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Adianta lembrá-los de que a esmagadora maioria do Congresso, do Executivo e dos condenados na Lava Jato é de homens brancos e ricos?

Brasil é corrupto porque tem muitas raças e crenças (a perigosa tese do FMI)

(Imagem: Escravos/ Jean-Baptiste Depret/Reprodução)

Os brasileiros já perderam a conta de quanta saliva, tinta, papel e bytes foram gastos para entender por que vivemos num país tão corrupto. As razões mais citadas vão desde a herança cultural patrimonialista dos portugueses até o sistema político apodrecido e a impunidade ampla, geral e irrestrita. Agora, o Fundo Monetário Internacional (FMI) se prepara para jogar uma senhora bomba na discussão. Sua tese é que o Brasil é muito corrupto, porque é formado por muitas raças e crenças. Países religiosa e etnicamente mais homogêneos tenderiam a ser menos corrompidos. Sim... é uma ideia perigosamente tóxica, capaz de distorcer ainda mais a mente de alguns cidadãos que já deliram em praça pública e nas redes sociais.

O estudo do FMI ainda não foi publicado, mas a Folha de S.Paulo deste sábado (14) antecipou alguma de suas conclusões. O jornal, por pressa, desatenção, pudores ou decisão editorial (sabe-se lá), optou por destacar que a redução da corrupção para padrões semelhantes aos melhores países da América Latina (como Chile e Costa Rica) elevaria o nosso PIB per capita em até 30%. Foi uma escolha coerente com um caderno de economia. Todos temos curiosidade de saber quanto o maltrato do dinheiro público nos empobrece. Para o FMI, cada brasileiro seria até US$ 3 mil (cerca de R$ 9,6 mil) sem essa praga.

Roubar dos outros pode

Curiosamente, mais da metade da reportagem é uma discussão encabulada sobre a metodologia dos pesquisadores para chegar a essa estimativa. O ponto central é que, para encontrá-la, o FMI recorreu a uma “variável instrumental” conhecida como “medida de heterogeneidade étnico-religiosa”. Traduzindo: para contornar um problema óbvio em análises da corrupção (países ricos são menos corruptos porque têm mais dinheiro para combatê-la), a pesquisa usou um critério de calibragem – a tal variável instrumental. Ela afirma que, quanto maior a diversidade étnica e religiosa, maior é o grau da corrupção. Isto porque as pessoas tenderiam a roubar menos de quem é da sua raça ou também segue a sua crença.

Neste sentido, sermos um país com todo esse mosaico de raças, cores e credos mais nos atrapalharia, do que nos ajudaria. Haveria sempre um grupo étnico-religioso distinto do nosso, com o qual não nos identificamos nem um pouquinho, que poderíamos pilhar sem o menor remorso. Já viu onde essa ideia pode parar, não é mesmo? Atrelar bandidagem, corrupção e desvios éticos à raça ou religião é algo recorrente na história da humanidade e acarretou alguns dos momentos mais bárbaros, cruéis e sombrios de nosso passado. Resgatar essa ideia em tempos de Donald Trump e ressurgência dos supremacistas brancos (aquele eufemismo americano para neonazistas) é, no mínimo, brincar com fogo sobre toneladas de nitroglicerina.

Não é de hoje que parte dos brasileiros defende um discurso autoritário, misógino e racista. Alguns supõem ter encontrado candidatos à altura de suas paranoias para chamar de presidente a partir de 2019. Imagine se um deles decide encampar, ainda que sutilmente, a tese de que algumas religiões são mais corruptas que outras, ou que algumas raças são mais propensas a roubar que outras... não adiantará nada lembrá-los de que a esmagadora maioria do Congresso e do Executivo é composta por homens brancos e ricos - o mesmo estrato social que lota as celas da Polícia Federal na Operação Lava Jato. Quando pensamos que a situação já piorou o bastante, o pessimismo sempre nos surpreende com algo mais...