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10 jeitos de você ajudar um tirano (mesmo sem saber)

Márcio Juliboni
há 3 meses2.6k visualizações

Confira se há um ditador dentro de você, à procura de um irmão gêmeo na política

10 jeitos de você ajudar um tirano (mesmo sem saber)
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(Gage Skidmore/Wikimedia Commons)

Preocupado com a eleição de Donald Trump para a Casa Branca, o historiador americano Timothy Snyder publicou, recentemente, um livrinho precioso: Sobre a Tirania, vinte lições do século XX para o presente (Companhia das Letras). Seu objetivo é alertar seus conterrâneos dos riscos concretos de Trump implantar um governo totalitário nos EUA. Comparando o presente com o surgimento do nazismo, do fascismo e do comunismo no século passado, Snyder mostra que o autoritarismo não cai de paraquedas em um país. O discurso histriônico de ódio só se enraíza, quando a sociedade se torna sua cúmplice – mesmo sem querer.

Com o acirramento da divisão política no Brasil, crescem a cada dia sinais de que podemos descambar também para um governo tirânico. Snyder toma o cuidado de nos alertar de que totalitarismo não significa, necessariamente, ditadura. Estão aí os exemplos de eleições de mentirinha para legitimar governos que não querem largar o osso. O discurso de ódio é o sinal mais evidente de quem colabora para empurrar o Brasil para tempos sombrios, mas há outros meios mais sutis. E você pode estar ajudando. Veja quanto disso você está fazendo, deliberadamente ou não.

1. Obedecer por antecipação: um bom modo de encher a bola de um candidato a tirano é adotar uma postura de submissão antecipada. Mesmo quando o governo não edita nenhuma ordem ou lei degradante, o povo simplesmente passa a agir de acordo com aquilo que supõe ser o desejo do tirano de plantão.

2. Abandonar as instituições: em tempos de Lava Jato, quando os três poderes desafiam a fé de qualquer brasileiro, é fácil jogar tudo e todos no mesmo saco e malhá-los. Candidatos a tiranos são especialistas em generalizar situações, a fim de lucrar com a radicalização do debate. Ao dizer que tudo está perdido, que nada tem jeito, coloca-se como o único acima do Bem e do Mal, incorruptível, e capaz de salvar a pátria.

3. Tolerar símbolos autoritários: uma bandeira nazista aqui; outra pichação de muro pregando ódio a imigrantes e minorias ali... para Snyder, deixar que ícones antidemocráticos pululem pela paisagem encoraja seus partidários a engrossar a voz.

4. Repetir tudo sem pensar: um governo totalitário adora papagaios. Repassar slogans, frases de efeito, memes e qualquer tipo de mensagem, sem refletir, é um belo passo para endossar o autoritarismo – sobretudo, quando você está viciado em criticar apenas o seu adversário político, acatando bovinamente o que seu “escolhido” fala, escreve ou incita.

5. Seja antiético em sua profissão: advogados juraram defender a lei. A missão de jornalista é defender a verdade. Médicos devem defender a vida. Gestores públicos e privados devem priorizar o bem comum. Quando alguém se dispõe a contrariar sua ética profissional para adular ou paparicar um governante, está criando um monstrengo que pode devorá-lo depois.

6. Desprezar os fatos: tiranos de direita e de esquerda amam desprezar os fatos. Tacham tudo de fake news, atacam jornalistas e ativistas que tentam confrontá-los com a realidade. Se você faz a mesma coisa, parabéns: talvez ganhe um ditador para chamar de seu!

7. Desdenhe de boas causas: se você acha que tudo está “politicamente correto demais”, e, por isso, “chato demais”, que defender boas causas é apenas hipocrisia ou coisa de trouxas, que a única causa legítima é engordar o próprio bucho... saiba que há um tirano que concorda com você.

8. Feche-se no seu mundinho: despreze diferenças, não se interesse por outras culturas, acredite que seu modo de vida é o único correto e, portanto, o único que deve sobreviver. Precisa dizer mais?

9. Distorça o sentido do patriotismo: você confunde patriotismo com idolatria? Não vê nada errado na imposição das vontades de seu país aos outros? Prega medidas extremas para conter problemas em nações vizinhas? Cuidado...

10. Seja agressivo e irracional: se você se irritou com todos os pontos sugeridos e está com uma tremenda vontade de xingar, postar desaforos e pendurar o autor do livro e o autor deste texto num poste, reduzindo tudo o que foi escrito até aqui a mera bobagem, babaquice e outras coisas, uau! Seu candidato a ditador mal pode esperar por 2018!

Fica Temer: quanto você está disposto a pagar para mantê-lo?

Márcio Juliboni
há 3 meses1.3k visualizações

Prepare seu bolso: você gastará bastante dinheiro para manter o presidente no Planalto até 2018

Fica Temer: quanto você está disposto a pagar para mantê-lo?
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(Foto: Beto Barata/PR)

Responda rápido: o que você faria com R$ 17? Se nada lhe vem à cabeça, que tal, então, dar esse dinheiro para Michel Temer comprar o voto de um deputado federal, em troca de sua permanência no Palácio do Planalto até 2018? Loucura (para ser educado)? Mas é exatamente isso que você fez, na prática, nos últimos dois meses. Segundo o Correio Braziliense, entre junho e julho, o governo liberou R$ 3,4 bilhões em emendas para “convencer” parlamentares a apoiar Temer contra a denúncia de corrupção passiva apresentada por Rodrigo Janot. Divida o total por 200 milhões de brasileiros e aí estão seus R$ 17...

Mas ainda não acabou. Temer conhecerá, nesta quarta-feira (2), suas verdadeiras condições de continuar no poder. E, por “condições”, leia-se “custo” ou “preço”. Outra dica de como andam as coisas: somente na última quinzena de julho, quando a cadeira de Temer já pegava fogo, foram liberados quase R$ 140 milhões para deputados. O presidente (qualquer presidente) só tem duas armas para se manter: o verbo e a verba. À medida que a votação se aproxima, vê-se de onde ele está tirando milhões de argumentos para persuadir os indecisos.

Novela ruim

É claro que muitos desses “indecisos” são canastrões de novela ruim, encenando uma dúvida que não engana nem criancinha. Mas, nas pantanosas negociações dos porões de Brasília, se fazer de difícil sempre pode render um dinheirinho a mais...

O problema é que, mesmo que a Câmara impeça o STF de investigar Temer na votação de amanhã, o caso ainda não terá acabado. De um lado, Janot ainda guarda mais duas denúncias para apresentar aos deputados. De outro, uma votação magra mostrará a anemia política do governo e confirmará que lhe falta força para temas importantes, como as reformas. A saída? Viver da compra, no varejinho da política rasteira, de apoio – dia após dia.

Quitandeiros no poder

O sinal mais claro de que caminhamos para uma “política de quitandinha”, em que cada congressista terá sua cadernetinha no balcão de Temer, é a admissão de Henrique Meirelles, seu ministro da Fazenda, de que pode elevar a previsão oficial de rombo das contas públicas neste ano. Em pomposo economês, significa elevar a meta fiscal de um buraco de R$ 139 bilhões para R$ 159 bilhões.

É claro que os R$ 20 bilhões adicionais não irão apenas para comprar deputados e senadores (pelo menos, não diante das câmeras e gravadores). Entram, aí, o irrisório crescimento previsto para o PIB neste ano, que sufoca a arrecadação, concessões e privatizações que só aconteceram em powerpoints de gabinetes brasilienses etc. Mas é justamente por isso, que se deveria redobrar o cuidado com o destino do escasso dinheiro público.

Entre a mãe humilde que se desespera com a falta de atendimento do hospital público aos filhos doentes, e a hemorragia política de Temer, o governo não hesitou um minuto para mostrar sua prioridade: providenciar uma UTI pré-eleitoral para o peemedebista. Nela, cada atadura para estancar sua sangria custou R$ 17 nos últimos dois meses. Se o paciente mostrar sinais de melhora, mas sem perspectiva de sair do hospital, os responsáveis por sua sobrevivência em Brasília cobrarão cada vez mais caro pelo tratamento. E a fatura virá para você, para mim, para todos os brasileiros. E aí? Quer pagar quanto?

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!