Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

A Lava Jato vai acabar e você nem perceberá

Márcio Juliboni
há 3 meses1.1k visualizações
A Lava Jato vai acabar e você nem perceberá
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

A Lava Jato vai se desmanchar diante dos seus olhos e você nem verá. Literalmente. É o que os neurocientistas chamam de “cegueira para a mudança”. Durante milhões de anos de evolução, nosso cérebro foi moldado para reagir a fortes contrastes: movimento versus repouso, quente versus frio, cor berrante versus cor pastel etc. Não se trata de um capricho da natureza, mas de um modo de processarmos informações mais rapidamente, sem ficarmos malucos ou exaustos.

Malucos, porque seria monstruosamente trabalhoso assimilar e refletir conscientemente sobre cada mínima variação do ambiente – de uma ligeira mudança no vento a uma sutil alteração na cor das árvores. Exaustos, porque isso demandaria um consumo enorme de energia – e o cérebro já é o órgão que mais demanda calorias para funcionar.

Mas, sobretudo, seria uma tarefa inútil. Imagine seu pobre avô hominídeo nas savanas africanas há milhões de anos. Coloque-se em seu lugar. Em que você prestaria atenção? Naquele antílope que pasta despreocupadamente com seu filhote a centenas de metros de distância, ou naquele tigre dentes-de-sabre que, um segundo atrás, estava quieto, mas agora dispara faminto em sua direção? O que mudou na cena em um segundo? Pois é... não é preciso ser um homo sapiens para perceber o contraste no ambiente e dar no pé para não virar almoço.

O pior cego...

O problema, segundo os cientistas cognitivos, é que a cegueira para a mudança também tem seus contras. Nos torna desatentos a mudanças graduais. Se, em tempos pré-históricos isso não era importante, em tempos de Lava Jato, é fundamental.

Justamente porque não damos bola para pequenas mudanças, elas estão ocorrendo sob nossos olhos neste instante e corremos o risco de percebê-las apenas quando for tarde demais. Quando seu volume acumulado for tamanho, que acarretará uma alteração gritante no ambiente – quase como um tigre dentes-de-sabre disparando em nossa direção. E nos perguntaremos: como não vimos antes?

Olhe de novo

Não vimos, porque não quisemos, ou julgamos que não era importante. Mas vamos aos fatos: a Lava Jato está virando fumaça e você aí na praça, dando milho aos pombos. Eis o que já aconteceu:

- nesta quinta, a equipe de delegados federais que atuava exclusivamente na Lava Jato em Curitiba foi encerrada. As investigações passarão para a Delegacia de Combate à Corrupção e Desvio de Verbas Públicas (Decor). Traduzindo: o maior escândalo de corrupção da história disputará recursos e a atenção com pequenos achaques de vereadores de Onde-Fica-Isso?

- A futura procuradora-geral da República, Raquel Dodge, já indicou que reduzirá o número de procuradores dedicados à operação. Esqueça todo o malabarismo verbal: na prática, ela considera que tem muita gente investigando os poderosos da vez e, pior, passando dos limites...

- A absolvição de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, pela segunda instância deu a brecha que todo advogado de investigado pela Lava Jato queria. O argumento: delação não é prova. Ficará difícil, agora, condenar alguém, mesmo que o cúmplice jure que ele é culpado. Infelizmente, como diz Rodrigo Janot, não se conhecem corruptos que deem nota fiscal.

- Marco Aurélio Mello aliviou a barra de Aécio Neves e o Senado o absolveu. Com isso, um tucano gravado pedindo milhões de reais a um confesso corruptor sairá voando livremente.

- A pretexto de conter gastos diante da crise fiscal, Michel Temer vem asfixiando o orçamento da Polícia Federal. Pretende matar a Lava Jato por inanição.

- Mas o pior de tudo: as ruas se calaram. A esquerda nunca morreu de amores pela Lava Jato, pois acredita que ela não passa de uma perseguição injusta contra os petistas e seu líder-mor: Lula. Logo, não mexerão um dedo para defendê-la. A direita acredita que a Lava Jato já cumpriu seu papel: baniu os “petralhas” do poder. Por conveniência ou mera cumplicidade, não protesta contra o desmonte da operação, agora que ela atinge o seu time.

Um dos célebres conselhos de Maquiavel ao príncipe é fazer o mal de uma vez, e o bem, aos poucos. Os cientistas cognitivos diriam o contrário: promova o mal bem devagar, para que ninguém o perceba, e faça o bem de uma vez, para gerar contraste. Está aí o silêncio das ruas, diante da evaporação da Lava Jato, que não devemos deixar de notar.

Por que outro Lula seria ruim para o Brasil (parte 2)

Márcio Juliboni
há 3 meses1.3k visualizações
Por que outro Lula seria ruim para o Brasil (parte 2)
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Seja pela possibilidade de Michel Temer cair e detonar uma disputa entre os defensores da eleição direta antecipada e os apoiadores da eleição indireta, seja pela proximidade das eleições de 2018, a liderança de Lula nas pesquisas de intenção de voto divide o Brasil entre os que sentem asco com a ideia e os que voltam a ter esperanças. Não sinto ânsias de vômito com uma eventual (e improvável) vitória de Lula nas urnas, mas acredito que isso seria ruim para o Brasil.

Ontem, tratei de rebater os argumentos do jornalista Pedro Zambarda que, em seu artigo Por que votarei em Lula e não sou "malufista de esquerda", defendeu o petista como a melhor opção para o Planalto. Hoje, gostaria de apresentar as ideias de dois bons livros: Os sentidos do Lulismo, de André Singer, e Do PT das lutas sociais ao PT do poder, de José de Souza Martins. Para quem ainda nãos os conhece, trata-se de intelectuais respeitados e não de rasos panfletários de memes de Facebook. Singer é cientista político e foi porta-voz da Presidência durante o primeiro mandato de Lula. Martins, sociólogo, cresceu no ABC e sempre foi simpático ao PT. Não são, portanto, coxinhas atavicamente tendenciosos. E, ainda assim, não gostaram nada do que viram nos últimos anos.

A ideia central de Singer é que os governos petistas não foram revolucionários, como as cartilhas do partido e seus ideólogos de mesa de bar pregam. Para ele, Lula e Dilma adotaram um “reformismo fraco”, baseado em concessões graduais aos mais pobres, como o maior acesso ao crédito e a valorização do salário mínimo. Com isso, trocaram a antiga oposição entre direita e esquerda pela oposição entre ricos e pobres.

Maniqueísmo de mentirinha

Essa nova oposição entre “churrasco na laje” e “varanda gourmet” foi habilmente manipulada por Lula (e sofrivelmente por Dilma). Em tempos de paz política e crescimento econômico, Lula acenava com a possibilidade de ascensão dos mais pobres à classe média. Foram anos de crédito farto para comprar automóveis novos, televisões enormes e apartamentos cujos preços explodiram. Em vez de combater o capitalismo, como os boinas vermelhas de camiseta do Che Guevara dizem que o PT faz, os governos petistas apenas prometeram alargar o mercado de consumo. Com isso, selaram a paz com as elites político-econômicas, naquilo que Singer chama de “pacto conservador”.

Quando o clima político-econômico azedou, essa mesma oposição construída pelo PT entre ricos e pobres foi conveniente para atacar “as elites brancas”. Tais “elites” foram o Satanás que Lula, Dilma e seus companheiros jogaram a quem protestou contra a deterioração das condições de vida. Afinal, eram os batedores de panela das varandas gourmet que detestavam pobres ascendendo socialmente e, por isso, se opunham ferozmente ao governo popular. É verdade que há cabeças-de-bater-bife que sentiram urticárias em ver o povo, afinal, começar a viver com um pouco mais de decência. Mas, na versão petista, os protestos só eram baseados nisso e não tinham nada a ver com a piora da economia e com a corrupção que se alastrou sob as barbas de Lula (basta ver que muitas das denúncias de corrupção envolvendo peemedebistas remontam à época em que eles eram integrantes dos governos Lula e Dilma).

Quem nunca comeu melado...

Mas por que os petistas não pararam a tempo de evitar o desastre? Aí, entra a visão de José de Souza Martins, desconcertantemente simples: para o sociólogo, Lula, Dilma e companheiros trocaram um projeto de Brasil por um projeto de poder eterno. Deslumbraram-se com as benesses do poder e trocaram a legalidade (isto é, agir conforme a lei) pela legitimidade (agir sob o pretexto de que está atendendo aos clamores do povo). Na autofantasia petista, seus governos representavam a consolidação final das aspirações populares. Ungidos pelas urnas, poderiam fazer o que bem entendessem em nome do resgate de injustiças históricas.

Onde isso foi dar? Eis o que diz Martins: “O país já não tinha um projeto de nação. Mas o PT tinha um projeto de poder. Essas fraturas demarcarão a tortuosa trajetória do partido até os autos do processo judicial e o recinto da Suprema Corte. Houve militantes que julgaram lícito o ilegal em nome do que consideravam legítimo, o poder a ser conquistado e mantido. Maquiavel em versão de província. Enveredaram pelo caminho do que, à luz da lei, é corrupção, supondo que não o seria se em nome da legitimidade da revolução, na conquista da equivocada eternidade do poder.”

Os fatos falam por si.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!