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Antecipar as eleições não resolve nosso maior problema

Márcio Juliboni
há 3 meses555 visualizações

Do jeito como são feitas no Brasil, eleições são apenas um grande negócio: garantem lucro e imunidade aos políticos, e não pacificam o país

Antecipar as eleições não resolve nosso maior problema
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Em entrevista na manhã desta terça-feira (18) à rádio Capital, de São Paulo, Luiz Inácio Lula da Silva voltou a insistir na antecipação das eleições. Candidato declarado à Presidência no ano que vem, o petista, que foi condenado na semana passada a nove anos e meio de prisão por Sérgio Moro, não é o único a defender a ideia. Seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, do arqui-inimigo PSDB, também a apoia publicamente. Ainda que haja argumentos razoáveis para tanto, a realização das eleições, por si só, não resolverá o maior problema do Brasil: a grave crise de representatividade política. Em bom português: o povo já não se identifica com ninguém e as torcidas uniformizadas provavelmente não aceitarão a derrota de seus candidatos.

Vamos ao básico. Há dois tipos de democracia: a direta e a indireta. Na primeira, todos os cidadãos literalmente se reúnem para votar algo. Há remanescentes dela nos plebiscitos e referendos, por exemplo. Mas o mais comum é a indireta: elegemos pessoas com quem temos, teoricamente, afinidades ideológicas para nos representar na criação de leis (Legislativo) e na gestão pública (Executivo). O argumento de quem, como Lula e FHC, defende eleições antecipadas é aceitável: elas seriam a oportunidade de o povo decidir, novamente, que rumos o país deve tomar e a cargo de quem esse novo projeto ficará. No jargão político, devolveria a legitimidade ao governo.

Renan abriria mão de um ano de imunidade?

Mas... ah, se a vida fosse assim tão simples! Primeiro, há obstáculos de ordem prática. A antecipação das eleições valeria para todo mundo cujo mandato vencerá em 2018? Isto é, presidente, deputados federais, deputados estaduais, senadores e governadores? Em caso afirmativo, é possível convencê-los a abrir mão de um ano de foro privilegiado em plena Lava Jato? Basta lembrar do neo-oposicionista Renan Calheiros, que passou a malhar publicamente Michel Temer para ter esperança de se reeleger ao Senado e continuar longe de Moro.

Se a eleição valer apenas para a Presidência: que condições terá o eleito de governar até outubro de 2018, com parlamentares e governadores em fim de mandato? Se já se souber quem é o presidente, as articulações de aliados e oposicionistas serão intensificadas. Ele será o Judas a ser malhado em praça pública, ou o Cristo de quem se espera a unção para conduzir os eleitos ao reino da imunidade. Isso apenas acentuaria a polarização política, dificultaria as votações no Congresso e transformaria outubro de 2018 em um novo terceiro turno.

A última questão prática é: há dinheiro para fazer uma eleição nos próximos meses? Basta lembrar que as doações empresariais estão proibidas. A reforma política ainda não foi votada e, portanto, ainda não se sabe de onde os políticos vão tirar recursos para bancar as campanhas. Há a expectativa de que recorram ao óbvio: um fundo de campanha com dinheiro público (sim, o meu, o seu, o nosso – menos o deles), além da ampliação do fundo partidário.

Alguém vai aceitar perder?

Mas, vamos supor que os políticos sejam criativos o suficiente para resolver essas questões práticas. Restam os dois pontos mais importantes. O primeiro: em quem votar? Não se trata apenas da crescente rejeição do povo aos políticos atuais. Mesmo que surjam novas lideranças, há o corporativismo pelo caminho que as sufoca e impede que se destaquem. A reforma política, que deveria mobilizar tanto quem veste verde e amarelo, quanto quem veste vermelho, está sendo montada para preservar os atuais grupos de poder. Será uma mudança feita sob encomenda para não mudar nada. Na prática, ela alterará a ordem em que o cardápio é apresentado e seu preço, mas os pratos continuarão intragáveis.

A segunda dúvida é: os candidatos mais fortes aceitarão o resultado da eleição, caso percam? Falando claramente, Lula e os petistas defendem a antecipação, com o argumento de que um pleito sem o ex-presidente seria ilegítimo. Se participar e perder, ele e seus militantes aceitarão civilizadamente o resultado dar urnas? Ou dirão que sua derrota foi produzida por um bombardeio inclemente, de mais de um ano, das elites, da imprensa, do governo golpista e do “czar” Sérgio Moro?

Da mesma forma: se Lula vencer, as camisetas verdes e amarelas aceitarão? Ou dirão que Lula se escondeu atrás do foro privilegiado para não ser preso? Que a Justiça não serve para nada por aqui? Que é preciso depô-lo, pois seria indecoroso ser comandado por alguém condenado em primeira instância? Pediriam seu impeachment? E qual seria a reação petista? Acusá-los de que foram coniventes com os escândalos do governo Temer?

A democracia é apenas um bom negócio

Sinceramente, não há sinais de que antecipar a eleição pacifique o país por si só. Mesmo em 2018, aliás, ela não será capaz disso. Enquanto o sistema eleitoral não mudar seriamente, com cláusulas de barreira, proibição de coligações em eleições proporcionais, voto distrital puro, mais dificuldade para a troca de partidos etc, as votações não passarão de um grande faz-de-conta de que somos democráticos.

Assim como estão, as eleições só atendem aos interesses dos próprios políticos. Por um lado, são um negócio lucrativo; afinal, quem fiscaliza seriamente quanto das doações vai para a campanha e quanto vai para o bolso dos distintos candidatos? Por outro, lhes garante poder e imunidade para fechar suas negociatas, achacar quem quiserem e intimidar quem os ameaça, sem que paguem por isso.

Bolsonaro pode, mesmo, vencer em 2018?

Márcio Juliboni
há 3 meses398 visualizações

Por ora, há motivos bem práticos para evitar o clima de “já ganhou” (para uns) e de “é o fim do mundo” (para outros)

Bolsonaro pode, mesmo, vencer em 2018?
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A pesquisa do site Poder360 que coloca Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva tecnicamente empatados despertou, com iguais intensidades, esperanças e medos de que o ex-militar seja eleito em 2018. Para uns, Bolsonaro encarna o pulso firme de que o Brasil necessita nesta hora para extirpar, de uma vez por todas, a corrupção da máquina pública e impor os bons e velhos costumes a uma sociedade degenerada por anos de tolerância promíscua. Para outros, significa mergulhar o país na Idade das Trevas do autoritarismo e da intolerância, num retrocesso intragável após anos de suadas conquistas sociais. Mas, objetivamente, Bolsonaro tem condições de vencer em 2018?

Por ora, há motivos bem práticos para evitar o clima de “já ganhou” (para uns) e de “é o fim do mundo” (para outros). Primeiro, as eleições só ocorrerão a daqui 15 meses – o que, em política, é uma eternidade, ainda mais em tempos de Lava Jato. Até lá, muitos nomes serão lançados como balões de ensaio. Basta lembrar que, em 2001, pesquisas apontavam Roseana Sarney como a virtual adversária de Lula no segundo turno. E, em 2014, Marina Silva chegou a aparecer à frente de Aécio Neves como vice-líder da disputa, atrás de Dilma Rousseff.

O fato de Lula e Bolsonaro polarizarem as pesquisas, a mais de um ano da eleição, reflete sobretudo o maniqueísmo de nossos tempos. Lula veste o figurino de pai dos pobres, perseguido pela elite branca por promover uma revolução social intolerável a quem não gosta de disputar espaço com pessoas humildes em aviões. Bolsonaro encarna o moralismo irredutível contra a desordem ética e espiritual que, segundo seus eleitores, é a base da corrupção. Afinal, um bom cristão, temente a Deus, nunca roubaria ou deixaria roubar, nem corromperia o país, ao tolerar maus costumes.

Querer não é poder

Mas, vamos lá: primeiro, Bolsonaro precisa se viabilizar como candidato. Isso requer mudar-se para um partido mais forte que o seu nanico PSC. Seu desejo, por ora, é migrar para o PR, dono da quinta maior bancada da Câmara nesta legislatura e do sexto maior tempo de TV em 2014 (um minuto e 16 segundos). Mas está difícil. O ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, jogou pesado com a cúpula do PR: disse que deixará o partido, se Bolsonaro se filiar. O motivo é que Garotinho deseja voltar à vida pública e não quer um adversário que lhe faça sombra dentro de sua legenda.

Há outro complicador: o PR quer Bolsonaro, mas não lhe garante o direito de disputar a Presidência da República. Para o partido, o mais importante seria que o ex-militar se lançasse à reeleição na Câmara. Com a expectativa de uma grande votação no Rio de Janeiro, ele seria o puxador de votos ideal para ampliar a bancada da legenda na Casa.

Os próprios membros do partido já disseram que ainda é cedo para discutir se lançarão um candidato próprio ao Planalto. E isso tem a ver, logicamente, com a conjugação de forças: afinal, partidos como o PR vendem caro (caro mesmo, como se viu na Lava Jato) seu cobiçado tempo de TV. 

Corredor polonês

Mas, vamos supor que Bolsonaro consiga vencer tais resistências e emplacar sua candidatura. Aí, entram outras ponderações. Instantaneamente, ele se tornará um alvo dos demais concorrentes. Sua vida será escarafunchada por rivais e pela imprensa. De denúncias de mau hálito a acusações de notas baixas na escola, candidatos enfrentam um verdadeiro corredor polonês entre as urnas e a rampa do Palácio. Bolsonaro construiu sua imagem, até agora, como homem probo e rígido. Ao oficializar sua candidatura, colocará à prova, mais do que nunca, seu passado.

Partindo do princípio de que não se encontre nada de ilegal nele, o ex-militar ainda enfrentará outro inimigo: suas polêmicas declarações. Centradas, sobretudo, na condenação de homossexuais, na apologia à tortura e à morte de criminosos, na desqualificação das mulheres e de outras minorias, as frases contrariam a necessária parcimônia que um presidente deve ter. As mulheres, mesmo as conservadoras, gostariam de ouvir que Bolsonaro não as estupraria, porque não merecem? Algum pai de família gostaria que um marmanjo dissesse isso a suas filhas? Algum homem que tenha irmã, mãe, tias, amigas ou namorada, esposa (e, claro, um mínimo de juízo)? Lembrem-se de que o processo contra ele, por apologia ao estupro, ainda corre no STF.

Tudo isso será exposto no meio mais poderoso para decidir a eleição: a propaganda eleitoral gratuita. Candidatos com maior tempo de TV baterão sem tréguas em Bolsonaro, caso estejam atrás nas pesquisas ou se sintam ameaçados. Como os cientistas políticos não se cansam de dizer: a sondagem eleitoral que realmente importa é a divulgada uma semana após o início da propaganda gratuita. A maioria dos brasileiros não lê jornais, não lê revistas e gosta apenas de ver gatinhos fofinhos e bizarrices na internet. Logo, só se preocupará com a eleição quando for obrigada.

O Trump brasileiro?

Por último, há quem lembre que Donald Trump, uma espécie de Bolsonaro americano, venceu a corrida pela Casa Branca, contra todas as expectativas. Felizmente, nem sempre é ruim não ser como os americanos. Lá, o voto não é obrigatório. Logo, apenas os mais engajados saem de casa para escolher quem mandará no país.

Aqui, a participação é obrigatória. Por isso, mesmo eleitores não engajados e não fanáticos precisam se manifestar. E, como os cientistas políticos sempre ressaltam, é esse centro quem desempata as eleições. No primeiro turno, ele será disputado por candidatos como Marina Silva e um tucano qualquer. É improvável, até aqui, que qualquer um deles apoie Bolsonaro, num eventual segundo turno, contra Lula.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!