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Bolsa está brincando de “me-engana-que-eu-gosto” com Temer

Márcio Juliboni
há um mês2.4k visualizações

Valorização recorde das ações mostra que o mercado confia mais no governo do que deveria

Bolsa está brincando de “me-engana-que-eu-gosto” com Temer
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(Foto: Rafael Matsunaga/Wikipédia/Agência Fotos Públicas)

Nesta segunda-feira (11), a Bolsa de Valores atingiu o maior patamar de sua história, 74.319 pontos, quebrando o recorde anterior de 73.516 pontos registrado em 2008. Trata-se de um enigma para os economistas. Altas eloquentes da Bolsa são vistas em períodos de otimismo e bonança econômica, como era o Brasil de nove anos atrás, com um PIB que cresceu 5,9%, uma taxa de desemprego de 7,2% e a conquista do grau de investimento – o selo de bom pagador concedido pelas agências de risco. A marca de ontem, contudo, foi batida em um cenário completamente diferente: o país deve crescer pífios “zero-alguma-coisa-por-cento” neste ano; o desemprego está em 12,8% e só não é pior, porque a informalidade aumentou; o grau de investimento evaporou em 2015; a dívida pública está prestes a explodir e a política anda um caos. A dúvida, portanto, é se os investidores são gênios que veem o que ninguém vê ou apenas vivem no País das Maravilhas.

Quem compra e vende ações todo dia justifica a alta, com um argumento que, em linhas gerais, pode ser resumido com um “agora o Brasil deslancha”. Haveria muitos motivos para apostar nisso, segundo aquela famosa entidade chamada “mercado”. Primeiro, a lambança em que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, se meteu com a delação da JBS. A avaliação é que as novas gravações de Joesley Batista desmoralizam Janot a tal ponto, que uma nova denúncia contra o presidente Michel Temer não vai vingar no Congresso. Segundo, e por tabela, Temer pode, a partir de agora, voltar a se preocupar em resgatar a economia do buraco. Para tanto, deverá se concentrar em aprovar as reformas que patinam. Terceiro: nenhum analista de mercado acredita que Lula vencerá a eleição de 2018. Logo, o risco de uma guinada populista de esquerda com uma versão radicalizada do PT está descartada pelo mercado de capitais.

Ovos dentro da galinha

São razões compreensíveis, mas, como sempre, voluntariosas. Há muitos ovos dentro de galinhas nesse raciocínio. Começando pela política, não há garantia de que Temer está firme e forte na cadeira. Todo cientista político sério já está rouco de repetir: a Lava Jato é imponderável. Todo dia, há o risco de um fato novo chacoalhar a política e criar pânico entre quem acredita que se safou. Está aí Joesley preso, ainda que temporariamente, para provar. Geddel Vieira Lima, um dos aliados mais próximos de Temer, também chora na carceragem. Se ele decidir contar o que sabe, pode implodir Brasília. Eduardo Cunha e Lúcio Funaro começaram uma guerra de vida e morte, porque o último decidiu delatar a sujeira de que participou. E, por fim, o próprio Joesley poderá explicar em detalhes o antes e o depois da conversa com Temer no porão do Jaburu. Alguém, em sã consciência, ainda acha que Temer está seguro?

Mas, vamos supor que o presidente tenha corpo fechado e nem quebrante o derrube. O prazo para votar as reformas está acabando. Estamos entrando no último trimestre do ano. Quando 2018 começar, todos os deputados federais e senadores se transformarão, automaticamente, nos maiores defensores dos direitos do povo. Afinal, com muita gente ameaçada de perder o mandato, devido à justificável ira dos brasileiros com os políticos em geral, os parlamentares pensarão duas vezes, antes de aprovarem medidas impopulares como a reforma da Previdência. Qual deles teria coragem de apoiar a implantação da idade mínima e outras medidas e sair na rua, pedindo votos?

Tiro de festim

Mas, vamos supor, mais uma vez, que Temer seja um campeão de resistência. Só haverá um argumento capaz de angariar votos – o bom e velho dinheiro. Em troca da aprovação de temas impopulares, o governo pode abrir os cofres para os aliados se lambuzarem. O problema é que, mesmo que a economia cresça os ridículos “zero-alguma-coisa-por-cento” neste ano, a arrecadação de impostos demorará a se recuperar. Diante da pressão do Congresso por verbas para bancar obras em seus redutos em ano de eleição, Temer terá de se equilibrar entre um discurso de austeridade fiscal e o oba-oba da distribuição de recursos aos aliados. Algo que a imprensa e a oposição adorarão noticiar, e que pode azedar ainda mais o humor dos cidadãos em geral.

Por último, mesmo que o presidente supere todos esses obstáculos, restará a discussão sobre a qualidade das reformas. Uma coisa é fazer uma boa reforma; outra é fazer algo meia-boca só para investidor ver. O mercado pode até ficar animadinho com um “me-engana-que-eu-gosto”: medidas tímidas para garantir um remendo nas contas públicas. A Bolsa poderá, até, comemorar com novos recordes. Mas, como toda bolha, estourará diante da inconsistência das medidas, de sua pouca eficácia e da contínua deterioração fiscal. Não há remédio melhor contra a especulação, do que dar de cara com a realidade.

Delação de Joesley será o batismo de fogo de Raquel Dodge

Márcio Juliboni
há um mês2.8k visualizações

Não há melhor momento para a nova procuradora-geral provar que não deve nada a Temer

Delação de Joesley será o batismo de fogo de Raquel Dodge
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(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Faltam seis dias para que Rodrigo Janot deixe o comando da Procuradoria-Geral da República. Há tempos, uma troca na cúpula do Ministério Público Federal não causa tanta ansiedade. De um lado, o presidente Michel Temer, seus ministros e os caciques do PMDB contam as horas para ver Raquel Dodge assumir o posto. Esperam, com isso, que a indicada por Temer trate a Lava Jato com o devido rigor – um eufemismo para abafar ao máximo provas, depoimentos etc. De outro, os brasileiros querem saber se Dodge jogará para os bandidos ou será inflexível com a corrupção. E, no meio, eis que surge Joesley Batista, um dos donos da JBS, e preso temporariamente por Janot. Não haveria melhor batismo de fogo para a nova procuradora.

Vamos a alguns cenários:

1) Joesley Batista enrola e não conta nada de novo na sua prisão temporária: neste caso, Dodge deverá decidir se mantém o acordo de delação premiada nos mesmos termos que o fechado por Janot. Se o fizer, isto é, se poupar o empresário de qualquer punição e ele sair da carceragem tão matreiro, falastrão e livre, quanto antes, poderá ser acusada de ser fraca para lidar com raposas como ele. Poderá, também, dar a impressão de que não fez questão de perguntar mais, porque poderia achar o que não deseja – implicações contra Temer e ministros do STF, por exemplo. Seria a confirmação de que teremos uma nova engavetadora-geral da República.

2) Joesley conta o que sabe: caberá a Dodge decidir se sua delação tem força, se há evidências concretas do que o empresário delatar, encaminhar as denúncias e rever o acordo de delação, propondo punições mais severas ao dono da JBS. Esse caminho, contudo, também é um campo minado. O que fará a procuradora, caso Joesley delate conchavos com ministros do Supremo? E se ele aprofundar as denúncias de financiamento irregular de campanhas, detalhar suas relações com Temer e a cúpula do PMDB, confirmar que Geddel Vieira Lima era o representante do presidente para assuntos espúrios, explicar para que serviriam os R$ 500 mil na mala de Rodrigo Rocha Loures e, por fim, expor como bancou quase 2 mil políticos de todos os partidos?

Haverá um furacão mais poderoso que o Irma sacudindo Dodge. O STF, que posará de virgem vestal, pressionará a nova procuradora para ignorar as acusações “sem fundamentos” (coloco as aspas, porque é previsível que a Suprema Corte dirá isso). O núcleo duro do governo dirá que Joesley é um mentiroso de carteirinha, que já tapeou Janot e que está propagando "inverdades" em troca de penas mais brandas. A cúpula do Congresso questionará, também, a reputação do empresário. Dirá que não se pode confiar num crápula desses e, pelo bem da estabilidade política, das instituições e da retomada da economia, é melhor enterrar esse assunto de vez. Já a população ficará no fogo cruzado, esperando que alguma justiça seja feita.

3) Joesley envolve Marcelo Miller: se o empresário confirmar que manteve relações reprováveis com um dos principais procuradores da República e braço-direito de Janot, a credibilidade da delação e das provas será bombardeada com mais megatons que qualquer Kim Jong-Un poderia sonhar. Políticos dirão que as provas foram viciadas e coletadas de modo ilícito, e que não cabe a um procurador ser um agente duplo. O problema é que o acordo de delação atual afirma, com todas as letras, que as provas não são invalidadas, caso o acordo vá para o brejo. Dodge terá pulso firme para mantê-las? Abrandará a posição de Janot e aceitará revê-las?

4) Joesley envolve o próprio Janot: a foto divulgada neste domingo (10) pelo site O Antagonista mostra Janot e Pierpaolo Bottini, principal advogado de Joesley, tomando umas num boteco de Brasília. Eles juram pela alma de suas pobres mãezinhas que foi tudo obra do acaso. Encontraram-se sem querer e trocaram algumas palavras por educação. Pode até ser que, a esta altura, o destino seja mesmo um piadista de mal gosto. Mas, vai que...

Seria o suficiente para implodir todo o trabalho da PGR no acordo com Joesley. Muito rapidamente, os envolvidos em outras denúncias de outras delações passariam a questionar a seriedade com que foram feitas. A desconfiança contaminaria todos os atos de Janot, e Dodge teria a desagradável tarefa de separar o joio do trigo. Pode ser que consiga manter o respeito à Procuradoria, preservar a essência das provas de delações anteriores, cancelar falsos testemunhos e picaretagens em geral, e denunciar quem realmente deve à Justiça. Mas pode ser, também, que jogue muito trigo fora, alegando que é apenas joio...

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!