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Bolsonaro é o Lula da direita

Márcio Juliboni
há 3 meses699 visualizações

Messianismo, personalismo, moralismo... petista e ex-militar são mais parecidos do que desejam seus seguidores

Bolsonaro é o Lula da direita
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Com Jair Bolsonaro (PSC-RJ) tecnicamente empatado com Lula na pesquisa do site Poder360, o deputado federal tornou-se o fato novo da corrida presidencial. Embora muita coisa ainda vá acontecer até outubro de 2018, sua disparada na pesquisa é compreensível. Por mais estranho que pareça, os fatores que impulsionam Lula e Bolsonaro são mais parecidos do que os seus apoiadores mais fanáticos desejam.

Primeiro, ambos contam com a sólida retaguarda de grupos da Igreja Católica. Nos anos 70 e início dos 80, a ala progressista dos católicos enxergou, em Lula, uma alternativa para construir um partido de esquerda que não fosse comunista (afinal, alguém já viu padre com quadro do Marx na parede?). O objetivo era lutar contra a injustiça social, mas dentro do quadro de uma renovação do capitalismo (e não de sua superação, como pregam as alas mais radicais do PT). Por isso, a defesa da reforma agrária e das pequenas propriedades rurais (que não deixam, em última instância, de serem capitalistas), e a crença na capacidade de trabalho dos brasileiros como meio para ascender na vida.

No caso de Bolsonaro, os grupos católicos que o apoiam, obviamente, são distintos. Representam o conservadorismo da igreja. Para os conservadores, lidar com a injustiça social é muito mais uma questão de caridade (faça uma doação, de vez em quando, e alivie sua alma) do que de transformação estrutural. De qualquer modo, eles também apostam no poder do trabalho para ascender socialmente – não é por acaso que defendem sem tréguas a propriedade privada.

Salvadores da Pátria

Mas o que os católicos de direita e de esquerda têm em comum? Messianismo. Na fé, ele é representado pela crença de que Cristo retornará à Terra para vencer o Diabo na batalha final do Armagedon e resgatar os puros de coração. Na política, ele é representado pela esperança de que um líder forte e carismático se coloque acima do Bem e do Mal, a fim de promover a ordem e a justiça terrenas.

Segundo: promover a ordem e a justiça terrenas pressupõe combater o Mal que desgraça a política e a sociedade. Vejamos como isso ocorre na política. Nos bons tempos em que era estilingue e não vidraça, Lula não se cansava de se vender ao eleitorado como o único capaz de moralizar a política. Era imaculado, puro, pairava como um Cristo sobre as águas do Paranoá. Alguém se lembra de quando ele disse que, no Congresso, havia “300 picaretas com anel de doutor”, frase eternizada em uma música dos Paralamas do Sucesso?

Agora, nos tempos da Lava Jato, a bandeira da ética na política mudou de mãos. Ela foi delegada, por parte dos eleitores da direita, a Jair Bolsonaro. Ex-militar, ele encarna a idealização de que bastam a ordem e o cumprimento da lei para que a corrupção acabe. Para tanto, é necessário aplicar a disciplina dos quartéis à máquina pública e às relações com os outros poderes. De qualquer modo, não deixa de ser um pensamento mágico. Bolsonaro seria o único capaz de inspirar ética na corporação de tecnocratas, caminhando sobre o espelho d’água do Palácio do Planalto.

Papai chegou

Terceiro: tanto Bolsonaro, quanto Lula são vendidos como a panaceia para o resgate social. É claro que há diferenças. Para os petistas, tal resgate significa combater séculos de injustiças sociais por meio de políticas inclusivas (mesmo quando elas se transformam em uma camisa-de-força assistencialista e paternalista). Para os bolsonaristas, significa reagir àquilo que enxergam como deterioração dos costumes. Nunca é demais lembrar a fixação de Bolsonaro em questões de gênero – para rejeitá-las como uma tentação de Satanás.

Por fim, tanto Bolsonaro, quanto Lula despolitizam e desmobilizam a sociedade. Ao personalizar as soluções para os graves problemas do país, ambos impedem que seus seguidores cogitem que o Brasil deve funcionar independentemente das intervenções de Deus, por meio de seus profetas escolhidos. Ambos compartilham ainda de certo tom autoritário, próprio de quem se acha o único portador da verdade, do caminho e da luz.

Ambos são, sobretudo, uma prova de que os brasileiros continuam delegando a terceiros uma tarefa que deveria ser de todos nós: nos tornarmos uma sociedade realmente justa e próspera, capaz de andar sozinha cumprindo as regras que ela mesma deliberou. E não há milagres ou santos que possam nos ajudar.

Emenda Lula: por que pagaremos para condenados escaparem da Justiça

Márcio Juliboni
há 3 meses930 visualizações

Candidatos à prisão pela Lava Jato cobrarão de você as contas das campanhas com que escaparão da Justiça, sob as bênçãos da Emenda Lula

Emenda Lula: por que pagaremos para condenados escaparem da Justiça
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Um dos assuntos mais comentados no Twitter na manhã deste sábado (15) foi a Emenda Lula (#emendalula). Trata-se de um artigo que proíbe que candidatos sejam presos oito meses antes da eleição. A esta altura, o PT nem disfarça mais sua intenção de blindar, custe o que custar, o ex-presidente, condenado em primeira instância por Sérgio Moro a nove anos e meio de prisão. O problema, o grande problema, o escandaloso problema, é que, mesmo feito sob medida para Lula se livrar do xadrez e concorrer à eleição em 2018, o artigo também beneficiará outros réus da Lava Jato. A impunidade vai virar lei.

Relator da reforma política, o deputado federal Vicente Cândido (PT-SP) é o responsável pela proposta, segundo o Estadão. Ele incluiu o artigo no projeto de lei um dia, apenas um dia, após Moro condenar Lula. E, com toda a candura do mundo, admitiu ao jornal que se trata mesmo de uma manobra para blindar seu líder, mas tentou justificar-se com uma análise política de manual mimeografado de militante. Disse que a norma é “para todos, para esse momento que vive o Brasil. Nós estamos vivendo um momento anormal no Brasil, de muita judicialização da política, de uma política muito policialesca”. Não poderia ser mais cândido...

A proposta tem tudo para ser aprovada. Se há algo, nos dias de hoje, capaz de unir rivais políticos de todos os tons ideológicos, é a tentativa de escapar da Lava Jato. Não ser preso oito meses antes de uma eleição garante muitas regalias, inclusive, o de se eleger e ganhar, assim, foro privilegiado, entrando na vagarosa fila de casos que se acumulam nas mesas do STF. Basta comparar o número de sentenças da operação em primeira instância (e mantidas pelos desembargadores), e a pilha de casos empeirando em Brasília.

Tem pra todos

Não apenas Lula, mas candidatos à eleição ou reeleição em todos os níveis do Legislativo e do Executivo seriam blindados. Faça as contas: candidatos a deputados estaduais, deputados federais, senadores, além de candidatos a governador e a presidente. Tudo isso, apenas em 2018. Depois, em 2020, também entrarão na farra candidatos a vereador e a prefeito. E de todos os partidos campeões em citações na Lava Jato: PP, PMDB, PT, PSDB...

Agora, imaginem todos esses réus, com salvo-conduto de oito meses, disputando o foro privilegiado com o seu dinheiro, caros leitores. Sim, porque, com a proibição das doações de empresas, as campanhas serão financiadas com dinheiro público (o tal fundo partidário e o tal fundo de campanhas que o Congresso pretende criar). Resumindo, você, eu, todos os brasileiros estaremos, literalmente, pagando para que condenados escapem da Justiça.

Diante de tudo isso, só há uma coisa em que Vicente Cândido está correto: vivemos, realmente, "um momento anormal no Brasil".

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!