Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Cale-se e pague: o jeito como políticos e sindicalistas querem falar em seu nome

Márcio Juliboni
há 2 meses845 visualizações

Para os que se autonomearam nossos líderes, só cabe um papel ao povo: aplaudir e apoiar – de preferência, com dinheiro

Cale-se e pague: o jeito como políticos e sindicalistas querem falar em seu nome
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Imagem: Os presentes da Rainha de Sabá, Mattia Preti)

Dois assuntos que andam ao mesmo tempo no Congresso mostram o tamanho da crise de representatividade enfrentada pelo Brasil. De um lado, com a reforma política, os deputados querem, porque querem, criar um fundo público para financiar as campanhas eleitorais. De outro, os sindicalistas não se conformam com o fim do imposto sindical obrigatório e batem o pé, fazendo beicinho, para ganharem uma contribuição de até 13% do salário mensal dos trabalhadores como compensação. O que há em comum nos dois casos? A absoluta falta de vontade de políticos e sindicalistas de fazer o básico: representarem adequada e efetivamente o povo, a ponto de que os brasileiros, espontaneamente, os financiem para que continuem a defendê-los.

Mas isso dá muito trabalho, não é mesmo? Exigiria uma profunda mudança nas estruturas políticas, e não apenas uma reforma eleitoral cosmética. Passaria pela proibição de coligações, pelo fim de partidos de aluguel que querem apenas dinheiro do fundo partidário. Por cláusulas de barreira e de desempenho. Pelo fim do troca-troca partidário que implode qualquer fidelidade ideológica. Pelo voto distrital. Pela efetiva fiscalização das campanhas. Por regras mais rígidas para seu financiamento, restringindo a força do dinheiro e forçando as legendas a pulverizarem seu apoio.

Angariaria mais grana, quem mais conseguisse mobilizar cidadãos para a sua causa. Tocaria, também, na renovação das próprias estruturas internas dos partidos, permitindo a realização de prévias e assembleias para que novas lideranças, mais antenadas com seus militantes, surjam de tempos em tempos, escanteando ultrapassados caciques.

Companheiros, companheiros...

No movimento sindical, o cenário também é desanimador. O imposto sindical, que deve ser extinto em novembro, foi vendido como o caminho para apoiar as entidades que defendem o elo mais fraco na relação capital-trabalho: os empregados. Na prática, porém, tornou-se um grande criadouro de gatos gordos, mais preocupados em se reelegerem e se transformarem em braços de partidos políticos, do que em efetivamente representar as demandas da classe que finge defender.

Assim como os partidos, as centrais sindicais, federações, sindicatos e que tais deveriam passar por uma completa transformação, com o objetivo de tornar mais transparentes sua gestão, seus dirigentes, seus processos de decisão. Em vez de cobrar compulsoriamente uma taxa de todos os trabalhadores de uma dada categoria, o ideal seria incentivar filiações, contribuições espontâneas, doações, à medida que os sindicatos se empenhassem sinceramente em se aproximar de sua base, ouvi-la e, sobretudo, prestar-lhe contas. Tornar os processos de eleição mais democráticos, assegurar a rotatividade de chapas, a tão badalada alternância de poder.

Dilema de Tostines

Políticos, sindicalistas, cínicos e céticos em geral poderiam responder, prontamente, que os brasileiros são extremamente despolitizados. Pouquíssimos cidadãos dão bola para esses assuntos e, portanto, as chances de organizações políticas e sindicais se sustentarem apenas com doações espontâneas são nulas. Mas caímos, então, no Dilema de Tostines (essa é velha; agora, entreguei minha idade!!!): os brasileiros são despolitizados, porque partidos e sindicatos não se importam sinceramente com eles; ou partidos e sindicatos não se importam com os brasileiros, porque somos despolitizados?

Cada vez mais, penso que a despolitização dos brasileiros, sua aversão à organização, ao exercício da cidadania, tem fortes influências do modo como surgimos como país (basta ler Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda). Mas há, também, um conveniente desinteresse de políticos e líderes sindicais em, de fato, se dobrar às aspirações populares. Da mesma forma como somos alijados de serviços públicos de qualidade, como educação, saúde e segurança, também somos marginalizados das verdadeiras possibilidades de uma atuação consciente e cidadã. Não há nada mais incômodo para políticos e sindicalistas do que serem questionados por uma pessoa comum. Não há nada mais irritante, para eles, do que prestar contas. Para os que se autonomearam nossos líderes, só cabe um papel ao povo: aplaudir e apoiar – de preferência, com dinheiro.

O que Trump nos alerta sobre a “onda Doria”

Márcio Juliboni
há 2 meses1.2k visualizações

Assim como o empresário-presidente americano, Doria quer ser visto como não-político e bom gestor. Se sairá melhor que Trump?

O que Trump nos alerta sobre a “onda Doria”
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Foto: Cesar Ogata/SECOM)

Políticos não perdem tempo paparicando quem não tem o que lhes oferecer. É por isso que os rapapés do presidente da República, Michel Temer, ao prefeito de São Paulo, João Doria, precisam ser vistos com lupa. Os salamaleques ocorreram nesta manhã de segunda (7), durante uma cerimônia na capital paulista. Para Temer, Doria é “alguém que entende como ninguém os problemas do país.” O peemedebista não está sozinho. Nos últimos dias, Doria atrai manifestações públicas de apoio de todos os lados. É um sinal de sua ascensão no PSDB como liderança e potencial candidato ao Planalto em 2018. Em comum, enfatizam sua juventude, sua origem “não política” e sua habilidade como homem de negócios. O problema é que já vimos esse filme há pouco tempo, e seu protagonista, Donald Trump, está fazendo um verdadeiro pastelão.

É verdade que Doria parece, até o momento, muito mais equilibrado que Trump. Não se imagina o prefeito paulistano se gabando de agarrar mulheres pelas partes íntimas. Mas o ponto, aqui, é quanto esses selos de “homem de negócios” e “não-político” são realmente úteis ao Brasil sufocado por dois anos de recessão e perigando engatar o terceiro.

Até agora, objetivamente, pouco se viu da gestão Doria. A Operação Cidade Linda é muito mais marketing do que ações efetivas. Serviu para comprar uma briga desnecessária com grafiteiros e para postar vídeos com alfinetadas e caneladas nos adversários. O alvo preferido é Luiz Inácio Lula da Silva, o que reforça a impressão de que, por mais que negue, Doria embala sim o desejo de concorrer à Presidência.

Tropeçando no básico

A parceria com hospitais privados para zerar a fila de exames da rede de saúde municipal, o famoso Corujão, esbarrou em algo embaraçosamente trivial: pessoas humildes, moradoras da periferia, simplesmente não conseguiam chegar ao local da consulta tarde da noite ou de madrugada por pura falta de transporte público. Um gestor experiente não teria pensado nisso, antes de lançar o programa?

A intervenção na Cracolândia serviu apenas para espalhar os dependentes, criando, assim, minicracolândias em vários pontos do Centro da cidade. Ficaram claros, a falta de planejamento e o casuísmo das medidas – algo muito frustrante para quem se vende como um administrador de primeira. Se a operação fosse, mesmo, estudada com antecedência, não se veriam, nos dias seguintes, embates frequentes entre policiais e viciados, nem os protestos da população do entorno, reclamando que o problema apenas mudou de lugar.

Sua recente viagem à China para vender oportunidades de investimento em São Paulo deixou boas fotos em seu Facebook, mas poucos negócios concretos. Doria já visitara o Oriente Médio logo no início de sua gestão. Ainda assim, passados alguns meses, não se viu nada de efetivo daquela viagem. Seu pacote de projetos inclui a privatização de parques e outras áreas municipais, como o Pacaembu, o ginásio do Ibirapuera e Interlagos. A dificuldade óbvia é como tornar esses empreendimentos lucrativos e, portanto, atraentes para a iniciativa privada. Até o momento, há poucas soluções convincentes. Não deixa de ser curioso, já que se espera que um “prefeito-gestor-não-político” já tivesse uma resposta na ponta da língua.

Mandar fazer não adianta

Trump, nos Estados Unidos, assumiu o poder com o mesmo discurso de homem de negócios que só entrou na política para mudá-la. Gerir um país, segundo o polêmico republicado, seria o mesmo que gerir uma grande empresa: basta mandar fazer. Infelizmente, a política vive de vergonhosos melindres, muxoxos, suscetibilidades e fisiologismos em geral, mas também de saudável e necessário debate público de ideias, confronto respeitoso de visões, costuras de consenso.

Um gestor privado não precisa buscar consensos. Deve limitar-se a extrair o máximo rendimento da companhia. Se algo estiver em seu caminho, basta eliminá-lo. É o que Trump faz, a torto e a direito, na Casa Branca. Demite assessores poucos dias depois de nomeá-los, atropela ritos do Congresso e da Presidência etc. Se Doria adotar o mesmo estilo “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, não irá longe no Palácio do Planalto. Em política, para o bem e para o mal, mandar fazer não é um bom jeito de garantir que as coisas sejam feitas.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!