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Caro homem branco, pare de se fazer de vítima na política

Márcio Juliboni
há 2 meses4.9k visualizações

Que direitos o governo e a sociedade estão lhe roubando? Os de agredir mulheres, discriminar outras raças e matar homoafetivos por puro medo?

Caro homem branco, pare de se fazer de vítima na política
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(Foto: membros da Ku Klux Klan/ Domínio Público/ Flickr)

Não demorou muito para que brasileiros de várias idades, nível educacional e faixa de renda saíssem em defesa dos supremacistas brancos que marcharam em Charlottesville no fim de semana. Aos que criticam a omissão de Donald Trump nos primeiros dias após os confrontos e a morte de uma militante antissupremacista, atacam com o que têm de melhor (RISOS): sites que juram que tudo não passou de uma armação da extrema-esquerda americana para queimar o filme dos pobres meninos brancos que defendiam legitimamente seus direitos.

A quem critica o discurso de ódio de Trump, exibem sua disfunção cognitiva e respondem, com veneno, de que não há nada que ligue o presidente americano à violência vista nos últimos dias nos EUA. Por fim, a quem adverte que, nas atuais condições políticas, o Brasil corre um sério risco de eleger um Trump verde-amarelo, rasgam-se em gargalhadas, dizendo que isso é choro de quem tem medo de um governo firme. Enfim, coisa de maricas que não aguenta um presidente cheio de testosterona.

Mas o que esses aspirantes brasileiros a supremacistas omitem, convenientemente, é que o ódio de seus colegas americanos é causado pelo mais puro medo de que a sociedade avance – e os deixe para trás. Numa perversão de raciocínio típica de paranoicos, acusam seus críticos de vitimismo, enquanto marcham para denunciar supostas injustiças de que seriam... vítimas!! Papo de jornalista mal informado e canalha? Bom, veja, caro homem branco, o que Vincent Law, um supremacista que participou do ato em Charlottesville, escreveu no site AltRight.com:

“Não temos mais medo.

Para uma minoria considerável e capacitada de nossos jovens homens, o inato e masculino desejo de construir algo maior que si mesmos, de ser parte de uma tribo e deixar um legado para nossas crianças, agora supera o medo de doxxing [prática de hackear alguém em busca de informações pessoais], de perder seus empregos, e do ostracismo social. De fato, as ações orwellianas das várias entidades governamentais envolvidas na supressão de nossos direitos só endureceram a determinação de nosso movimento."

Perguntas: a que direitos se referem, quando denunciam ações orwellianas do governo? Ao direito de ocupar 56% do mercado de trabalho, sendo que as mulheres representam 51,6% da população brasileira? Ao direito de ganhar 24% mais que elas ao exercer a mesma função? Ao direito de assediá-las moral e sexualmente no trabalho, nos transportes e nas baladas? De cometer violência doméstica e sair impune? De cometer feminicídio e se livrar?

Os direitos são de todos

Ao direito de ganhar 47% mais que os negros, quando se trata de empregos de nível superior? Ao direito de criar um ambiente de trabalho em que 60% dos negros afirmam já ter sofrido alguma espécie de racismo? Ao direito de matar uma pessoa a cada 25 horas por homofobia?

São a esses direitos que se referem os revoltados homens brancos? Se forem, francamente, essa macheza de filme B é apenas uma grande fachada para a geração mais egoísta, medrosa, frágil e insegura de homens dos últimos tempos. Agora, se eles se referem ao direito a um bom emprego, a uma vida digna e em paz... caramba! Isso não é um direito exclusivo deles. É direito de todos, independentemente de sexo, raça, credo etc. Um direito pelo qual todos estão lutando – e não se fazendo de vítima, como acusam os homens brancos. Homens que se garantem ajudam os outros a crescer e não lhes puxam o tapete para eliminar a concorrência. Quem faz isso não é homem. É um covarde branco... de medo.

Você ainda quer um Trump brasileiro, depois de Charlottesville?

Márcio Juliboni
há 2 meses4.9k visualizações

Bolsonaro trairia suas convicções e todo o seu passado para condenar um ataque homofóbico que terminasse em morte da vítima?

Você ainda quer um Trump brasileiro, depois de Charlottesville?
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 (Foto: Gabriela Korossy/ Câmara dos Deputados/ Fotos Públicas)

Os violentos confrontos deste fim de semana em Charlottesville, na Virgínia, devem servir como um grande e barulhento alarme para todo brasileiro que sonha com um Donald Trump para chamar de seu em 2018. As enrascadas em que o presidente americano se meteu são um exemplo do que também pode acontecer por aqui, caso um candidato com traços autoritários, populistas, conservadores e reacionários ocupe o Planalto. Basicamente, Trump vive o seguinte dilema: negar suas convicções e condenar os ataques, ou manter sua integridade e deixar o país pegar fogo? Um eleito com perfil semelhante ao do republicano viveria o mesmo drama no Brasil.

A mesma catapulta que lançou Trump dentro da Casa Branca também foi usada, pelo então candidato, para atirar bólidos racistas, sexistas e de intolerância em geral durante a campanha. Foi eleito com as graças de grupos de extrema-direita, como a Ku Klux Klan, da qual, aliás, seu pai, Fred Trump, é suspeito de participar na juventude, segundo o The New York Times. No governo Nixon (veja a ironia), Trump pai e Trump filho foram processados pelo Departamento de Justiça por discriminar negros que buscavam imóveis para alugar. O caso só foi encerrado porque Donald Trump, diante da avalanche de provas apresentadas pelos promotores, aceitou fazer um acordo para acabar com essa baixaria. Ex-funcionários do grupo, porém, afirmam que a discriminação apenas foi para baixo do tapete, mas não acabou.

Trump não mudou de lá pra cá, a ponto de sugerir, diversas vezes, que Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos, mexicanos são estupradores etc. Bastaram seis meses de alguém assim no Salão Oval, para que supremacistas brancos pusessem suas tochinhas pra fora e marchassem como nos tempos do apartheid que vigorou no sul do país. E, depois, atropelassem (e matassem) quem estava no seu caminho, opondo-se às suas ideias (até a simbologia do episódio é dantescamente rasteira).

Quem espalha gasolina e quem risca fósforos

O discurso de ódio não é exclusividade dos EUA. No Brasil, o ódio a minorias de gênero, cor, credo e linha partidária está cada vez mais escancarado. Jair Bolsonaro e Ronaldo Caiado são incensados por extremistas como as possíveis encarnações de um Trump tupiniquim. Eles fazem por merecer, claro, com seus discursos inflamados contra o que consideram “politicamente correto” – ou seja, toda a luta pela ampliação e equiparação de liberdades. Bolsonaro, lembre-se, chegou a propor que Enéas Carneiro, o caricato ultranacionalista de direita que fez sucesso nos anos 90, se torne oficialmente um herói da Pátria.

Até pré-candidatos que, em tese, seriam mais moderados, como João Doria, embarcaram na onda da retórica do porrete: fale grosso e bata forte no adversário, pouco importa se isso divide a sociedade, acirra ânimos e incendeia campanhas e ruas. Depois, que a sociedade veja o que sobra no rescaldo.

Alguém eleito com um discurso incendiário cairia na mesma armadilha de Trump: o que faria, diante do primeiro conflito entre quem ele apoia de coração e quem odeia com a mesma intensidade? Bolsonaro trairia suas convicções e todo o seu passado para condenar um ataque homofóbico que terminasse em morte da vítima? Ou falaria genericamente sobre os “vários lados” da violência? Caiado condenaria uma chacina de índios que se opusessem a grileiros, ou se limitaria a declarações protocolares? Depois que um extremista se elege espalhando gasolina por todo o lado, com que moral condenará aquele que apenas acendeu o fósforo?

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!