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Carta aos meus filhos: sobre o medo, o ódio e a política

Márcio Juliboni
há 7 dias1.2k visualizações

Não tenham medo de sentir medo, meus pinguinhos de gente. Só assim, vocês não serão dominados por ele

Carta aos meus filhos: sobre o medo, o ódio e a política
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(Foto: Divulgação/TV Cultura)

"Meus pinguinhos de gente:

Desculpem-me por mais um Dia das Crianças sem vocês. Está fazendo um baita sol lá fora, desses de ir brincar no parque e depois tomar sorvete. É uma pena que não estejam aqui, mas a vida nunca é como queremos, mas como acontece de ser. E aconteceu de eu não encontrar sua mãe pelos desencontros da vida. A esta altura, é improvável que a conheça a tempo de trazê-los ao mundo, para que tenham a bênção de verem-no com seus próprios olhos. É por isso que lhes escrevo hoje: para lhes contar um pouco do que vejo ultimamente. Espero que, ao final, vocês nos perdoem e entendam que ainda há esperança. Mas ela passa pela nossa capacidade de lidarmos melhor com o nosso medo, o nosso ódio e as outras pessoas.

Sabem, meus pinguinhos, é difícil de acreditar, mas em toda a minha vida, nunca encontrei alguém verdadeiramente mau. Desses que têm uma maldade de desenho animado, de conto de fadas, de filme ruim. Isso não quer dizer que as pessoas não façam coisas más. Na verdade, a maior parte faz ruindades a vida inteira. Mas, se elas não têm um coração mau, por que fazem coisas ruins?

A verdade, pentelhinhos, é que tudo nasce do medo. As pessoas não são más... são medrosas. Há muita coisa que nos assusta, durante a nossa vida. Começa com os monstros que imaginamos embaixo da cama e no armário (o seu papai, por exemplo, achava que tinha monstros e fantasmas andando no telhado e acordava seu avô, muitas vezes, para ele olhar...). Depois, esses monstros se disfarçam de outras coisas: o medo de não ter amigos; o medo de não encontrar um amor; o medo de não encontrar um emprego; de não conseguir viver bem; de não conseguir criar os filhos... mas todos esses medinhos obedecem a um rei, um rei-medão: o nome dele é o Medo do Desconhecido.

O poder desse rei-medão vem daquele frio na barriga que a gente sente daquilo que a gente não sabe; daquilo que a gente nunca viu; daquilo que a gente não consegue imaginar como vai ser, como vai acontecer, como vai mexer com a gente, como vai mudar a nossa vida. Para escapar do medo, as pessoas fazem muitas coisas, e nem sempre coisas boas. As mais corajosas, mais valentes, olham bem fundo nos olhos desse Medo. Sabem o que acontece? Muitas, muitas vezes, essas pessoas valentes descobrem que o Medo não é assim assustador. Que, quando a gente tem coragem de conhecer o que a gente não sabe, de olhar para ele com curiosidade, encontramos coisas boas, legais... o Desconhecido tem muito a nos ensinar, se a gente tiver coragem! E, depois de algum tempo, o Desconhecido será um amigo bom, sábio e nem um pouquinho assustador. Se ele era estranho no começo, esquisitão, depois, passaremos a gostar dele e das surpresas que ele sempre traz.

Mas muita gente não consegue ser tão valente. Muita gente corre apavorada do Desconhecido. E começam a imaginar que ele é um monstro que vai devorar tudo o que essas pessoas gostam, vai acabar com tudo o que elas sonham, com a vida que elas estavam acostumadas a ter. Vejam, meus filhotes, não quero que vocês achem que elas são fracas. Sentir medo é coisa de gente. Vocês, um dia, talvez sintam. Mas a diferença entre os corajosos e os medrosos é que esses aqui se deixam dominar e fazem coisas ruins, porque estão apavorados.

Que tipo de coisa ruim? Ah... muitos tipos. Eles começam a odiar coisas diferentes. Começam a maldizer as mudanças, a detestar qualquer coisa que altere sua vida. Por isso, querem que todos pensem como eles. Começam também a dizer que os outros são culpados pelos medos que sentem: o medo de que alguém roube seu emprego, roube seus amigos, sua família, suas ideias, suas certezas, sua paz de espírito. Não podemos simplesmente rir dessas pessoas. Vocês gostariam que um amiguinho roubasse o brinquedo que vocês mais gostam? Ou que alguém mudasse a letra da música que vocês mais curtem? Ficar chateado com a mudança é parte de ser gente, de ser humano.

Mas o ruim é quando a gente transforma essa chateação em ódio. As pessoas mais corajosas pegam essa chateação e tentam encontrar algo bom nela: uma lição, uma novidade, uma mudança positiva. E, se não encontram, não tem nada de errado em protestar com jeito, com educação, com inteligência, até que elas tenham de volta aquilo que tiraram delas. Mas as pessoas mais apavoradas, mais medrosas, metem os pés pelas mãos e partem para a agressão, para a briga, para as ofensas. E isso vai crescendo, crescendo, crescendo até virar tão grande quanto um monstrão – o monstrão do Ódio. Essas pessoas medrosas, então, pedem para esse monstrengo devorar tudo o que elas não gostam, tudo o que é diferente, tudo o que incomoda, tudo o que chateia.

Há vários jeitos de o Ódio nos alcançar. Um deles é pela política. As pessoas medrosas, chateadas, que têm medo do desconhecido, mandam o Ódio tomar conta da política. Aí, o Ódio coloca, lá no governo, pessoas que cumprem suas ordens: matem essa turma; prendam aquela turma; censurem os outros; mandem todos usarem essas roupas, rezarem essas orações, pensarem desse jeito. Tudo para que as pessoas medrosas olhem em volta e sintam que não estão no meio de desconhecidos. Para que se acalmem, sabendo que o mundo não tem nada de estranho, capaz de assustá-las ou incomodá-las. Para que todos sejam parecidinhos com elas.

Por isso, se um dia, meus filhotes, eu tiver a bênção de trazê-los ao mundo, e puder ter a felicidade de lhes ler em voz alta essa cartinha, há três coisas que eu gostaria que vocês não se esquecessem. A primeira é: não tenham medo de sentir medo. Só assim, vocês não serão dominados por ele. Não tem nada de errado em ter medo. Não sintam vergonha, nem se sintam fracos ou mais bobos que os outros por causa disso. Do mesmo modo, não condenem quem sente medo. Não tirem sarro dessas pessoas, não as maltratem, não as ofendam. Lembre-se de que todo mundo é gente, e gente treme as pernas de vez em quando, sente frio na barriga. Mas, aí, entra o segundo conselho: não deixem que, por medo, essas pessoas façam coisas ruins. Não deixem que elas votem em candidatos que obedecem ao monstrão do Ódio, que deseja apenas acabar com tudo o que é diferente. Que graça teria um mundo pintado apenas de uma cor, não é? Sejam corajosos, diante do Ódio. Digam não a ele. Enfrentem-no. Terceiro: dominem seu medo e deem um voto de confiança ao Desconhecido. Às vezes, ele vai decepcionar vocês – e vocês terão o direito de reclamar. Mas, às vezes, ele será um mágico que revelará coisas lindas de sua cartola. E, em vez de odiar todos, vocês amarão cada momento.

Sinceramente, espero muito, mas muito mesmo, de todo o coração, ser abençoado por Deus para estar aqui e ver vocês descobrirem essa magia!

Beijos e Feliz Dia das Crianças! Brinquem bastante aí no Céu! Baguncem muito!

Com amor desse seu papai enrolado pra caramba..."

Você vai votar ou se vingar em 2018?

Márcio Juliboni
há 7 dias984 visualizações

Em vez de protestar nas ruas, brasileiros querem se expressar nas urnas. Será que se arrependerão do que vão dizer aos políticos?

Você vai votar ou se vingar em 2018?
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(Imagem: V de Vingança/Divulgação)

Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), publicada nesta semana, traduziu em números aquilo que já estava no ar: o povo cansou de ir às ruas e espera as eleições de 2018 para dedetizar a política brasileira. Elaborado pela sua Diretoria de Análises de Políticas Públicas (DAPP), o estudo mostra que 58,8% dos entrevistados concordam que protestar é importante para pressionar o governo a mudar, mas não pretendem mais participar de manifestações. O motivo é que 74% das pessoas acreditam que é mais importante saber votar do que comparecer a atos públicos. Não há nada de errado até aqui. Afinal, uma democracia madura e saudável pressupõe que as pessoas votem bem. O problema é o que, raios, os brasileiros entendem por “saber votar”.

O perigo está, justamente, nessa autodeclarada sabedoria dos eleitores – algo para lá de subjetivo. A mesma pesquisa apontou que 18% dos entrevistados, em 2018, votarão nos candidatos do partido que apoiam. Para esse grupo, portanto, “saber votar” é ser fiel às suas convicções político-partidárias, pouco importa se a legenda de que gostam está mais ou menos mergulhada na lama da corrupção. Outros 16,1% pretendem votar em alguém que já atua na política, independentemente do partido. São os que buscarão uma agulha de honestidade no palheiro do fisiologismo nacional. Há, ainda, quem esteja tão cansado do que viu nos últimos tempos, que deseja mudanças mais profundas e quer apoiar um candidato novo, cujo passado não esteja emporcalhado pela política tradicional. Estes representaram 29,8% dos consultados pela DAPP/FGV. Por fim, outros 29,3% declararam que votarão em branco ou anularão seu voto. Na prática, estão nos dizendo que não há ninguém digno de respeito no horizonte.

Se, por um lado, a disposição das pessoas de renovar a política é bem-vinda, por outro, ela anda de mãos dadas com o risco do voto vingativo, de protesto no mau sentido da gozação, da zombaria, da desqualificação do Congresso, por meio da eleição de subcelebridades, atletas decadentes, aventureiros caricatos. Há uma grande brecha mental para que isso aconteça: aquela que diz que “todo político é igual”, “todo político é corrupto”, “a política está podre” etc. Essa percepção também foi medida pela FGV: 64% dos entrevistados concordaram totalmente que o sistema político brasileiro impede o surgimento de um líder honesto e preocupado sinceramente com o povo. Outros 13% concordaram mais do que discordaram da afirmação; e apenas 9% discordaram totalmente dessa avaliação.

Filme de suspense

Traduzindo: somados, 77% dos brasileiros creem total ou majoritariamente que a política é incapaz de produzir líderes dignos, honestos e comprometidos com a população. Agora, imagine a maioria desses eleitores desiludidos dispostos a votar em alguém novo, sem passado político. Só há três finais possíveis para esse dilema. No primeiro, eles realmente encontram o Santo Gral da política – um nome novo, honesto, capaz e com sensibilidade social. No segundo, se deixam iludir por algum aventureiro com uma boa conversa fiada, hábil em transformar sua inexperiência em selo de honestidade. No último, os eleitores concluem que a democracia brasileira é uma grande mentira e elegem candidatos esdrúxulos apenas para protestar e se vingar das velhas raposas que assaltaram os cofres públicos.

Dá para ficar preocupado com o fato de que, desses três finais, dois são bastante ruins? A história está cheia de exemplos de eleitores iludidos ou que votaram com o fígado e prejudicaram o país. Está aí o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conduzido à Casa Branca por um tsunami de emoções como medo, preconceito e desejo de autoafirmação de parte dos americanos – aquela composta por homens brancos de meia idade. Não é difícil enxergar as consequências de deixar que mágoas e birras decidam seu voto. Nesta quarta (11), por exemplo, a Associated Press divulgou uma pesquisa que mostra que 65% dos americanos consideram que o estilo machão de faroeste de Trump coloca em risco a segurança do país, ao provocar desnecessariamente a Coreia do Norte. Vamos seguir o mesmo caminho? É um suspense de tirar o fôlego...

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!